Morreu o professor Joel Pina, o guitarrista de Amália. Tinha 100 anos

Joel Pina acompanhou Amália Rodrigues durante 29 anos. Morreu aos 100 anos.

Nome incontornável na história do fado, o professor Joel Pina morreu esta quinta-feira. Tinha 100 anos, celebrados no ano passado num concerto no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa. A notícia da morte do músico foi avançada pelo Museu do Fado, na rede social Facebook.

Nos cerca de 80 anos de carreira, Joel Pina acompanhou Amália Rodrigues durante quase três décadas.

A diretora do Museu do Fado, Sara Pereira, disse à Lusa que Joel Pina morreu hoje, em Cascais, onde se encontrava hospitalizado.

"Recebemos hoje a notícia triste da morte do nosso querido Joel Pina. Ao longo de décadas sucessivas e durante cerca de 80 anos de vida artística, Joel Pina contribuiu e protagonizou alguns episódios do maior significado para a história do Fado. Teve, entre outros, um contributo determinante para a consagração do Fado como Património Cultural Imaterial da Humanidade (UNESCO)", lê-se na nota divulgada pelo Museu do Fado.

Ao lado de Amália Rodrigues, "que acompanhou em palcos e gravações ao longo de 29 anos, levou o Fado ao mundo".

"Profundamente acarinhado por distintas gerações de intérpretes e músicos, Joel Pina foi - é - um nome Maior da música portuguesa", refere ainda o Museu do Fado.

A Fundação Amália Rodrigues transmitiu os "sinceros sentimentos à família e amigos" e destacou que "os mestres nunca serão esquecidos".

"Meu querido Joel, a minha gratidão é eterna como a eternidade onde um dia nos voltaremos a encontrar. Obrigado Mestre", reagiu nas redes sociais o músico e fadista Jorge Fernando à morte do eterno guitarrista de Amália Rodrigues.

Também Kátia Guerreiro prestou homenagem ao músico com um agradecimento."Obrigada por tantos sorrisos, tanta música, tanta bondade!", escreveu a fadista.

Joel Pina, que acompanhou vários intérpretes portugueses e diferentes gerações do fado, como Maria Teresa de Noronha, Teresa Tarouca, Tony de Matos, Max e Tristão da Silva, completaria 101 anos na próxima quarta-feira.

O músico foi homenageado em setembro do ano passado, no Teatro São Luiz, em Lisboa, num concerto que contou com as participações, entre outros, de Maria da Fé, Mariza, Gonçalo Salgueiro, Mísia, Teresa Siqueira e Lenita Gentil, e ao qual assistiu o primeiro-ministro, António Costa.

O percurso de cem anos do decano dos músicos de fado

Era o decano dos instrumentistas de fado, referenciado como "professor", por saber ler partituras, tendo acompanhado praticamente todos os fadistas, com destaque para Amália Rodrigues (1920-1999).

Joel Pina era o nome artístico de João Manuel de Pina, que acompanhou Amália Rodrigues desde 1966 até à morte da fadista, e de quem guardava "viva recordação", como recordou à Lusa, alguns anos após a morte da cantora. No meio fadista, porém, são poucos os intérpretes que não foram acompanhados pela sua viola baixo, instrumento que, por seu intermédio, passou a fazer parte do acompanhamento tradicional, à guitarra portuguesa e à viola, da canção de Lisboa.

Numa das suas entrevistas à Lusa, o músico recordou como a equipa francesa do filme Les Amants du Tage (Os Amantes do Tejo", 1955), de Henri Verneuil, fez questão de contar com a sua participação, acompanhando Amália, que fazia parte do elenco, e descreveu como muitos "brincavam" consigo, referindo-se ao instrumento - a viola baixo, de maior dimensão - como "o frigorífico".

O certo é que os fadistas passaram a contar com a viola baixo no seu acompanhamento habitual e, de preferência, com Joel Pina.

Em 1992, Lisboa atribuiu-lhe a Medalha de Mérito Cultural

O músico fez parte do Conjunto de Guitarras de Raul Nery, homenageado pela Câmara de Lisboa, pela sua excelência musical e contributo para a música, em junho de 1999. Por iguais motivos, em 1992, o Ministério da Cultura entregou a Joel Pina a Medalha de Mérito Cultural. Em 2005 recebeu o Prémio Amália Rodrigues, distinguindo-o como "o Melhor Viola-Baixo", e destacando a sua contribuição para o desenvolvimento do instrumento.

