Elmano Sancho é um Eça diplomata como nunca o vimos

Depois da série, o filme. O Nosso Cônsul em Havana, mesmo sem sessões ao fim-de-semana, estreia nos cinemas. Uma obra de Francisco Manso com Elmano Sancho como um vigoroso Eça de Queiroz em luta pelos Direitos Humanos. O ator falou ao DN.

António Torrado e José Fanha imaginaram e Francisco Manso executou. O Nosso Cônsul em Havana é um filme a partir da série da RTP já exibida e é uma livre interpretação da experiência de Eça de Queiroz aos 27 anos em Havana, onde esteve como cônsul de Portugal num altura em que Portugal repudiava a forma como os espanhóis mantinham ilegalmente a exploração da escravatura.

lmano Sancho é um Eça ainda longe do seu porte literário mas já com sinais de uma altivez aristocrática. O filme salienta sobretudo a sua indómita vontade de combater o atentado aos direitos humanos na Antilhas espanholas e uma faceta de sedutor, em especial junto de uma uma atiradiça herdeira americana...

"Quando soube que ira fazer Eça fiquei assustado, mas depois percebi que era um Eça através de uma ficção, por muito que os factos que vemos no filme fossem verídicos. Se fosse para fazer uma colagem maior ao Eça que todos conhecem teria ficado mesmo assustado e não seria o mais interessante. Tentei mergulhar na obra dele e tentar descobrir algo como leitor para o compor. Eu e o Francisco Manso tentámos que ficasse essencialmente a essência do Eça, a reprodução física fidedigna não foi tão importante", começa por nos dizer Elmano Sancho. "O que é muito interessante desta faceta de diplomata do Eça é a forma como ele era discreto nos seus méritos como defensor dos direitos humanos. Hoje qualquer boa ação que é feita tem de ser publicitada, mas Eça, nos 14 meses que esteve em Cuba, conseguiu efetivamente mudar muita coisa. A luta pela igualdade entre os seres humanos continua a ser travada hoje...", continua.

Por razões de escala, a série foi maioritariamente filmada no Alentejo e norte do país, apenas uma pequena parte em Havana. Para Elmano, esta questão das restrições dos orçamentos é algo que também pode afetar as interpretações: "Para um ator a fotografia é também importante, tal como a qualidade do décor. Para isso estamos sempre dependentes dos meios. Estive muito tempo lá fora e sempre se soube que os portugueses são muito criativos a trabalhar com poucos meios, mas isso não quer dizer que não possamos também ser criativos com orçamentos maiores. Acredito que o espetador também entre mais facilmente nas coisas quando sente uma maior escala. Se tivéssemos filmado mais em Havana, O Nosso Cônsul em Havana seria uma outra coisa... É tão importante viajar através das séries e dos filmes".

O Nosso Cônsul em Havana, ao contrário de outras projetos da RTP, teve primeiro a sua estreia na televisão e só agora chega ao cinema. Para o ator, esta nova versão não deixa de ser uma nova visão artística: "Á muito difícil a partir de 13 episódios conseguir-se um resumo de menos de duas horas! São muitas horas e agora o que está nesta versão diz muito daquilo que o realizador quis realmente mostrar. Necessariamente, acabará por ser diferente da série. Cheguei a ver uma versão maior do filme e este resultado final já é mesmo outra coisa! A visão de um realizador é muitas vezes diferente daquilo que um ator sente que fez. Quando se repensa um objeto artístico, seja ele uma peça ou um filme, está-se a dar um novo ponto de vista".

Para um ator que foi formado nas melhores companhias de teatro de Paris, inclusive a Comédie Française, a situação de aflição de muitos atores portugueses neste momento de crise é algo que não o deixa indiferente: "sempre que vejo um artista a abandonar e a ir para outro lado sinto uma dor de alma enorme! Isto não pode ser assim e tenho visto tantos colegas meus a desistir! Ao contrário de Paris, os atores, com o estatuto de intermitentes, têm alguma proteção! Aqui nada... As pessoas lutam e lutam, mas é uma situação que cansa. Esta coisa da sociedade capitalista é muito cruel: uma pessoa não é produtiva sai fora do mercado, é um abandono enorme! Não sei se depois deste contexto da pandemia vamos aprender alguma coisa, espero que sim". Para Elmano é importante que o público não desista de ir ao cinema e ao teatro. Logo ele que acabou de estrear no Teatro da Trindade a sua última encenação, Maria, a Mãe, e tem agora nos cinemas esta versão de um jovem Eça diplomata.

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