Quando António Ferro romanceava sobre "Mercedes, rápida e com os olhos alanternados"

O volume Ficção revela uma terceira faceta do chefe da propaganda do Estado Novo, que antes foi um jornalista-estrela do DN.

Eça de Queiroz, António Ferro e José Saramago foram nomes que aprendi serem essenciais na história do Diário de Notícias desde o primeiro dia em que me sentei na redação, então no n.º 266 da Avenida da Liberdade, há já três décadas. Só o autor de Os Maias era, dos três, figura consensual, pois Ferro ficou ligado ao secretariado de propaganda de Salazar e o futuro Nobel da Literatura à tentativa de controlo do jornal pelo Partido Comunista.

Dir-se-á que é valorizar demasiado Ferro colocá-lo junto de dois vultos da nossa literatura, mas por outro lado, dos três, foi aquele que foi jornalista durante muitos anos, assinando inúmeras reportagens e entrevistas. Nestas últimas, destaca-se a feita a Hitler, em que Ferro apesar de conseguir fazer apenas três perguntas ao líder nazi publica um extraordinário texto que, curiosamente, mostra que o jornalista ficou de pé atrás com o futuro Führer (estávamos em 1930, Hitler tinha ainda base em Munique).

Mas, e deixemos de lado eventuais comparações com os dois romancistas gigantes que passaram pela redação do DN, Ferro também se aventurou na ficção, publicando entre 1915 e 1929, ou seja quando era já jornalista, mas antes de integrar o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), renomeado após a II Guerra Mundial como Secretariado Nacional de Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI).

A obra de Ferro em ficção está agora disponível num volume por iniciativa da E-primatur, do editor Hugo Xavier. E a uma edição cuidada soma-se uma excelente introdução por Luís Leal, que nos ajuda a perceber o escritor modernista que existiu a par do "enviado-especial estrela do Diário de Notícias", capaz até de ser recebido na Casa Branca, e antecedeu o "sinónimo de propaganda do Estado Novo".

Do ponto de vista jornalístico, Ferro usou e abusou do "eu", o que por vezes valorizou o texto, como no caso da ida a Munique ter com Hitler (que mostra um distanciamento que Ferro não conseguiu manter com Benito Mussolini). Também nunca se preocupou demasiado em esconder preconceitos ideológicos, e isto quando nem sequer imaginaria que uma extensa entrevista a Salazar em 1933 o levaria à cabeça do SPN/SNI, o que também, deontologia à parte, conferia um colorido muito próprio ao que publicava. Ora, aquilo que me surpreendeu depois de ler este Ficção é que de alguma forma a marca de Ferro, o estilo que conheço no jornalista, existe no romancista. Fico-me aqui por um exemplo, o parágrafo inicial de A Amadora dos Fenómenos (livro de 1925): "Mercedes, uma loira incandescente, peça de fogo preso, era uma estrela caída de revistas caídas. Filha duma senhora rica e dum chauffeur, tinha nascido com modos de automóvel: rápida, com olhos alanternados e com uma terrível vocação para atropelar os ingénuos... E foi assim que ela atropelou, certo dia ou certa noite, um sólido comerciante da nossa praça que lhe refez a carrosserie e lhe utilizou os estofos...".

Por curiosidade, e para quem quiser confirmar se o estilo é semelhante ou não, fica aqui o início da "Agitada e sensacional entrevista com Adolfo Hitler, chefe dos nacionais-socialistas": "Chego a Munique, cidade-marioneta, coração musical da Baviera, às nove e meia da manhã. Que pretendo? Porque deixei Berlim e o seu jogo de luzes? Para ver Hitler, para falar a Hitler, para conhecer o herói do romance, o John Gilbert da política alemã. Difícil, muito difícil, eu sei, Hitler é uma espécie de Dr. Asuero: desaparece, foge, torneja, passa como um relâmpago, está aqui, está ali, está acolá... Desconfia muito dos jornalistas, dos jornalistas latinos sobretudo, e manda-os pôr à distância pela sua escolta, pelos empregados da sua "Camisaria Castanha". Não importa! Tentarei o raid. Se for vencido, perdoem-me...".

Ferro continua a fascinar, 65 anos depois da morte. Ao longo dos tempos vão sendo publicados livros, alguns críticos como a biografia António Ferro: O inventor do Salazarismo, de Orlando Raimundo, outros com um toque de carinho, caso de Um Homem por Amar, escrito, sob a forma de romance, por uma neta, Rita Ferro. Este Ficção permite continuar a tentar perceber a complexidade, e os talentos, do homem que conviveu com Fernando Pessoa, Almada Negreiros e Mário de Sá-Carneiro, que foi editor da revista Orpheu (escolhido por ser menor e portanto não responsável criminalmente, mas mesmo assim...) e que teve como mulher a poeta Fernanda de Castro (na ficção de Ferro, como Leviana ou A Amadora dos Fenómenos, as mulheres destacam-se na trama, se bem que, como nota Luís Leal, seguindo estereótipos opostos ao perfil de Fernanda de Castro).

As amizades literárias de Ferro são também interessantes: Luís Leal aponta até o espanhol Ramón Ruiz de la Serna. Por coincidência, numa entrevista com Antonio Saez Delgado, professor de Estudos Ibéricos na Universidade de Évora, já este me tinha assinalado os grandes amigos do jornalista em Espanha: "o primeiro foi Ramón Gómez de la Serna, com quem conviveu em Portugal; foi a ele que imitou".

Neste volume, e graças à Fundação António Quadros (nome de um dos filhos de Ferro, também escritor, além de filósofo e historiador), gerida pela família, surgem fotos bem interessantes de época, como o jantar onde, entre os convivas, estão Ferro, Pessoa e Almada.

Ferro, lisboeta, morreu em 1956 com 61 anos. Depois do SNI, foi diplomata em Berna e Roma.

leonidio.ferreira@dn.pt

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