Morreu Jorge Salavisa, bailarino e ex-diretor do Ballet Gulbenkian

Bailarino e coreógrafo, foi diretor do Ballet Gulbenkian, da Companhia Nacional de Bailado e do Teatro São Luiz. Jorge Salavisa foi umas das figuras mais importantes da dança em Portugal. Tinha 81 anos,

Em 2011 o realizador Marco Martins fez um documentário sobre Jorge Salavisa e chamou-lhe Keep Going, sublinhando a energia e o entusiasmo deste homem que iniciou uma carreira na dança às escondidas dos pais, pisou os grandes palcos mundiais, conheceu de perto Rudolf Nureyev e Margot Fonteyn, dirigiu as duas grandes companhias de dança portuguesas - Ballet Gulbenkian e Companhia Nacional de Bailado - e trouxe a Lisboa Anne Teresa de Keersmaeker e Pina Bausch. Estes entre tantos outros feitos. Uma vida passada entre digressões e bastidores de teatro, talvez um desconhecido para o grande público mas uma das figuras mais importantes da dança em Portugal. A dança no seu corpo, a dança nos corpos que o rodeavam. Até agora: Jorge Salavisa já não continua, morreu nesta segunda-feira, aos 81 anos.

Nascido em Lisboa em 1939, Jorge Salavisa começou a estudar dança com Anna Mascolo - foi ter com ela, sozinho, e começou a ter aulas às escondidas da família. Quando contou aos pais, pessoas cultas e com sensibilidade artística, eles apoiaram-no. "Se é isso que queres fazer, faz, mas não em Portugal, porque não há nada digno. Que o faças lá fora", disseram-lhe. Foi assim que foi parar a Paris, depois de ter terminado o Liceu Francês. Em 1960, tinha 19 anos, ingressou no Grand Ballet du Marquis de Cuevas, onde permaneceu até à extinção da companhia em junho de 1962.

Ainda em França, trabalhou com vários coreógrafos, entre os quais se destaca Roland Petit, tendo Salavisa participado em espetáculos com o Ballet National Populaire e com os Ballets de Paris. Em 1963 ingressou no London Festival Ballet, onde permaneceu até 1972. Foi também nesta altura que iniciou a sua atividade como criador e também professor - o que viria a fazer ao longo de toda a vida. Em 1975, abandonou a carreira de bailarino e foi nomeado mestre de bailado e assistente do diretor do New London Ballet.

Foi um período de grande crescimento e muitas viagens. Jorge Salavisa guardou o bilhete de avião "que tem quase dois metros, pois nesse tempo agrafavam os bilhetes uns aos outros quando se tratava de um percurso excecionalmente longo" da última grande digressão que fez, durante a qual pisou um palco pela última vez enquanto bailarino.

Em 1977 regressou a Portugal, a convite da Fundação Calouste Gulbenkian, como mestre de bailado do Ballet Gulbenkian. Nesse ano foi nomeado diretor artístico do Ballet Gulbenkian. "Os primeiros anos do Ballet Gulbenkian foram um autêntico pavor", conta no seu livro de memórias Dançar a Vida, publicado em 2012 . "Em 1977, os studios da companhia eram um poço de intrigas, de má-língua, um verdadeiro antro de ciúmes e invejas."

"Quando cheguei à Gulbenkian, a companhia estava envelhecida e era preciso renovar a nível de elenco, a nível de personalidade da companhia, para ter uma personalidade própria, com coreógrafos próprios. Para não ser uma companhia igual às outras da Europa. E isso ficou provado nas tournées internacionais, em que a companhia foi aclamada muito mais do que as pessoas pensam. É incrível o sucesso que o Ballet Gulbenkian teve lá fora. E eram todos portugueses, com uma personalidade própria que vinha de terem começado na escola, no Ballet Gulbenkian e, a maior parte deles, comigo", contou numa entrevista ao DN, em 2015, já depois da extinção da companhia. Foi diretor até 23 de março de 1996, data em que, a seu pedido, abandonou o cargo.

Em 1994, foi responsável artístico pela programação de Dança de Lisboa 94 - Capital Europeia da Cultura. Depois do Ballet Gulbenkian, foi diretor da Companhia Nacional de Bailado entre 1998 e 2001. Em novembro de 1998, foi Salavisa que trouxe a coreógrafa belga Anne Teresa de Keersmaeker para criar The Lisbon Piece para a Companhia Nacional de Bailado - naquela que foi, até agora, a sua única experiência como coreógrafa convidada de uma companhia.