A lista de fadistas que Pina acompanhou, vai do fado à música ligeira, com nomes como Tony de Matos, Max, Hermínia Silva, Frei Hermano da Câmara, Manuel de Almeida, Fernanda Maria, Fernando Farinha, Manuel Fernandes, Argentina Santos, Ada de Castro, Beatriz da Conceição, Fernando Maurício, Maria da Fé, Tristão da Silva, José Coelho, Margarida Bessa, Julieta Estrela, António Rocha, Ricardo Ribeiro, Lenita Gentil, Carlos Zel, Maria João Quadros, Nuno da Câmara Pereira, João Braga, Nuno Aguiar e Camané, entre muitos outros.

Fez parceria com músicos como Jorge Fernando, Pedro de Castro, Carlos Gonçalves (que morreu em março de 2019), Jaime Santos, José Fontes Rocha e José Nunes, entre outros.

Segundo a Enciclopédia da Música Portuguesa no Século XX, Joel Pina caracterizava-se "pela clareza da progressão do baixo executada com uma pulsação regular que permite ao fadista e ao guitarrista uma larga margem de liberdade expressiva (recorrendo muitas vezes ao tempo 'rubato' e à elaboração melódica), sem perder o controlo rítmico e o percurso harmónico de base".

Começou aos 12 anos o estudo da guitarra

Pina nasceu a 17 de fevereiro de 1920, em Rosaminhal, no concelho de Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco, onde começou, como autodidata, a tocar bandolim, antes de se iniciar no solfejo.

Aos 12 anos, em 1932, começou o estudo da guitarra portuguesa e da viola.

Na sua terra natal fez parte de vários grupos de animação de bailes.

Em 1938 fixou-se em Lisboa, iniciando-se, como espectador, no circuito das casas de fado.

A profissionalização surgiu em 1949, quatro anos depois de se casar com Aurora Gonçalves Borges.

O músico Martinho d'Assunção (1914-1992) convidou-o a fazer parte do seu Quarteto Típico de Guitarras, que incluía ainda António Couto e Francisco Carvalhinho. Foi Martinho d'Assunção que o aconselhou a dedicar-se à viola-baixo.

Em 1959, entrou para o Conjunto de Guitarras de Raul Nery, com quem manteve amizade até à morte do guitarrista, em junho de 2012.

"Amizade forte e sólida, de quem se estima e sempre se foi camarada", disse Joel Pina, numa das suas entrevistas à Lusa.

Foi inspetor das atividades económicas

O conjunto, nas suas diferentes fases, incluiu igualmente nomes como José Fontes Rocha, Joaquim do Vale e Júlio Gomes, e deixou de tocar em 1969.

Em 1961, Joel Pina entrou na Função Pública, para os quadros da Inspeção das Atividades Económicas, de onde se reformou.

Além de acompanhador, Joel Pina foi também autor de melodias, nomeadamente "Folha Caída", "Madrugada" e "Tempo Perdido".

Pina participou, em 2013, na apresentação, em Lisboa, do álbum de Margarida Bessa, "Saudade das Saudades", que incluiu uma entrevista ao músico na qual recordou o trabalho com Maria Teresa de Noronha (1918-1993) que acompanhou, nomeadamente nos seus programas na ex-Emissora Nacional, entre 1933 e 1962.

O Museu do Fado, em 2020, organizou uma homenagem ao músico, no Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa, por ocasião do seu centenário, e que contou com a participação de, entre outros, Ana Sofia Varela, Camané, Gonçalo Salgueiro, Joana Amendoeira, João Braga, Jorge Fernando, Katia Guerreiro, Lenita Gentil, Maria da Fé, Mísia, Pedro Moutinho e Rodrigo.

O músico recordava amiúde o "convívio e os petiscos" nas casas de fado onde tocou até à década de 1960, "convivendo e trocando ideias, sempre no sentido de uma melhoria", como contou à Lusa.

Marcelo lembra "talento" do músico

Numa nota publicada no "site" da Presidência, Marcelo Rebelo de Sousa descreveu a carreira do músico que nasceu há mais de 100 anos, tal como Amália, de quem, "numa longa e distinta carreira, seria seu viola baixo durante três décadas, afirmando o lugar desse instrumento no fado moderno". "O último século português foi também o século do fado", segundo o Presidente da República.

"Ao talento e ao instinto juntava Joel Pina a produtividade e o ecumenismo (gravou três centenas de discos), bem como a disponibilidade e a afabilidade. De modo que o seu centenário, no ano passado, foi celebrado por diferentes gerações de músicos e intérpretes, os que com ele trabalharam e os que lhe estavam gratos", sublinhou o Chefe do Estado que, afirmando a "mesma gratidão", "em nome de todos os portugueses".

[Atualizado às 11:33 com a nota do Presidente da República]

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