Morreu o pianista Chick Corea, vítima de cancro. Tinha 79 anos

Chick Corea, um dos pianistas mais influentes no universo jazz, morreu na terça-feira, vítima de um tipo raro de cancro.

Um dos pianistas mais influentes no universo do jazz mundial, Armando Anthony "Chick" Corea morreu esta semana, devido a uma forma rara de cancro, foi esta quinta-feira anunciado.

"É com grande tristeza que anunciamos que no dia 9 de fevereiro, Chick Corea faleceu, aos 79 anos, de um tipo raro de cancro, que só foi descoberto muito recentemente", escreveu a família numa mensagem publicada na conta oficial de Facebook do músico.

Referência no mundo do jazz de fusão, "ao longo da sua vida e carreira, Chick desfrutou da liberdade e da diversão em criar algo novo", refere a nota.

Destaca-se o "marido, pai e avô amado" e o facto de o pianista e compositor ter sido um "mentor e amigo de muitos" ao longo do seu percurso.

Pelo seu trabalho e pelos anos que passou a viajar pelo mundo, "ele tocou e inspirou a vida de milhões" de pessoas.

Atuou várias vezes em Portugal

Ao longo da carreira, Chick Corea somou diversas de atuações em Portugal, entre Lisboa e Porto, Cascais, Funchal, Faro, tendo atuado na casa da Música, nos Coliseus e em diferentes edições do Jazz em Agosto, da Fundação Calouste Gulbenkian, assim como no antigo festival Seixal Jazz.

Trouxe diferentes formações a Portugal, como a Chick Corea Elektric Band, que levou aos coliseus de Lisboa e Porto, em 1992. Tocou a solo, como no concerto da Lisboa 94 -- Capital da Cultura, no Teatro S. Luiz, e apresentou-se em duo, com a cumplicidade de Herbie Hancock, no seu último concerto no país, em 2015, no Cooljazz, em Oeiras.

Um ano antes incluiu o Centro Cultural de Belém, em Lisboa, na sua digressão mundial e, em 2013, foi um dos nomes em destaque no festival de jazz do Funchal.

Entre os seus últimos concertos em Portugal está também a participação no Algarve Jazz, em 2009, no mesmo ano em que foi cabeça de cartaz no Estoril Jazz.

O norte-americano tocou com alguns dos mais importantes nomes do jazz, como Miles Davis, tornando-se ele próprio num dos nomes de referência do jazz contemporâneo e de fusão.

É desde os finais dos anos 1960 que o pianista e compositor surge entre os precursores do jazz de fusão, quando sucedeu a Herbie Hancock, nos agrupamentos do trompetista Miles Davis - com quem trabalhou num dos mais famosos álbuns de jazz de todos os tempos, Bitches Brew -- tendo colaborado com músicos como Dave Holland e Jack DeJohnette, cruzando "free jazz", improvisação e elementos vindos do "rock'n'roll".

Agradeceu aos "amigos músicos" que o ajudaram na "a missão de levar a alegria da criação a todos os lugares possíveis"

Ao longo de meio século, Chick Corea explorou sempre distintas áreas musicais e as suas zonas de fronteira, e manteve o trabalho com músicos de diferentes expressões. Destaca-se, neste aspeto, o dueto com o pianista austríaco de raiz clássica Friedrich Gulda ou a escolha de peças do compositor húngaro Béla Bartók, para o seu repertório.

Com ascendência espanhola, apelou ao "Concerto de Aranjuez", de Joaquín Rodrigo, para o prelúdio de uma das suas mais conhecidas obras, "Spain", e reuniu influências latino-americanas em "My Spanish Heart".

Músico prolífico que começou a tocar piano aos quatro anos, Corea tem uma vasta obra editada ao longo dos anos, em parceria e a solo, entre os quais o álbum vencedor de dois Grammy, o "The Ultimate Adventure". Num percurso de mais de 50 anos, o músico foi galardoado com 23 Grammys.

Trabalhou também com Stan Getz ou Herbie Mann, entre outros músicos que despontaram na emergente cena Jazz de Nova Iorque.

A sua própria banda, Return to Forever, é considerada uma das que inaugurou a era do Jazz de fusão.

Uma das mais influentes bandas de Jazz dos anos 1970, os Return to Forever foram sofrendo várias "encarnações", primeiro com Corea, Stanley Clarke no baixo acústico, Joe Farrell no sax soprano e flauta, Airto Moreira na bateria e percussão e a esposa de Moreira, Flora Purim como vocalista.

Em 1972, a banda grava o álbum Light as a Feather, uma coleção de melodias de Jazz com sabor brasileiro, incluindo novas versões de "500 Miles High" e "Captain Marvel" e ainda aquela que o próprio Corea considerava a sua composição mais conhecida, "Spain".

Pela banda passaram ainda o guitarrista Bill Connors, o baterista Lenny White e Al Di Meola, que mais tarde viria a tornar-se um virtuoso da guitarra jazz.

Foi também nos Return to Forever que Corea conheceu aquela que se viria a tornar a sua mulher, a vocalista Gayle Moran.

O seu último álbum, Plays, de 2020, é um testemunho ao virtuosismo e ecletismo de Corea, dentro de estilos que ajudou a tornar incontornáveis, como o Jazz bebop, e até música clássica.

A nota da família dá ainda a conhecer uma mensagem de despedida de Chick Corea, o músico que dizia "que a sua música dizia mais do que alguma vez as palavras conseguiriam".

"Quero agradecer a todos aqueles que ao longo do meu percurso ajudaram a manter a chama da música incandescentes. A minha esperança é que todos aqueles que têm uma intuição e inclinação para tocar, compor, atuar ou qualquer outra coisa o façam. Se não o fizerem por vocês, façam-no pelo resto de nós. Não só o mundo precisa de mais artistas como também é mesmo muito divertido".

Corea agradeceu aos "formidáveis amigos músicos" que o ajudaram a cumprir "a missão de levar a alegria da criação a todos os lugares possíveis".

"Ter alcançado esta missão juntamente com os artistas que admiro tanto, esta foi a riqueza da minha vida", destacou o músico.

Atualizado às 23:37

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