Falso documentário de Borat sobre a América dos bimbos

O DN já viu o ansiado Borat Subsequent Movie Film, de Jason Wolliner, o regresso de Sacha Baron Cohen à personagem que mais fama lhe deu. Uma comédia com humor chocante e violentíssimo para enxovalhar Trump, Mike Pence e Giuliani. Chega sexta-feira ao streaming da Amazon.

A comédia em formato de falso documentário (mockumentary) como alvo de Trump e dos Republicanos. Borat Subsequent Movie Film: Delivery of Prodigious Bribe to American Regime for Make Benefit Once Glorious Nation of Kazakhstan (sim, é este o título do filme) foi filmado em segredo este verão para estrear em plena campanha eleitoral das presidenciais americanas.

Sacha Baron Cohen mistura "apanhados", partidas e filmagens de guerrilha que permitem que a personagem cazaque acabe por viajar até ao coração da América Trump. O comediante inglês visa Trump mas chega a "vias de facto" com Mike Pence e Rudy Giuliani numa história que imagina o regresso de Borat à América, agora com a missão de apaziguar a América com o Cazaquistão através de um presente a Mike Pence: a sua filha menor de 15 anos. Pelo meio, Borat tem de lidar com questões de paternidade, com a Covid-19 e com o facto do seu rosto já ser reconhecido na rua.

Sacha Baron Cohen terá levado o disfarce a um estado literal: nunca desmontou a personagem, fez um confinamento com dois republicanos radicais durante cinco dias, quase que foi espancado num comício de racistas patriotas e enfrentou a segurança do vice-presidente Pence quando conseguiu (disfarçado de Trump) entrar numa conferência republicana. Mas o maior "stunt", provocação, é o momento em que importuna Giuliani numa entrevista fabricada com a filha da personagem. Claro que é impossível de imaginar, mas temos Borat vestido em combinação rosa a evitar o flirt do ex-mayor de Nova Iorque com a entrevistadora.

Recheado de cenas hilariantes onde o humor "realista" ganha uma carga de choque - veja-se a cena de gozo ácido num verdadeiro baile de debutantes ou como brinca com a maneira como os americanos ignoram o vírus, a sequela de Borat: Aprender Cultura da América para fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão adquire uma dimensão política garrida e de confronto.

Baron Cohen usa a sátira direta (sempre com situações a partir de momentos reais) para encenar um espetáculo de troça a uma América ignorante com figuras que demonizam os democratas (ouve-se "os democratas são mais perigosos do que a Covid"...).

Não se trata de bater no ceguinho, o humor de denúncia ganha uma carga tão feroz que para além do sorriso, o espetador acaba por abrir mais a boca de espanto do que outra coisa. Isto do "humor de choque" não é pera-doce: tem de ser aflitivo, excessivo e brutal. Por isso, há uma mistura hábil de gagues físicos com disparates burlescos ferozes. Em tudo isso, está sempre a arte de Sacha Baron Cohen, criador de situações de provocação, um verdadeiro cómico que se assume como agitador social, aqui, mais do que nunca, com veneno anti-Trump. Inteligentíssimo na visão desta América do provincianismo do medo e estupidez, Cohen consegue também falar dos equívocos com a cultura judaica, com as sombras do Black Lives Matter e o fim da parcialidade dos "media".

O seu "clown" a falar inglês avariado faz da cultura-pop o seu gasóleo e o argumento que escreveu é arte suprema da reação de improvisação com o real. No primeiro filme foi nomeado ao Óscar de melhor argumento, mas aqui não deve ir tão longe. Em 2006 este tonto cazaque era património fresco do politicamente correto, agora parece um pouco um algoritmo de causa.

Se a paródia a esta América de hoje é "hard-core" e exibe a sua "vulgaridade, o que é mais exaltante no filme é o seu carácter de experiência pioneira: filmar agora personagens (muitas reais) com máscaras. O novo Borat será sempre um dos primeiros objetos a quente dar-nos imagens de proximidade com este mal que nos obriga a esconder o rosto. Esse efeito do real é quase demente...

Acima de tudo, também diverte imenso, mesmo quando Sacha Baron Cohen também ainda ensaia algo novo: um humor melodramático quando resgata a misoginia da personagem e dá-lhe credibilidade como pai. Nunca dantes visto...

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