"Não quero que estejam rendidos à Aldina"

Aldina Duarte sobe hoje à noite ao palco do Grande Auditório da Fundação Gulbenkian. O espetáculo intitula-se O Fado e a Poesia e tem dois convidados especiais: Carlão e Filipe Raposo.

A dimensão do espaço onde Aldina Duarte vai atuar hoje à noite é pouco habitual na sua carreira. Tanto assim que em entrevista ao DN concedida há um mês, a fadista fazia questão de afirmar: "Os palcos grandes são muito adversos para o fado que eu canto e para manter aquele tempo preciso de uma grande concentração e prática de anos."

Nada que impeça a aventura que hoje protagoniza no enorme auditório da Gulbenkian em Lisboa, um espetáculo onde contará com a participação especial de Carlão, ex-vocalista e letrista dos Da Weasel, e ao piano Filipe Raposo, acompanhada dos dois instrumentistas habituais, Paulo Parreira na guitarra portuguesa e Rogério Ferreira na guitarra.

Não é a primeira vez que uma das fadistas que mais surpreenderam nos últimos anos sobe a um palco tão grande, mesmo que continue a apreciar alguma intimidade. "Vale mais fazer três noites num espaço menor para um fado como o meu do que um Coliseu", disse também na entrevista. Explica ainda: "O meu fado não é feito para cantar em arenas, não é a génese da minha arte."

Uma carreira que aconteceu por entrar numa casa de fados e ouvir a fadista Beatriz da Conceição, sentindo logo vontade de mudar o curso da sua vida. Diz que foi nesse momento que se tornou uma estudiosa do fado tradicional e fadista.

O ambiente mais íntimo de uma casa de fados agrada-lhe pois é onde se "aprende a ter um nível de concentração profundo e muito bom para o fado". Considera que a prova de fogo de estar "a um metro de distância de quem veio ouvir fado, sem palco e com as pessoas a jantar" começa quando se "apaga a luz e cantamos num lugar de passagem dos empregados". Conclui: "É preciso ter humildade e honestidade para fazer com que pessoas distraídas venham para a poesia que queremos cantar". É onde o exemplo de Beatriz da Conceição se encaixa bem: "Lembro-me de a ouvir numa cervejaria a cantar grandes poetas no meio do marisco. Apagaram a luz e foi das noites mais fascinantes e comoventes a ouvir fado. Ela é uma rainha, capaz de transformar uma cervejaria num lugar de silêncio rendido ao que ela estava a fazer".

A palavra rendido toma lugar na conversa, pois a fadista quer demarcar-se de uma situação que lhe acontece: "Não quero que estejam rendidos à Aldina". Porquê? "Aí estarei a fazer qualquer coisa mal, quero as pessoas rendidas ao meu fado. Se isso não acontece é porque não cantei bem."

Insiste-se na questão, de existir um culto em torno de Aldina. A fadista não o nega: "Há. Por isso é que tenho de ter cuidado, pois não quero ser mais interessante do que aquilo que canto. Esforço-me para que assim não seja." Qual a razão do culto? "Porque gosto muito de falar e representar um grupo de pessoas que não se identifica com a maioria. É bom ter artistas que partilham de alguns interesses, a leitura por exemplo. Há quem leia e goste de ouvir um artista que gosta de ler. Represento um grupo de pessoas que tem gostos artísticos e preocupações sociais e políticas e gosta de um artista que tenha isso."

Quando se lhe pergunta porque tem numa das biografias que é uma fadista que chegou tarde ao fado, Aldina Duarte faz questão de fazer um retrato do que é o fado para si: "É uma arte de tradição oral e é comum na sua história o testemunho ser passado dos mais velhos para os mais novos ou, entre muitas famílias, estarem ligadas ao fado durante gerações - quer nos músicos ou nos intérpretes. Como é uma arte que não se ensina - aprende-se -, quem cresceu nela consegue familiarizar-se com esta forma de cantar que tem características muito próprias e não é académica como a ópera."

