Para redescobrir um clássico britânico

Entre os muitos clássicos disponíveis nas plataformas de streaming, Um Caso de Vida ou de Morte permite-nos reencontrar os valores espetaculares da idade de ouro da produção britânica.

Eis um clássico cujas maravilhas continuam a seduzir-nos: Um Caso de Vida ou de Morte (1946) é, além do mais, um daqueles títulos que desmentem o cliché segundo o qual a tradição dos filmes grandiosos e a sofisticada utilização de gigantescos espaços de estúdio é um exclusivo da produção de Hollywood.

Estamos perante um clássico absoluto da idade de ouro da produção britânica, assinado por Michael Powell/Emeric Pressburger (o primeiro inglês, o segundo nascido na Hungria), dupla que, através de um requintado gosto experimental, ajudou a redefinir as coordenadas do espetáculo cinematográfico. Por alguma razão, um cineasta como Martin Scorsese sempre se assumiu como herdeiro de Powell (além de ter tido um papel decisivo na reavaliação e no relançamento da sua obra).

Agora disponível numa plataforma de streaming (Filmin), Um Caso de Vida ou de Morte encena uma história de guerra alheia às regras do clássico "filme de guerra". Esta é a aventura do piloto aviador Peter Carter (David Niven) que, poucos meses antes do final da Segunda Guerra Mundial, no regresso de uma missão nos céus da Alemanha, acompanhado pela voz protetora da operadora de rádio June (Kim Hunter), tem um acidente aparentemente mortal... E aparentemente porque, segundo as autoridades celestiais, ele devia ter morrido... De tal modo que Peter vai ser compelido a discutir com essas autoridades o seu direito à vida, tendo como argumento principal o amor que nasceu entre ele e June.

Escusado será dizer que estamos perante um objeto que desafia qualquer noção "naturalista" de cinema. Tudo decorre, aliás, de uma lógica artística em que o detalhe realista (será preciso lembrar o riquíssimo património cinematográfico do realismo britânico?) não exclui, antes potencia, o desenvolvimento de uma narrativa em que o máximo artifício está ao serviço da mais cristalina verdade humana - é mesmo, como diz o título, um confronto entre o desejo de viver e o silêncio impenetrável da morte.

O espectador que descubra agora Um Caso de Vida ou de Morte reconhecerá, por certo, que a ideia central do seu argumento - alguém que, num tribunal divino, resiste à inevitabilidade da sua morte - surge "repetida" na recente animação Soul - Uma Aventura com Alma (Disney+). Não que eu pretenda diminuir os valores criativos do filme dos estúdios Pixar. Nada disso. Trata-se apenas de lembrar que a visão do cinema como um fenómeno que se esgota na agitação dos lançamentos mais recentes não nos ajuda a conhecer a imensa e fascinante pluralidade de mais de cem anos de história.

Não poucas vezes, algum marketing trabalha para esgotar a nossa visão numa espécie de tempo "presente" fechado sobre si próprio, menosprezando até as potencialidades comerciais da valorização de todas as memórias cinéfilas. Entre os muitos exemplos disponíveis para explorarmos essas memórias, Um Caso de Vida ou de Morte aí está, em todo o seu esplendor. Claro que a arte de Powell/Pressburger foi pensada para um grande ecrã... mas não se pode ter tudo.

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