Quem é Carmen Mola? À pergunta de um milhão responderam três homens

Com a atribuição do Prémio Planeta, de um milhão de euros, os três guionistas decidiram revelar quem estava por trás do pseudónimo, para irritação do público feminista.

"Quem é Carmen Mola? Isso importa? Os seus romances cativam-nos com uma originalidade que nos subjuga e nos faz querer mais, muito mais, quando, horrorizados, percebemos que já estamos na última página", disse o diretor do Festival Literário Valencia Negra Jordi Llobregat, sendo esta declaração usada no material promocional dos livros. Afinal, importa. Pelo menos, a partir do momento em que um milhão de euros estava em jogo.

O prémio Planeta, dotado de um milhão de euros para uma obra não publicada, foi este ano atribuído a La Bestia, de Carmen Mola. A autora de novelas policiais negras era comparada à italiana Elena Ferrante por querer preservar a sua privacidade. Sabia-se que era uma professora universitária em Madrid, de 48 anos, casada e com três filhos.

Os seus livros venderam centenas de milhares de cópias com traduções em 11 idiomas e direitos vendidos para a adaptação televisiva. Em Portugal está publicado A Noiva Cigana.

Há dois anos, entrevistada por El Quinto Libro, respondia sobre a sua identidade: "Essa é a pergunta a que não vou responder. Carmen Mola é uma escritora que quer manter a sua verdadeira identidade segura para que possa continuar a viver em paz. Constato que todos querem saber: garanto-vos que ficariam desapontados com a resposta."

A deceção ficou à vista nas redes sociais depois de ter subido ao palco onde estava o rei de Espanha não a professora ou o seu agente, mas três homens. Antonio Mercero (filho de um homónimo criador da série Verão Azul), Jorge Díaz (que viveu na adolescência em Lisboa) e Agustín Martínez destacaram-se como guionistas de televisão, embora todos eles com ficção publicada.

Ao aceitarem o prémio, tentaram menorizar a questão de se terem ocultado atrás de um pseudónimo feminino. "Não sei se um pseudónimo feminino venderia mais do que um masculino, não tenho a mínima ideia, mas duvido", disse Mercero. "Não nos escondemos atrás de uma mulher, escondemo-nos atrás de um nome", disseram ao El País. Ao El Mundo disseram que o nome apareceu de forma não refletida: "Pensámos: Carmen, mola!", isto é 'porreiro'.

As declarações não colheram. O próprio El Mundo diz que "a ideia de uma professora de liceu e mãe de três filhos que ensina álgebra de manhã e escreve romances de violência selvagem e macabra durante as tardes no seu tempo livre foi, ao que tudo indica, uma boa operação de marketing".

Prova disso, os livros da detetive Elena Blanco faziam parte das leituras feministas recomendadas pelo Instituto da Mulher de Espanha.

Em reação à revelação do prémio, a livraria de Madrid Mujeres y Compañia retirou das estantes os livros de Carmen Mola.

Para os três autores, tanto fará. "Estávamos cansados de mentir. Foi por isso que pensámos em sair do armário com estilo, com imenso equipamento elétrico", gracejou Jorge Díaz. "É melhor sermos nós próprios a fazê-lo. E se for com um milhão de euros, tanto melhor."

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