Em poucas palavras, resume: "Cresce-se a cantar, aprende-se cantando, com público e em acústico - não há amplificação - e ganha-se uma colocação vocal que dá a voz de fado. E há uma série de regras para se o fazer, como a forma de dizer, que é determinante e fundamental no fado e que qualquer pessoa mais velha explica: 'Tens de cantar como falas e fazer-te entender, sem fazer pausas entre um sujeito e o verbo'. Quando se faz uma pausa não se pode interromper a mensagem, de forma a que as pessoas se percam no sentido da história que cantamos."

Por tudo isto, refere Aldina Duarte: "Chegar tarde ao fado é não crescer com esta arte e ir apreendendo naturalmente, atingindo a idade adulta com uma personalidade própria. O ideal é que faça parte da corrente sanguínea e eu não tive esse contacto. Nunca." Especifica: "Ouvi fado ao vivo aos 21 anos, antes tinha ouvido os sucessos da Amália e do Carlos do Carmo. Foi preciso fazer um caminho a par de todas as minhas referências e não foi fácil sentir esta música fluir como deve." Daí que, acrescenta, "enquanto toda a gente queria gravar eu escolhi ficar naquela sombra que é a casa de fados, que me faz falta para continuar a evoluir porque aquele é o caminho e a raiz certa, para toda a vida".

Ao referir-se a palavra "truques" que se ganham na prática do cantar do fado, Aldina Duarte franze o rosto: "Não se pode utilizar a palavra truque na aprendizagem, isso é mau e não se pode dizer." Prefere mostrar o que se ganha com públicos diferentes: "Quando canto onde estão estrangeiros tenho de dar o máximo ou na casa de fados onde é preciso estar sempre a cativar."

No último disco, Quando Se Ama Loucamente, Aldina Duarte surge a sair da água mas alimenta-se de literatura. Explica como acontece: "A minha maior motivação nos discos é aquilo que do ponto de vista humano me fez crescer e tornou melhor pessoa e artista. Neste caso, foi uma vivência que me fez chegar A Maria Gabriela Llansol e acreditar que vale a pena ir mais fundo. Nunca aprendi coisas importantes com coisas fáceis, não é o meu caminho, e a Llansol traduz isso porque tem um mistério e uma originalidade que desconhecia e que ainda me continua a fascinar. Às vezes, basta ler um fragmento para me despertar a vontade de ouvir uma certa música. É um ambiente que acorda em mim qualquer coisa que até hoje só me levou para bons caminhos e dá sentido aos meus dias."

Quanto ao processo criativo, Aldina Duarte refere que apesar de ser "muito racional aí sou mais intuitiva. A minha grande motivação é apaixonar-me e nada nasceu sem ser de uma paixão. A paixão causa uma grande cegueira, que é muito rica, mas a certa altura tenho que dar forma ao barro para se tornar útil. Num disco tenho de fazer escolhas para o que é necessário materializar. Já me habituei a andar nesse lodo, mas quando se sai dele é obrigatório passar sempre pela dor. Nunca fiz nada sem essa experiência."

Considera que é melhor não conhecer os processos criativos de cada um: "Nunca leio biografias - só autobiografias - porque não me atraem. Encaro a obra de arte como um espelho, como me vejo nisto e o que vejo nisto. O artista até pode ser um tipo foleiro ou a Leni Riefenstahl, que é propaganda nazi, mas a verdade é quando vi a arte daquela mulher pela primeira vez até me esqueci do que representava. Quero é receber a obra de arte da forma mais crua possível, depois terei a minha ética."

Aldina Duarte - O Fado e a Poesia

Hoje, 21.00, na Fundação Gulbenkian

Paulo Parreira - guitarra portuguesa, e Rogério Ferreira - guitarra

Convidados Especiais:
Carlão - Voz e Filipe Raposo - Piano

Alinhamento:

Conto De Fadas

Auto-Retrato

Senhora Dos Meus Passos

Quem Me Vê

Beijo Enganador

Antes De Quê?

A Estação Das Cerejas

Refúgio

Anjo Azul

Quando Se Ama Loucamente

Bebe Um Copo

Casa Do Esquecimento

A Maçã De Adão

De Loucura Em Loucura

Não Vou, Não Vou

Sem Chão

Oh Bento Airoso

Fado Com Dono

Ai Meu Amor Se Bastasse

No Amor Do Teu Nome

Xaile Encarnado

Fora Do Mundo

Apenas O Vento

Princesa Prometida

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