Morreu o jornalista Vicente Jorge Silva

Foi diretor e fundador do jornal Público, mas também realizador e político. E também colunista do Diário de Notícias.

Vicente Jorge Silva (1945-2020) morreu na madrugada desta terça-feira, segundo o Público, jornal de que foi diretor e fundador.

Realizador, jornalista e político, Vicente Jorge Silva nasceu no Funchal a 8 de novembro de 1945 e foi obrigado a abandonar o liceu com apenas 15 anos, devido a problemas com a PIDE.

Tendo estado em Inglaterra durante algum tempo, regressou à Madeira em 1961, começando a interessar-se por cinema amador, o que o levou a rodar, nesse ano, uma curta-metragem.

De 1963 a 1965, esteve em França e em Inglaterra, passando por diversos empregos. Em 1966, novamente na Madeira, relançou um jornal regional quase inativo, o Comércio do Funchal, que, a partir de 1969, começou a ter influência no continente, principalmente na área política da esquerda.

Depois de 1974, ingressou como diretor adjunto no Expresso (onde lançou o Expresso-Revista) e na RTP, e foi diretor-fundador do Público.

Deputado à Assembleia da República pelo Partido Socialista, publica, juntamente com José António Saraiva, o livro O 25 de Abril Visto da História: do 25 de Abril às Presidenciais, no qual aborda o século XIX, a República e Salazar, e cuja segunda edição foi publicada em 1977 pela Bertrand.

O fotojornalista Alfredo Cunha lamentou a partida de Vicente Jorge Silva.

"Ele era imortal... e foi o maior diretor de jornais que conheci. A isto somava-se o facto de ser um homem bom. Ainda não acredito!", escreveu na sua página de Facebook.

Vicente Jorge Silva marcou uma geração no jornalismo em Portugal, sendo dele a polémica expressão "geração rasca", num editorial que assinou aquando das manifestações estudantis contra a então ministra da Educação do governo de Aníbal Cavaco Silva, Manuela Ferreira Leite.

Como realizador de cinema foi autor de O Limite e as Horas (1961), O Discurso do Poder (1976), Vicente Fotógrafo (1978), Bicicleta - Ou o Tempo Que a Terra Esqueceu (1979) e A Ilha de Colombo (1997). Porto Santo (1997), seu último trabalho no cinema, foi exibido no Festival Internacional de Genebra.

Marcelo evoca personalidade marcante

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, lamentou hoje a morte do jornalista Vicente Jorge Silva, considerando que foi uma personalidade marcante que mudou o panorama da comunicação social portuguesa.

Numa nota publicada no portal da Presidência da República na internet, o Chefe do Estado descreve-o como "das personalidades que marcam um percurso coletivo e marcam também a vida de todos os que se cruzam com elas".

"O Presidente da República, que teve a honra de ser seu aluno em tantos instantes de vida partilhada e seu amigo e admirador sempre, recorda-o com inapagável saudade, mitigada pela sensação de que o seu testemunho continua presente como nunca, e expressa à família a solidariedade do companheiro de lutas comuns e a gratidão institucional, em nome dos portugueses", escreve Marcelo Rebelo de Sousa.

Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, Vicente Jorge Silva "mudou o panorama da comunicação social portuguesa", com efeitos também na política portuguesa, "sobretudo entre os anos 60 e 90" do século passado.

Ferro Rodrigues manifesta "profunda tristeza"

Por sua vez, o presidente da Assembleia da República manifestou "profunda tristeza" pela morte do jornalista, cineasta e antigo deputado Vicente Jorge Silva, salientando a sua admiração pelas capacidades intelectuais e vasta cultura do primeiro diretor do jornal Público.

"Recebi com profunda tristeza a notícia do falecimento, aos 74 anos, de Vicente Jorge Silva", escreveu Ferro Rodrigues numa nota enviada à agência Lusa.

Vicente Jorge Silva teve uma curta passagem pela política partidária durante a liderança de Ferro Rodrigues no PS, entre 2002 e 2004. Neste período, esteve filiado no PS, mas depois considerou "um equívoco" a sua experiência partidária.

"Se o cinema foi a primeira paixão de Vicente Jorge Silva, foi no jornalismo que se destacou antes e após o 25 de Abril, tendo desempenhando um importante papel na renovação da imprensa portuguesa. O seu projeto mais pessoal foi, sem dúvida, o jornal Público, de que foi cofundador e primeiro diretor, e ao qual ficará para sempre associado", salienta o presidente da Assembleia da República.

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