Miguel Guilherme e Maria Rueff lutam pela sobrevivência do jornal 'Última Hora'

O espetáculo Última Hora mostra-nos um dia da redação de um jornal à beira da falência. Estreia-se nesta quinta-feira e fica em cena até 15 de novembro, no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa.

Uma redação de jornal: secretárias com pilhas de jornais, telefones a tocar, jornalistas a fumar desalmadamente, a eterna discussão sobre o que será a manchete do dia seguinte. Uma redação de jornal em 2020 mas que parece ter estagnado algures nos anos de 1990. Até que um dia chega um novo administrador, cheio de energia e de ideias de mudanças. O jornal em papel já não vende, a publicidade já não rende, o que é preciso é apostar no online: "Nem vos mostro os números. Sem papel não há papel. Sem publicidade, népias." É preciso ter cliques. E para isso é preciso ter títulos chamativos, abordar temas mais populares, encontrar ângulos mais originais. Talvez até dizer algumas mentiras. E é preciso, também, mudar o jornal para "os arrabaldes" e despedir dois terços da redação.

Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Última Hora - o espetáculo que se estreia nesta quinta-feira com encenação de Gonçalo Amorim - é uma peça escrita pelo jornalista, argumentista e romancista Rui Cardoso Martins, que trabalhou durante muitos anos no Público ("num tempo de grande alegria e de grande loucura", diz) e que atualmente assina semanalmente a crónica "Levante-se o réu" no Jornal de Notícias. Sabe bem do que fala.

O autor garante que não andou "a recolher anedotas" para pôr neste texto, mas admite que muitas das situações e das personagens que ali aparecem foram obviamente inspiradas em coisas e pessoas que foi vendo, de perto e de longe, no mundo do jornalismo. "É um falso realismo. Ninguém nas redações fala exatamente assim, no entanto há qualquer coisa de reconhecível na linguagem, nas pessoas que aqui aparecem (que poderão fazer lembrar pessoas antigas, que conhecemos), mas também no drama dos mais novos, não só no jornalismo como em todas as profissões", explica.

Perante a necessidade de reduzir a redação, "saem os mais velhos, que são a memória, ou saem os mais novos, que têm mais capacidade de trabalho rápido? Eu nasci numa geração em que ainda houve algum espaço para tempos heroicos, quando havia uma grande vontade de fazer e meios para o fazer. Nesse aspeto, a peça é um bocadinho triste por se sentir que é mais difícil agora, para os jovens jornalistas, encontrar a alegria e os meios, o dinheiro e o tempo, para fazerem o que gostam de fazer", admite.

"Eu sou um otimista, mas estou desiludido com muitas coisas. Acredito na democracia e acredito na liberdade de imprensa como pilares fundamentais da sociedade. E o que vemos, não só em Portugal mas em muitos países, é que os populismos estão a avançar e a destruir todos os dias um bocadinho a liberdade de imprensa."

Dito assim, não parece, mas Rui Cardoso Martins faz questão de o sublinhar: "Isto é uma comédia. Com momentos um pouco caricatos, mas cheia de esperança, embora tenha de ser encontrada aqui e ali". E acrescenta: "Não é só sobre jornalismo, é uma comédia sobre a condição humana. É uma peça que procura fazer rir, mas também uma reflexão sobre os tempos, que não são só do jornalismo, são os tempos em que vivemos." Este drama não acontece só nos jornais, mas em muitas empresas: a ameaça de despedimentos ou do fecho leva os trabalhadores a pensar no que estão dispostos a fazer para sobreviver. "A redação é um micromundo do que estamos a viver na sociedade."

No palco do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, explica o encenador Gonçalo Amorim, assistimos a "um dia não muito normal na redação do Última Hora. O diretor Santos Ferreira está um pouco alcoolizado, logo de manhã, talvez porque é o dia do plenário de apresentação de um dos novos administradores do grupo de media, que anuncia mudanças. E vemos o impacto que essa notícia provoca na equipa. O CEO com a ajuda da diretora-adjunta, Sousa Neves, vai fazer entrevistas de desemprego. À medida que se vai desenrolando a falência do jornal, vão-se desgastando as relações entre os jornalistas. É uma falência também psicológica e afetiva do próprio Santos Ferreira."

A liderar o elenco, Miguel Guilherme é o diretor Santos Ferreira, Maria Rueff é a diretora-adjunta Sousa Neves, e José Neves é o acionista e administrador Ramires Sá Saraiva. Rui Cardoso Martins recorda-se de ter conhecido Rueff, "há muito tempo", era ela "a menina dos telexes do Público, tinha 19 anos e estudava Teatro. Era a primeira pessoa a saber de uma notícia importante, naquele tempo da Guerra do Golfo", recorda. Quanto a Miguel Guilherme, ainda antes da pandemia, teve oportunidade de fazer um profundo trabalho de pesquisa, acompanhando durante um mês o trabalho da redação do Público: acompanhou jornalistas em reportagem e participou em reuniões de editores. "E essas experiências notam-se aqui", garante o autor.

A peça é uma homenagem aos jornalistas mais velhos, com quem Rui Cardoso Martins tanto aprendeu, mas também um estímulo aos mais novos. "Sem novos jornalistas não há futuro para o jornalismo, e se não há futuro para o jornalismo, não há futuro para a democracia", diz. E até se pode dizer que "aqui há um sinal de esperança: porque eles vão ter de contar todos muito uns com os outros". Além disso, isto não é só sobre jornalismo, existem as muitas peripécias, típicas de uma peça de teatro. Porque - e Rui Cardoso Martins volta a dizê-lo para que não nos esqueçamos - isto é uma comédia.

Última Hora
Peça de Rui Cardoso Martins
Encenação de Gonçalo Amorim
Interpretação de Catarina Couto Sousa, Cláudio Castro, Ema Marli, Inês Cóias, João Grosso, José Neves, Lúcia Maria, Manuel Coelho, Maria Rueff, Miguel Guilherme, Nadezhda Bocharova, Paula Mora e Pedro Moldão
No Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa
De 9 de outubro a 15 de novembro
Bilhetes: de 9 a 16 euros

Lançamento do livro Última Hora
De Rui Cardoso Martins
Edição da Tinta-da-China
Sábado, 10 de outubro, às 16.00, no TNDM II
Com Adelino Gomes e Joaquim Furtado

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