Morreu Quino, o criador de Mafalda

O argentino, de 88 anos, tinha sofrido um AVC na semana passada.

O cartoonista argentino Joaquín Salvador Lavado, conhecido por Quino, morreu nesta quarta-feira em Mendoza (Argentina), sua cidade natal, aos 88 anos.

Quino tornou-se mundialmente famoso na década de 1960 pela sua personagem Mafalda, a menina de humor perspicaz e infindáveis questões pertinentes cujas histórias em banda desenhada inspiraram gerações em todo o mundo.

Filho de espanhóis e detentor de prémios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades e a Medalha da Ordem e Letras da França, Quino desenvolveu as aventuras de Mafalda entre 1964 e 1973.

"Quino morreu. Todas as pessoas boas do país e do mundo vão chorar por ele", escreveu no Twitter Daniel Divinsky, diretor das Ediciones de la Flor, que publicou as obras do cartoonista.

Nascido a 17 de julho de 1932, este filho de andaluzes ingressou aos 13 anos na Escola de Belas Artes de Mendoza -- o tio era um ilustrador e despertou nele esta paixão. Mas rapidamente ficou "cansado de desenhar ânforas e gessos" e aos 17 anos abandonou as aulas, transformando a sua genialidade em banda desenhada e humor, embora numa primeira fase, sem palavras.

Aos 18 anos publicou o seu primeiro cartoon em Buenos Aires, mas foi quando tinha 30 que a menina que odeia sopa e o comunismo (mas adora os Beatles) nasceu do traço do seu lápis. Apesar de ter sido inicialmente concebida para um anúncio de eletrodomésticos em 1963, acabaria por não vingar na publicidade, chegando as suas histórias às páginas do jornal Primera plana.

Os livros com as compilações que foram publicados a seguir iriam levar a personagem a todo o mundo, sendo traduzidos em 27 idiomas. Das tiras de Quino saíam comentários sobre a ordem do mundo, a luta de classes, o capitalismo e o comunismo, mas também, de forma mais subtil, sobre a situação política e social argentina.

Quino abandonaria a sua mais famosa personagem em 1973, dizendo que tinha esgotado as suas ideias. Três anos depois, com o irromper da ditadura argentina, foi viver para Milão, só voltando após o regresso da democracia, dividindo o seu tempo entre a cidade italiana, Madrid (desde 1990 que tinha a nacionalidade espanhola) e Buenos Aires.

Os seus últimos trabalhos foram publicados em 2006, tendo-se tornado impossível continuar a trabalhar por causa de um glaucoma. Após ficar viúvo com a morte da sua mulher Alicia Colombo, em finais de 2017, trocou a capital argentina pela sua terra natal, Mendoza, para estar junto dos sobrinhos.

Em 2016, numa entrevista à agência Efe, por ocasião da Feira do Livro de Buenos Aires, Quino afirmava que o mundo atual seria para a personagem Mafalda "um desastre e uma vergonha".

"Olhando as coisas que fiz todos estes anos, percebo que digo sempre as mesmas coisas e que continuam atuais. É terrível... não?", referiu Quino, a propósito dos seus temas de sempre: "A morte, a velhice, os médicos e outras coisas", como as injustiças sociais, a pobreza.

Profundamente tímido e reservado, Quino reconheceu na mesma entrevista que gostaria de ser recordado como "alguém que fez pensar as pessoas sobre as coisas que acontecem".

O cartoonista argentino Miguel Rep despediu-se do seu "segundo pai" no Twitter, enquanto Liniers partilhou uma imagem no Instagram de uma das suas personagens (Enriqueta, da série Macanudo), a abraçar Mafalda.

Mais Notícias