"Um alentejano combateu na guerra da independência grega"

Brunch com o embaixador da Grécia em Portugal.

Tal como a embaixada, a residência oficial do embaixador da Grécia fica no Restelo (que disputa com a Lapa o estatuto de bairro diplomático de Lisboa), e acaba por ser fácil de encontrar tanta é a visibilidade lá no topo do mastro da bandeira com a cruz e as listas em azul e branco. Este brunch com Ioannis Metaxas, o diplomata veterano que há dois anos está em Portugal, é realizado numa sala ampla, com janelas abertas para o jardim, e a mesa onde nos sentamos a conversar em português (já explico!) tem comprimento que chega e sobra para a distância que a lei exige nestes tempos de pandemia. Apesar da covid-19 e dos confinamentos a que obriga, o embaixador grego quase de certeza tem sido dos mais atarefados nas últimas semanas, pois teve de organizar em janeiro a visita do seu primeiro-ministro e logo depois a do ministro dos Negócios Estrangeiros. E agora está empenhado em assinalar os 200 anos do início da Guerra de Independência da Grécia, 1821.

"Celebramos 200 anos do início da Guerra de Independência, mas também da organização do Estado grego moderno, já que existia uma experiência ao nível das autarquias que permitiu começar a organização do país. Aquele período entre 1821 e 1832 é considerado a Primeira República Helénica. Nele organizaram-se instituições que existem ainda. O país votou a primeira Constituição em 1822. O primeiro governador, que era uma espécie de presidente da República, Ioannis Kapodistrias, veio para a Grécia em 1828, já depois de ter deixado de viver na Suíça e na Rússia, da qual foi ministro de Negócios Estrangeiros. Exerceu os seus deveres até 1831 e lamentavelmente foi assassinado e foi o coronel António de Almeida quem prendeu um dos dois assassinos. Foi o grande momento de Almeida na Grécia", explica, enquanto bebe café, Ioannis Metaxas, ateniense de 64 anos, jurista de formação, um apaixonado por história e fluente em português.

"António de Almeida era um oficial português, que serviu no exército até à Guerra Peninsular. Mais tarde integrou a missão filo-helena do coronel Fabvier e chegou à Grécia em 1825, participou em várias operações de tornou-se coronel de cavalaria. Podemos considerar hoje que é um dos cofundadores do exército grego moderno."

Ora, que mistérios estão por trás de um militar chamado Almeida a capturar o assassino de Kapodistrias e de um embaixador grego a falar português com à-vontade? Vamos por partes. Primeiro, esclareçamos o segundo mistério: é casado desde 1987 com uma portuguesa, a qual conheceu quando era ela diplomata em Atenas. "Decidi ao casar-me aprender português e candidatei-me a um posto em Brasília." O francês era a língua do namoro, mas tanto um como o outro se esforçaram por saber as duas línguas do casal. Com o filho, a técnica foi a habitual: cada pai falava com ele na sua própria língua e o menino Andreas Alberto, hoje já adulto e a viver em Inglaterra, entendia-os na perfeição. Já o segundo mistério é um objeto de estudo muito querido para o meu anfitrião, que sabe tudo sobre esse alentejano (de Elvas) de armas: "António de Almeida era um oficial português, que serviu no exército até à Guerra Peninsular. Mais tarde integrou a missão filo-helena do coronel Fabvier e chegou à Grécia em 1825, participou em várias operações e tornou-se coronel de cavalaria. Podemos considerar que é um dos cofundadores do exército grego moderno. Serviu como governador nas duas capitais da época, primeiro Aegina e depois Nafplion. Mais tarde tornou-se general. Casou-se com uma descendente da grande família dos Mavrokordatos. Teve dois filhos, os filhos tiveram filhos e um deles, também António de Almeida, tornou-se um herói porque participou na Guerra Greco-Turca de 1897 e depois foi voluntário na Guerra Balcânica de 1912 e morreu em combate. Esse neto é interessante porque cofundou o clube de ténis de Atenas, que ainda existe. Foi campeão de ténis."

Lord Byron foi o mais famoso dos filo-helenos. Houve um grande movimento de filo-helenismo na época, misturado com os ideais da Revolução Francesa. Comités de apoio surgiram em França, Itália, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos. "Tinham conhecimento do passado e sentiam ser seu dever ajudar os gregos a recriar o seu Estado", diz.

Já a nível dos Estados, foi bem diferente. Como sublinha Ioannis Metaxas, bebendo segundo café, "no início nenhum país ajudou a Grécia. Aos poucos, tornou-se claro que seria necessário resolver este assunto. Tal como hoje existe um assunto internacional e as potências decidem resolvê-lo. Os primeiros a ajudar foram os britânicos, que reconheceram os gregos como beligerantes, em 1823. E devo saudar o facto de o príncipe Carlos ter decidido representar o Reino Unido nas celebrações que vão ocorrer a 25 de março. Estará lá se a pandemia o permitir. Depois os governos francês e russo mostraram interesse. Mais tarde aconteceram dois grandes eventos. O primeiro foi a famosa batalha naval de Navarino, onde a frota conjunta britânica, francesa e russa aniquilou a frota turco-egípcia. Ao mesmo tempo houve a Guerra Russo-Turca e em conjunto estes acontecimentos resultaram no fim das operações no território grego, o reconhecimento primeiro do Estado como autónomo e em 1830 o reconhecimento já como Estado independente".

Repito também o café, que foi acompanhado por uns bolinhos e um sumo de laranja, e pergunto se os gregos foram a primeira nacionalidade do Império Otomano a libertar-se. Sim, pois os sérvios começaram antes a luta, mas demoraram mais. Contudo, milhões de gregos mesmo depois de 1830 continuaram a ser governados pelos sultões otomanos, sobretudo os que viviam em Constantinopla, a atual Istambul, e na costa oriental do mar Egeu, incluindo as ilhas.

"A Grécia inicial era muito pequena. Peloponeso, a Grécia continental e as ilhas Cíclades. Salónica só em 1912. Creta também", nota. E as fronteiras atuais "são da integração das ilhas do Dodecaneso, já depois da Segunda Guerra Mundial. Já que todas aquelas ilhas eram habitadas por gregos desde a Antiguidade considerou-se normal que com o Tratado de Paris, que acabou a guerra com a Itália, voltassem à Grécia". Eram italianas desde 1911, por causa da Guerra Italo-Turca.

A escolha de Atenas, a cidade de Péricles, como capital tem uma história curiosa. Como era hábito no século XIX, "foi-se buscar um príncipe alemão para rei. E o pai de Otão, Luís I da Baviera, que conhecia a história, influenciou o filho dizendo que tinha de colocar a capital numa cidade com um grande passado. Até então era Nafplion".

Na sua busca inicial por um monarca, os independentistas gregos chegaram a propor o trono a D. Pedro, então príncipe regente no Brasil e futuro imperador do Brasil e rei de Portugal. Mais tarde, como explica o diplomata, as três potências acordaram que a Grécia não podia ter um monarca ligado a uma das suas famílias reais, quer dizer, nem britânico, nem francês, nem russo. Naquele contexto escolheu-se Leopoldo de Saxe-Coburgo, que entrou em contacto com Kapodistrias, que mandava cartas explicando a situação. Leopoldo entendeu que tornar-se rei da Grécia seria um grande sacrifício, digamos assim. Mais tarde foi rei dos belgas e com sucesso. Depois do assassínio de Kapodistrias, e naquele tempo a mãe de todos os reinos era a Alemanha, escolheu-se um príncipe da Baviera. Chegou em 1833, com 16 anos. Aprendeu a falar grego muito bem. Até depois de sair da Grécia falava com a rainha Amália em grego - ela também aprendeu a língua. Quando em 1862 as potências escolheram outro rei para o país, o filho do rei da Dinamarca, que chegou com o nome de Jorge I e fundou a dinastia que existe ainda, apesar de não reinar mais". O príncipe Filipe de Inglaterra, marido de Isabel II, é da família real grega e daí a dupla relevância de Carlos ir aos festejos.

Comento que numa das minhas idas à Grécia comprei uma história do país que enfatizava a democracia, não a do século V a.C., mas a do século XIX. "Houve uma história constitucional grega forte. Introduziu-se na segunda parte do século XIX o princípio de um governo ter o apoio da maioria do parlamento, o que é uma vitória do sistema representativo democrático. Com o rei Jorge I já o primeiro-ministro tinha apoio da maioria do parlamento, o que não era o caso noutros países. Podemos dizer que apesar das dificuldades a vida democrática evoluiu bem na Grécia. Foi um período de monarquia constitucional. Houve a Segunda República de 1924 a 1935 e hoje estamos na terceira", explica. Foi em 1974, tal como Portugal, que os gregos se libertaram da ditadura, e nesse ano houve um referendo que aprovou a República.

