O filme mais pessoal de Casey Affleck

Dois anos depois de vencer o Óscar de melhor ator, Casey Affleck surge como realizador e intérprete no filme Luz da Minha Vida, um drama delicado e intimista acerca de um pai e de uma filha que lutam pela sobrevivência nos EUA.

Numa longa e imersiva cena de abertura, o pai conta uma improvisada história de adormecer à filha. Demora-se nos pormenores, que ela comenta com inteligência, e vai-nos envolvendo a nós, espectadores, num quadro muito íntimo. Fala da aventura de duas raposas - tendo como pano de fundo a narrativa bíblica da Arca de Noé - até chegar ao ponto em que se torna claro que, na verdade, a sua fábula esperançosa se refere às atribulações da espécie humana.

Ele, um pai sem nome, é Casey Affleck, ela, que responde pelo apelido Rag, é Anna Pniowsky. Os dois, quais raposas em fuga, vão viver uma aventura, mas esta sem a equação fácil de um conto para dormir.

Luz da Minha Vida é um trabalho que sai da pele de Casey Affleck: ele realiza, escreve e interpreta como sendo o projeto mais pessoal que alguém pode abraçar. E fá-lo com a espessura, sinceridade e respiração natural que caracteriza este primeiro plano delongado do filme. Mal se sabe então que estamos perante um horizonte distópico, em que quase toda a população feminina desapareceu, devido a uma pandemia global. A mãe de Rag (Elisabeth Moss, que vemos em curtos flashbacks, numa inevitável evocação de The Handmaid's Tale) foi uma das vítimas, e por isso o pai ficou responsável pela proteção da filha, que é um alvo a abater no mundo agora povoado exclusivamente por homens.

Imune, mas em constante perigo, Rag terá de andar sempre vestida com adereços de rapaz e o cabelo muito curto, numa idade (11 anos) em que o seu corpo ainda não desenvolveu os traços da feminilidade. Os dois, pai e filha, vão sobrevivendo nos caminhos da floresta, montando e desmontado a tenda, até descobrirem uma casa desabitada nos arredores da civilização. Aí procuram qualquer coisa parecida com uma experiência doméstica, mas este acaba por ser apenas um abrigo temporário. O trajeto não tem fim à vista.

Se, pela sua premissa narrativa, Luz da Minha Vida faz lembrar A Estrada (2009), de John Hillcoat, ou Os Filhos do Homem (2006), de Alfonso Cuarón, não há quase nada na abordagem de Affleck que alinhe o filme nesse tipo de cenário apocalíptico. A saber, a face desolada da realidade (que se sintetiza bem no retrato de uma biblioteca escolar abandonada) só se constitui o foco do seu interesse na medida em que aperta o vínculo entre pai e filha e os torna, juntos, uma vela acesa que não se deixa apagar na silenciosa paisagem americana. Com um sentido delicado e artesanal de construção dramática, Affleck medita aqui sobre o amor de um pai que ainda está a aprender o seu papel - por isso é tão bonita e frágil a cena, outra, em que ele tenta desajeitadamente explicar a Rag que ela pode estar próxima da puberdade. O caminho faz-se através da subtileza destes momentos de diálogo que pontuam o jogo da sobrevivência e convertem a paternidade numa melancólica aventura.

Minimal, suave e sereno, embora turbulento nos escassos impulsos de ação, Luz da Minha Vida, perpassado pela música de Daniel Hart, é um drama que trabalha a beleza da sua composição imagem a imagem, sem desperdícios e com densidade emocional. Já tínhamos provas de que Casey Affleck - vencedor do Óscar de melhor ator por Manchester by the Sea - é uma presença franca e habilmente discreta na grande tela, mas esta capacidade de transformar uma escrita com tendência para a peripécia numa jornada intimista coloca-o num patamar ainda mais sólido. Ao seu lado, a jovem Anna Pniowsky é uma calorosa revelação, em perfeita sintonia e contraste com a recatada tristeza de Affleck.

*** Bom

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