Music Feeds, de Castelo Branco para o mundo

Sam Smith, Fontaines DC ou os portugueses The Gift e The Legendary Tiger Man são alguns dos artistas presentes no cartaz deste festival solidário online, organizado pelo guitarrista dos James, Saul Davies, desde Castelo Branco.

Com a presença de artistas como Sam Smith, Fontaines DC, Liam Gallagher, Amy Macdonald, DMC, Adam Duritz (Counting Crows), Supernaturals, Steve Mason ou James, mas também dos portugueses The Gift, Surma, The Legendary Tiger Man, Selma Uamusse, Throes & The Shine, First Breath After Coma e Blind Zero, o cartaz deste Music Feeds tinha tudo para garantir casa cheia, caso fosse um festival a sério. Tal como se espera que aconteça online, entre hoje e amanhã, neste evento de caráter solidário, criado pelo guitarrista James, Saul Davies, desde Castelo Branco, onde reside desde há alguns anos com a mulher, a portuguesa Vanda Guerreiro. Promovido pela Everybody Belongs Here (EBH), uma organização de caráter solidário criada pelo músico britânico, o festival tem como principal objetivo auxiliar artistas e técnicos de espetáculo em dificuldades, devido à pandemia, com as receitas a serem depois distribuídas por diversas instituições de solidariedade social de Reino Unido, EUA e Portugal - por cá foi escolhida a União Audiovisual. Entre elogios ao atual momento da música portuguesa, Saul Davies conta em entrevista ao DN como conseguiu juntar toda esta gente numa causa comum, garantindo: "Isto é apenas um primeiro passo, numa caminhada para continuar a fazer ainda com mais gente."

Como é que surgiu esta ideia, de um festival solidário online para auxiliar trabalhadores da cultura em dificuldades?
Tudo começou quando li uma notícia sobre a pandemia, que mencionava a existência de 12 mil bancos alimentares só no Reino Unido. Pensei que era algo que não dava muito boa imagem do país e de certa forma senti-me quase obrigado a fazer algo. Há cerca de um ano eu a minha mulher fundámos a Everybody Belongs Here, uma organização de caráter solidário e de promoção da inclusão social, que fez uma primeira campanha com o plantel principal do FC Porto e agora está a organizar este festival, para o qual conseguimos juntar mais de 50 artistas. Na verdade tenho de confessar que a ideia inicial disto tudo foi da Vanda, a minha mulher.

Alguns deles claramente de primeira linha, como o Sam Smith ou os Fontaines DC, como é que os convenceram a participar?
Não foi fácil. Começámos por falar com alguns artistas individualmente, depois fomos bater à porta das agências, mas quase todos disseram que não podiam, que nesse dia iam estar ocupados, mesmo antes de lhes dizermos o dia certo [risos]. Não critico, porque é uma reação normal, à luz dos tempos em que vivemos, os artistas são pessoas como as outras e há muito medo e incerteza no ar. Mas continuámos a insistir e, um a um, foram aceitando, se calhar até só para se verem livres de nós [risos]. E a partir do momento em que um diz que sim, os outros também querem participar. A dada altura o mais complicado, em termos logísticos, foi mesmo encontrar os locais para eles atuarem.

Como resolveram isso?
Conseguimos associar-nos a quatro salas de espetáculos, duas em Londres, uma em Glasgow e outra em Nova Iorque, que nos abriram as portas para gravarmos os espetáculos. O jogador do Liverpool Markus Rashford também se associou e está a trazer com ele mais gente ligada ao futebol. Temos recebido tanta e inesperada positividade para este projeto que chega a ser comovente.

As atuações não serão em direto, portanto?
Não, foram previamente gravadas pelos artistas e quase todas, tirando uma ou outra exceção, feitas em exclusivo para este projeto. Aliás, ainda estamos a receber vídeos.

Como funciona o festival?
Será acessível via streaming através da página da Everybody Belongs Here e cada sessão diária terá a duração de cerca de duas horas e meia, com os artistas a tocarem um máximo de três temas cada um.

"Existe uma cultura pop alternativa muito forte em Portugal, que não fica nada atrás das que existem no Reino Unido ou nos EUA e esta é uma boa ocasião para fazer incidir o foco sobre ela."

É um projeto para continuar?
Os problemas não desaparecem por fazermos isto uma só vez. Isto é só um primeiro passo, numa caminhada que queremos fazer ainda com mais gente. Por exemplo, nestes últimos dias temos sido contactados por diversas salas e circuitos de concertos que também se querem juntar a nós em futuras ocasiões.

E como é que aparecem tantas bandas e artistas portugueses neste cartaz?
Tenho uma ligação pessoal e familiar ao país e portanto, para mim, fazia todo o sentido que assim fosse, até porque conheço pessoalmente muitos destes artistas. Mas acima de tudo é por sentir que a música portuguesa atravessa atualmente um período muito bom, em termos de criatividade, com os artistas a colocarem a fasquia muito alta, tanto em termos musicais como de apresentação. Existe uma cultura pop alternativa muito forte em Portugal, que não fica nada atrás das que existem no Reino Unido ou nos Estados Unidos e esta é uma boa ocasião para fazer incidir o foco sobre ela.

Como é que vai ser feita a distribuição das receitas?
Tivemos um patrocínio de pouco mais de um milhão de euros, por parte da cadeia de supermercados britânica Co-op, que será distribuído por quatro organizações no Reino Unido e uma nos Estados Unidos e também nos associámos em Portugal à União Audiovisual. Depois, se funcionar, em termos de ingressos, pretendemos também de alguma forma tentar compensar os artistas e técnicos envolvidos. Um dos meus desejos é fazer um evento destes só para Portugal, com as receitas a reverterem diretamente para instituições nacionais.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG