"Em Portugal percebi como funcionava um país democrático"

Há mais de uma década violinista na Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, Ianina Khmelik é também IAN, o alter ego com que no ano passado editou o disco de estreia a solo, RaiVera, do qual lançou agora o single What the Eyes Cannot See.

Parecem dois mundos antagónicos, o da pop e o da música erudita, ou se calhar não, como se comprova em RaiVera, o disco de estreia de IAN, editado já durante o ano passado. IAN é Ianina Khmelik, uma violinista de 37 anos, nascida na Rússia, mas já com mais de metade da vida passada em Portugal, um país que hoje já considera o seu. Os mais atentos ao universo da música clássica nacional decerto reconhecer-lhe-ão o nome, enquanto primeira violinista da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música, mas dificilmente a identificariam em palco como IAN, o tal alter ego com que irrompeu pop adentro, com um visual arrojado e um universo sonoro onde se cruzam trip hop, eletrónica e sonoridades sinfónicas contemporâneas.

A primeira amostra desta sua outra vida foram os EP #1 e #2, ambos de 2018, que serviram de ensaio geral para RaiVera, cujo título é "um neologismo" composto pelas palavras russas rai (paraíso) e vera (fé), mas também um trocadilho com uma outra língua também já sua. "Em português o som de rai tem uma sonoridade que remete para algo diferente, muito mais estridente, como raiva ou raio. Há um contraste entre estes dois conceitos que de certa forma me define", começou por afirmar, em jeito de apresentação, nesta conversa com o DN.

Como é que alguém com uma carreira feita na música sinfónica faz esta transição para a pop?
A pop sempre esteve presente na minha vida e, embora quase todo o meu percurso tenha sido feito no universo clássico, sempre tive um fascínio enorme pelo outro lado da música e pelos palcos grandes. O primeiro concerto a que assisti foi dos Take That, em Hamburgo, tinha para aí 12 anos. Mais tarde vi também os Red Hot Chilli Peppers, que me marcaram imenso. Mesmo na música que ouvia sempre fui muito variada, tanto gostava de Wu Tang Clan como de Sex Pistols, por exemplo.

Mas gostar de pop é diferente de fazer. Quando é que essa vontade despertou?
Já fazia este tipo de música há muito tempo, mas se calhar nunca tinha tido coragem para a mostrar, porque é um grande desafio estar sozinha num palco, a comunicar com o público. Pelo menos a mim parecia-me, porque enquanto violinista não preciso de abrir a boca para estabelecer essa comunicação. O maior desafio neste projeto foi mesmo o de conseguir comunicar, conseguir dizer aquilo que sinto, através da minha música. Comecei a criar os temas deste disco já há muito tempo, o tema Vera, por exemplo, foi composto já há muitos anos, quando participei num concurso que tinha o Ryuichi Sakamoto como jurado. Consegui chegar até à final, mas cheguei atrasada à última audição e ele ficou furioso, apesar de ter adorado a música [risos], como me disse mais tarde.

Os seus colegas da Orquestra Sinfónica do Porto Casa da Música reagiram bem a esta faceta mais pop?
Muito bem, até porque sempre quis que eles, de alguma forma, fizessem também parte deste projeto. Muitas das minhas influências vêm da música contemporânea, sobretudo ao nível das texturas sonoras, do uso da voz, da estética do palco. Há toda uma bagagem trazida da orquestra que transpus também para a IAN. E depois há relação pessoal, adoro os meus companheiros de orquestra. Apesar de sermos tantos e tão diferentes entre nós, nas nacionalidades, nas personalidades e até nas religiões, acabamos por funcionar como uma grande família, especialmente nos momentos menos bons. E foi por isso que fiz questão de incluir as suas vozes, em várias línguas, no meu espetáculo.

Como é que veio viver Portugal?
Vim para cá com 15 anos, era muito nova e foi uma mudança muito drástica. Mas foram circunstâncias felizes as que me trouxeram até Portugal. Alguns membros da minha família estavam ligados ao governo soviético, acompanhei de perto a perestroika e tudo o que o regime tinha de bom e de mau. A Rússia vivia naquela altura um período de grande instabilidade e a maior surpresa que senti, quando cheguei cá, foi perceber como funcionava um país democrático. A liberdade de poder dizer o que eu queria, o facto de não haver censura, ter as portas abertas para o mundo, poder viajar livremente, tudo isso foi uma dádiva e fiquei muito feliz por ter vindo para cá. É claro que a adaptação não foi propriamente fácil, até porque aterrei cá no 9.º ano, a meio das cantigas de amigo e das cantigas de amor [risos], mas as pessoas são muito acolhedoras, e eu também fiz um esforço para me integrar, o que tornou tudo muito mais fácil. Apesar de ter nascido na Rússia, hoje sinto que Portugal é o meu país.

Veio com a família?
Não, vim mesmo sozinha, por opção dos meus pais, em especial da minha mãe, que queria um futuro mais seguro para mim.

E porquê Portugal?
Porque tínhamos alguns conhecimentos cá, como o meu tutor, que tinha estudado no Conservatório de Moscovo e era na altura professor na Escola Profissional de Música de Espinho, onde estudei antes de me mudar para o Porto.

Os primeiros concertos de apresentação do disco foram adiados para março. Como é que está a viver estes tempos tão estranhos para os artistas?
Com muita fé e esperança, mas este segundo confinamento está a custar-me um pouco mais, confesso. Esforçámo-nos tanto para mostrar que a cultura era segura e agora voltámos ao mesmo, é muito triste. Pessoalmente gostava muito de poder trabalhar, apesar de continuara a criar em casa, embora não seja o mesmo. Tenho a sorte de fazer parte daquela minoria de músicos que continuam a receber um ordenado, mas como a Casa da Música vai estar fechada até meio de fevereiro, se calhar devíamos começar a atuar por streaming. É uma situação muito difícil para todos, especialmente para os técnicos, mas é algo a nível mundial. Ainda assim tenho esperança de que passe rapidamente, porque tenho muitos planos para este ano.

Como definiria a sua música?
Pensei muito nisso antes de lançar o álbum, porque é uma música que condensa vários estilos. Tem eletrónica, tem trip hop, que é talvez a minha maior referência, porque adoro o Tricky, mas também tem melodias mais clássicas, porque costumo compor ao violino. Não sei, talvez seja algo como pop contemporâneo, é o termo que me parece mais apropriado.

De Moscovo ao Porto, da erudita ao pop

1983
Nasceu em Moscovo, onde iniciou os estudos musicais aos 5 anos.

1995
Conquistou o 2.º Prémio no Concurso para Jovens Músicos de Moscovo e no ano seguinte foi estudar para a Alemanha.

1999
Veio viver para Portugal para fugir à instabilidade política e social que então se vivia na Rússia, continuando os estudos na Escola Profissional de Música de Espinho, onde o seu tutor, também russo, dava aulas.

2006
Concluiu a licenciatura em Violino na Escola Superior de Música e das Artes do Espetáculo do Instituto Politécnico do Porto.

2008
Presta pela primeira vez provas na Orquestra Sinfónica do Porto, na qual é atualmente primeira violinista.

2018
Lança as primeiras músicas como IAN, nos EP #1 e #2, tendo já antes colaborado com nomes da pop portuguesa como The Gift, Pedro Abrunhosa ou GNR.

2019
Edita o álbum de estreia RaiVera.

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