O burro como animal cinematográfico

Em tom de parábola ecológica, o polaco Jerzy Skolimowski apresentou um dos filmes mais originais de Cannes 2022: Hi-Han é protagonizado por um simpático burro.

E que dizer do cineasta polaco Jerzy Skolimowski? Pois bem, aos 84 anos continua a ser um autor de insólitos, inesperados e fascinantes riscos criativos. Assim é o seu novo trabalho - EO ou, no título internacional, Hi-Han -, desde já um dos objectos centrais entre os filmes que concorrem para a Palma de Ouro da 75ª edição do Festival de Cannes (a atribuir no sábado, dia 28).

O título é o nome de um simpático burro (uma evidente e sugestiva onomatopeia) que, na sequência de um protesto contra o uso de animais em circos, se perde da sua dona, iniciando uma saga de encontros, desencontros e muitas formas de sofrimento causadas pela maldade humana.

Escusado será sublinhar que estamos perante uma fábula ecológica que, em qualquer caso, está muito longe de se esgotar num banal discurso de lugares-comuns ideológicos ou mediáticos. Acontece que Skolimowski não filma o seu burro (na verdade, foram utilizados seis animais semelhantes para representar Hi-Han) como uma entidade pitoresca, antes com uma personagem eminentemente cinematográfica.

Devemos, aliás, recordar que o labor de Skolimowski sempre possuiu uma dimensão eminentemente experimental, aqui relevante no espantoso trabalho de manipulação e composição de imagens & sons. Enfim, se quisermos forçar o poder sugestivo que as palavras podem conter, talvez possamos dizer que o burro de Skolimowski ficará, por certo, entre as coisas mais inteligentes este anos descobertas em Cannes.

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