It's a Sin: quando a sida era uma doença misteriosa

Ainda só estamos em janeiro e é já considerada uma das séries do ano. It"s a Sin retrata a comunidade gay da Londres dos anos 1980 e a ameaça do vírus da sida que começava a propagar-se nessa altura.

O amor de que precisas nunca será encontrado em casa." O verso da canção Smalltown Boy, dos Bronski Beat, que se ouve na banda sonora, sinaliza a experiência de muitos jovens gays que rumaram a Londres na década de 1980, à procura de uma forma de viver a vida que não combinava com o conservadorismo familiar. It"s a Sin, a série de cinco episódios agora disponível na HBO Portugal, é a história de alguns desses jovens. Um deles, Ritchie (Olly Alexander, vocalista da banda Years&Years), vemos logo no início a deixar o lar acolhedor - e inconscientemente homofóbico - na Ilha de Wight, para ir estudar para a grande cidade. Outro, Roscoe (Omari Douglas), um jovem negro de origem nigeriana, usa métodos mais drásticos: veste um top e uma saia, para chocar a família religiosa, e despede-se batendo com a porta como quem tem a liberdade a sair pelos poros. Ainda outro, Colin (Callum Scott Howells), vindo dos vales galeses, chega a Londres com um ar tímido e bem-comportado para trabalhar numa alfaiataria, onde terá o primeiro amigo homossexual (um breve mas tocante papel de Neil Patrick Harris), figura protetora que o faz sentir-se em casa.

Os três acabam por cruzar-se no furor das festivas noites londrinas, pelo meio de experiências inaugurais, e formam um grupo, juntamente com os estudantes Ash (Nathaniel Curtis) e Jill (maravilhosa Lydia West), que toma a configuração de uma nova família. Vão viver para um apartamento batizado "Pink Palace" e aí os mais lascivos do ensemble, Ritchie e Roscoe, dão largas ao desejo sexual com vários parceiros, sem cuidar que o perigo anda à solta sob a forma de um vírus desconhecido. "Uma estirpe de gripe que só mata homens gays", como se ouve dizer a certa altura. Algo que só a cabeça de Jill, a única rapariga do grupo, é capaz de assimilar com distância suficiente, para lá das teorias da conspiração, e perceber que a ameaça é real - esta personagem torna-se mesmo o símbolo maior do humanismo da série.

Criada pelo britânico Russell T. Davies, o argumentista das brilhantes minisséries Years and Years (nenhuma relação com a banda de Olly Alexander) e A Very English Scandal, esta última que deu a Hugh Grant o seu melhor papel em muitos anos na pele de um político gay não assumido, It"s a Sin surge como uma memória crucial para estes tempos de pandemia. Em primeiro lugar, porque se trata de recuperar a sensação de estranheza causada por uma doença desconhecida - quanta empatia sentimos com o medo de Jill, que esfrega uma chávena "infetada" até a partir? -, e depois, porque Davies presta aqui uma muito comovente homenagem à comunidade gay londrina dos anos 1980, de que o próprio fez parte, sem descurar as imperfeições humanas daqueles que se recusavam a lidar com o valor da informação científica que chegava de fora.

A Londres homofóbica da era Thatcher

Num texto que assinou para o The Guardian, refletindo sobre a atmosfera daqueles dias e o processo de ganhar coragem para escrever a série, Davies recorda o preciso instante em que se sentiu, pela primeira vez, elucidado sobre a gravidade da sida, no verão de 1983: "Tinha ido comprar leite, cigarros, e o meu orgulhoso passaporte para a vida adulta, um exemplar da revista mensal Him. Que, apesar de tudo, tapei com o The Mirror." No caminho para casa, conta, parou debaixo de um sol escaldante. "Olhei para a manchete do jornal: Aids Gay Death-Plot Panic. As palavras estampadas numa ilustração brilhante e erótica de homens nus em ebulição até à morte num tubo de ensaio, desenhada pelo artista Oliver Frey." Um choque de realidade tão-só através de um desenho.

É mais ou menos assim, em momentos de súbita - e não gradual - lucidez, que as personagens de It"s a Sin tomam consciência do inimigo a que estão expostos. E, no entanto, a maior crítica que o último episódio deixa evidente é à sociedade homofóbica que entrava num círculo vicioso com a imprensa britânica e o governo de Margaret Thatcher. A mesma sociedade que incutia e pactuava com um sentimento de vergonha (que se revela fatal para um dos rapazes do grupo) e permitia que homossexuais morressem sozinhos, aprisionados em enfermarias de hospitais, para "desonra" das famílias. Estas que, em atitude de negação, escondiam o nome da doença dizendo ser cancro ou pneumonia.

Parece doloroso, e é. Mas na boa tradição da escrita de Russell T. Davies, It"s a Sin (título roubado ao tema homónimo dos Pet Shop Boys) consegue conjugar humor, entusiasmo e irreverência graciosa com uma nota acentuada de tragédia, sem que nenhum dos lados prevaleça sobre o outro. Nesse equilíbrio está o referido humanismo transbordante da série, que começa por moldar-se através dos excessos do primeiro episódio, para, na sequência das imagens cheias de vida, deixar entrar, de par em par, a tristeza e uma carga pesada de amor. Esse que destila da presença luminosa de Jill/Lydia West, a "mãe" adotiva dos amigos desamparados.

Se com Years and Years já tínhamos provas da arquitetura emocional de que Davies é capaz, diante de It"s a Sin descobrimos a primeira grande série britânica sobre o drama da sida, com música à medida de uma dança para espantar a morte.

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