Língua do império romano do oriente era o grego


Ioannis Metaxas tem grande orgulho no passado do seu país, e admite que a Antiguidade faz muito pela imagem nacional, basta pensar na beleza da Acrópole de Atenas, mas alerta que "a visão sobre a Grécia não se pode focar apenas na Grécia Antiga. Houve também o período do Império Romano do Oriente, desde Constantino, o Grande, até à queda de Constantinopla. Com fronteiras diferentes ao longo da história. E podemos dizer que a Grécia é um dos países herdeiros desse império e do ponto de vista cultural o mais próximo dessa herança. A independência da Grécia na Antiguidade acaba no momento em que os romanos chegam à Grécia, em 146 a.C. Depois há um grande período em que a Grécia é uma província romana e existe grande interação entre as duas civilizações. E depois, com a cisão do império, a parte oriental desenvolveu-se sempre com a língua grega e com as tradições gregas. Chamava-se Império Romano mas era um Estado onde a civilização e a língua gregas eram omnipresentes, e esse país medieval sobreviveu até ao século XV. Para os gregos é importante esse sentimento de descenderem de um grande país medieval".

Pequeno país do Mediterrâneo Oriental, "a Grécia está numa região onde Europa, Ásia e África se encontram, três áreas geográficas, e esse encontro até acontece em termos geotectónicos", sublinha, para logo acrescentar que o país evidentemente faz parte da União Europeia, tenta ajudar os países dos Balcãs a aderir, promove a relação com os amigos árabes, sobretudo Egito, Líbia, Síria, Líbano e Jordânia, aos quais chama "vizinhos históricos", tem uma relação muito interessante com Israel, e claro uma relação muito forte com Chipre, onde a maioria da população é de gregos. Nota ainda o bom entendimento com a Arábia Saudita, "que era muito helénica até Maomé e o islão", e com o Koweit, "é preciso não esquecer que a Cidade do Koweit era uma Alexandria. Foi fundada durante o Império de Alexandre".

Peço ao embaixador que me fale da relação com a Turquia, o principal país herdeiro desse Império Otomano do qual a Grécia se libertou há dois séculos. "Todos os governos gregos querem uma relação muito estreita com a Turquia, a Turquia em 1999 foi admitida como candidata à UE com o acordo da Grécia. Apoiámos todos estes anos uma boa relação da UE com a Turquia, mas depende da Turquia entender que o caminho entre a Grécia e a Turquia é o do respeito pelo direito internacional, incluindo o direito do mar, o definido pela UNCLOS, também um acquis europeu. A Turquia é um país importante, ninguém na Grécia quer que as relações com a Turquia piorem."

Voltamos à relação bilateral e percebe-se como Portugal é tão especial para o diplomata, que fala com gosto das Descobertas, nota que Juan de Fuca, que navegou na costa ocidental do Canadá ao serviço de Filipe II, era um grego, tal como havia gregos na frota de Magalhães, um deles, de Chios, um dos 18 que regressaram com Elcano a Espanha, fazendo a circum-navegação. Também a língua portuguesa lhe é querida, notando que talvez 30% das palavras tenham origem grega, e nem sempre as óbvias, mas também, por exemplo, "assintomáticos", que até pronunciamos igual.

"Relações diplomáticas em 1837, primeira apresentação de credenciais em 1838, à rainha D. Maria II, Embaixada da Grécia em Portugal desde 1946, grande número de acordos em vigor, cooperação estreita dentro da NATO e da UE, relações sempre agradáveis entre diplomatas de ambos os países (falou da amizade com a família de diplomatas Mathias), comércio que não é grande mas cresce, turismo que antes da pandemia estava a crescer bem, investimento da EDP", refere Ioannis Metaxas, agradecendo ainda a ajuda da GNR e da Polícia Marítima à Operação Poseidon que no âmbito do Frontex vigia as águas gregas e o acolhimento de refugiados vindos da Síria e não só. "E total apoio aos objetivos da presidência portuguesa da UE", acrescenta este diplomata que, ainda muito jovem, quando estava no serviço de protocolo do Ministério dos Negócios Estrangeiros, foi o organizador da visita em Atenas de Mário Soares, então primeiro-ministro, um momento que nunca deixa de salientar.

Despedimo-nos. E recomendamo-nos mutuamente cuidado redobrado neste tempo de pandemia. Ah, já agora, pandemia também é uma palavra grega, uma dos tais 30%.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG