O caso Johnny Depp

O DN falou ontem à tarde com Johnny Depp, horas antes de receber o prémio de carreira do festival. O ator diz que nunca esquecerá Sintra.

Uma estrela de cinema precisa sempre de carinho. Aqui no País Basco Johnny Depp é um deus, esteja ou não sob ataque depois das acusações de abuso da ex-companheira, a atriz Amber Heard. Um ídolo que faz com que legiões de meninas adolescentes esperem por ele à porta do opulente Hotel Maria Cristina, ele que tem idade para ser avô de muitas dela. Para o festival, o prémio ontem atribuído em reconhecimento da sua carreira funciona como uma arma de arremesso contra esta cultura do cancelamento e da caça às bruxas do politicamente correto. Quando começaram a surgir protestos por este convite, o festival lembrou que nenhum tribunal condenou o ator.

Na conferência de imprensa, Depp sorriu e não pareceu estar tenso ou nervoso, mas com o seu chapéu "clown" e tatuagens salientes, não escondeu uma certa amargura. A habitual pose de estrela de "rock n" roll", muito mais do que estrela de cinema, foi uma espécie de defesa. "O que eu agora dizia ao Johnny Depp jovem em termos de carreira? Acho que seria mais útil o contrário...", respondeu à primeira pergunta do DN. Em seguida, o ator falou do seu conhecido amor pela cultura rom e mostrou-se entusiasmado quando soube que o LEFFEST em novembro vai celebrar esta forma de expressão artística cigana: "Tenho mesmo uma grande paixão por esse povo e atraem-me as pessoas, os músicos. Aprendi muito com eles. Se o festival celebrar essa cultura, aconselho que sejam mesmo uns 10 dias, sobretudo pensando que os casamentos ciganos duram 3... Quanto a Portugal, guardo belas memórias. Foi lá que filmei com o Roman Polanski e nunca esquecerei Sintra, local lindo, gosto também muito do Porto".

Sobre o seu caso, Depp foi sempre cauteloso mas não teve medo de falar em "dias complicados" e não fugiu a uma pergunta sobre redes sociais: "Sinto-me seguro, sim... Mas basta uma frase na internet para estragar a vida a uma pessoa. Isso da cultura do cancelamento e dos juízos de conduta apressados é algo de muito complexo. Comigo, quando comecei a ser atacado, a minha primeira reação, foi "o quê!?", mesmo quando surgiram através de vozes válidas em alguns casos. As coisas ficam fora de mão e depois perde-se o chão. Garanto que isto está a acontecer a muitas pessoas, homens, mulheres, crianças... Parece algo normal, mas não é".

Acerca do prémio, disse o evidente: "Se soubesse que ia ofender vir cá receber o prémio não teria aceite. Este é um festival que adoro, um festival que é mesmo sobre o cinema. Sinto-me tocado por terem escolhido o meu nome, até parece que foi alguém sem querer que o tirou do fundo do chapéu".

No final da conferência, depois do moderador não ter permitido que o ator respondesse a uma pergunta de um jornalista espanhol sobre o protesto da Associação das Realizadoras de Espanha em relação à sua presença no festival, Depp foi Depp: "Sinto-me mais confortável escondido nas minhas personagens do que quando sou eu próprio. Isso diz muito de mim, não?". Ao acabar dizer isso, sai da sala de conferências e tenta fazer algum humor físico a fingir que quer roubar o microfone.

dnot@dn.pt

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