"Ao longo das décadas, Jorge Salavisa ajudou a escrever a história da dança em Portugal, seja como bailarino, como professor de gerações de bailarinos ou como diretor artístico. O que a dança contemporânea é, hoje, em Portugal, tem o cunho muito particular deste artista e pedagogo exemplar", afirma a ministra da Cultura, Graça Fonseca, numa nota de pesar sobre Jorge Salavisa. "O seu papel à frente do Ballet Gulbenkian e da Companhia Nacional de Bailado fizeram de Portugal um país pioneiro na relação entre coreógrafos, bailarinos e público. Devemos-lhe uma história muito completa da diversidade e, a partir daí, a atividade dos artistas portugueses que, pela sua mão, encontraram sempre as condições para se poderem afirmar."

Depois da CNB, Salavisa mudou o foco. Foi diretor do São Luiz Teatro Municipal entre 2002 e 2010. Ainda presidiu ao Organismo de Produção Artística, entidade gestora do Teatro Nacional de São Carlos e da CNB, entre maio de 2010 e janeiro de 2011. Saiu por desacordo com o projeto e porque "não conseguiria trabalhar sem sonhar", diz na autobiografia.

"Sou bastante consciente das coisas de que sou ou não capaz. Sei que tenho bom senso e certo talento como programador", dizia a Ana Sousa Dias na entrevista ao DN. "Isso faz parte de uma estratégia de programação, que é dar cor a uma companhia, dar o repertório, programar com uma antecedência muito grande. Um programador tem de ser profissional e, às vezes, pôr de parte o gosto pessoal. Tem de saber as pessoas que tem, o material que tem e, sobretudo, o espaço que tem."

Salavisa, que já tinha programado Pina Bausch em 1994, voltou a trazê-la a Lisboa em 2009: foi no palco do São Luiz que a coreógrafa alemã dançou pela pela última vez o seu Café Müller. Aida Tavares, atual diretora do Teatro São Luiz, conheceu Jorge Salavisa em 1997, quando Pina Bausch veio a Lisboa para criar Masurca Fogo, no Festival 100 Dias. "Era a gentileza em pessoa", recorda ao DN Aida Tavares. "Aprendi muito com ele. O Jorge era superperspicaz e ligava muito àquilo que sentia na sua relação com as obras e com os artistas. Dizia-me muitas vezes que eu era demasiado racional. Ele tinha uma sensibilidade, que lhe vinha de ser também um artista, que usava como programador. Além disso, era de uma integridade e de uma honestidade incríveis, nunca cedia a nada que não fosse justo", conta, para concluir: "E era o melhor amigo do mundo."

Na página de Facebook do São Luiz, Aida Tavares homenageia o homem que transformou o teatro "numa casa, num lugar de encontro".

Quando saiu do São Carlos, Jorge Salavisa tinha 71 anos e pensou: "O que é que eu vou fazer?" Sentou-se e escreveu as suas memórias, em que falou dos seus amores, do medo de envelhecer, das duas tentativas de suicídio motivadas pela doença, "um dos cancros mais embaraçosos que um homem pode enfrentar, aquele de que ninguém fala [cancro na próstata]" e para o qual os médicos aconselharam amputação.

Não morreu. Continuou, ainda. "Vi que estava a ser dramático de mais e que havia coisas para viver e para fazer. Foi uma limpeza interior. Percebi que estava com uma depressão. Não precisei de ir a um psiquiatra ou a um psicólogo. O IPO foi a revelação da coragem de muitas pessoas. Estava a queixar-me de quê? Pronto, acontece. Aconteceu. Tive de enfrentar", explicou.

"Habituei-me lentamente ao silêncio, à paz de acordar sem problemas para solucionar." Dizia-se um homem só. "Não me arrependo. Contas somadas, tenho sido muito privilegiado." Como percebeu, depois daquele dia em que acordou quando pensava que já não ia acordar mais, às vezes é preciso olhar para o azar dos outros para vermos a nossa própria sorte. "Caí por terra duas vezes, é verdade. Ainda bem, penso para comigo. Acontece aos melhores. E volto a sorrir."

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