DocLisboa 2018: uma edição que não se deixa intimidar

O DocLisboa arranca hoje com o documentário austríaco The Waldheim Waltz, sobre a figura do antigo secretário-geral da ONU, Kurt Waldheim, que escondeu um passado nazi. É cinema para pensar o panorama do presente.

Foi em tom político que a 16.ª edição do DocLisboa se lançou na imprensa. Este ano, duas embaixadas - a da Ucrânia e a da Turquia - meteram a pata na poça ao tentar, segundo denúncia dos responsáveis do Festival, interferir na programação (num caso, para retirar um filme, no outro, para rever expressões utilizadas em sinopses de dois filmes). Da parte da direção do evento, a resposta a tais pressões diplomáticas foi bastante clara: o DocLisboa tem como objetivo basilar "promover e divulgar a cultura do cinema documental, na sua liberdade, diversidade e força testemunhal". O que, por outras palavras, significa que não cede aos incómodos alheios.

É também deste espírito que se faz a sessão de abertura hoje à noite, na Culturgest, com um filme que procura reavivar a memória da história recente da Áustria, no sentido de refletir sobre a realidade atual do país. The Waldheim Waltz, realizado por Ruth Beckermann (que estará presente), recupera assim a figura controversa de Kurt Waldheim - antigo secretário-geral da ONU e presidente austríaco que escondeu um passado nazi - para fazer o espectador pensar... O cinema, e mais do que nunca o de abordagem documental, ainda tem essa função.

Num ano em que se contam 243 obras programadas, de formato curto e longo, 59 são produções portuguesas. Entre elas encontram-se, por exemplo, Terra Franca, centrado num pescador solitário do Tejo, documentário que figura como a primeira longa-metragem de Leonor Teles, a jovem realizadora que ganhou um Urso de Ouro em 2016; Extinção, de Salomé Lamas, que foi à Europa de Leste sondar a questão das fronteiras da URSS; e Alis Ubbo, de Paulo Abreu, um olhar, com um toque de ironia, sobre a paisagem da cidade de Lisboa transformada pelo turismo.

No âmbito da secção Riscos, a mais experimental do DocLisboa, James Benning, Mike Hoolboom e Jean-François Stévenin são os realizadores convidados. Por sua vez, a retrospetiva que em todas as edições se faz em relação à obra de um cineasta é desta vez dedicada ao colombiano Luis Ospina (n. 1949). Este realizador de grande verve cinéfila, que converte a memória, cultura e situação política do seu país em narrativa constante dos seus filmes, é o nome da cinematografia latina que pode ser descoberto - a palavra é esta, já que são quase só títulos inéditos por cá - na Cinemateca, onde as sessões vão decorrer com o acompanhamento do próprio homenageado.

Num festival que mantém bem viva a energia e pluralidade de olhares, atente-se ainda no foco temático "Navegar o Eufrates, Viajar no tempo do Mundo", que reúne um conjunto de filmes que atravessam as paisagens do mais longo rio do Médio Oriente, num fluxo de história social. Ou então, na secção Da Terra à Lua, que é o verdadeiro mapa-múndi do documentário, onde localizamos o novo filme do provocador Michael Moore, Fahrenheit 11/9, à procura de respostas para a inacreditável Era Trump, e do cambojano Rithy Panh - um dos nomes regulares da programação do festival -, Graves Without a Name, mais uma obra onde este prolonga o seu cinema debruçado sobre o violento período dos khmer vermelhos, que é uma narrativa autobiográfica.

O DocLisboa começa hoje e decorre até dia 28, com muito e bom cinema na senda do real.

Cinco destaques da programação

Monrovia, Indiana , de Frederick Wiseman (18 out. 22.15, Cinema Ideal/21 out. 18.00, Cinema São Jorge)

Frederick Wiseman é talvez o melhor documentarista americano vivo. A justeza com que filma, sem diferenças de abordagem, uma instituição ou uma comunidade - como é o caso deste Monrovia, Indiana -, salta à vista na própria narrativa dos planos intercalados. A pecuária, a agricultura, a religião, o ensino, o comércio, a maçonaria, mas também o barbeiro, a oficina, o café, a pizzaria, o veterinário... todos os aspetos de uma vivência provinciana e conservadora passam aqui pela lente do cineasta. É como se a câmara imergisse nos rostos, gestos e dinâmica da vida comunitária, para captar a essência da América não mediática de Trump. Basicamente, Wiseman mostra-nos como se vive e morre em Monrovia, Indiana. Eis uma das grandes propostas deste programa do DocLisboa.

Friedkin Uncut, de Francesco Zippel (18 out. 22.00, Cinema São Jorge/26 out. 18.45, Cinema São Jorge)

Este é o documentário que põe William Friedkin, realizador dos célebres The French Connection e The Exorcist, a falar de si e das suas influências, sem papas na língua. Estamos perante o homem que se interessa pelos extremos - do bem e do mal -, e que começa uma longa conversa sob o signo das figuras de Hitler e de Jesus. A este olhar sobre a sua vida e obra cinematográfica juntam-se nomes como Francis Ford Coppola, Dario Argento, Quentin Tarantino e Ellen Burstyn. Em suma, Friedkin Uncut, que surge na habitualmente generosa secção Heart Beat do festival, é uma sumarenta visita guiada pelo universo do cineasta americano.

Blue Note Records: Beyond the Notes , de Sophie Huber (18 out. 22.15, Culturgest/25 out. 16.15, Culturgest)

Outro documentário a descobrir no âmbito do Heart Beat, mas agora sobre música. Mais precisamente, sobre a mítica editora de jazz do título, Blue Note Records, e os protagonistas das suas edições, como John Coltrane, Thelonious Monk, Herbie Hancock ou Miles Davis. Entre vários conteúdos de arquivo, bons testemunhos e sessões de gravação, o novo filme documental da realizadora do belo Harry Dean Stanton: Partly Fiction volta a centrar-se numa certa intimidade histórica para abordar todo um património musical.

Brisseau - 251, Marcadet's Street , de Laurent Achard (22 out. 18.45, Culturgest/24 out. 16.45, Cinema São Jorge)

Na informalidade do lar, o cineasta francês Jean-Claude Brisseau senta-se à mesa para dialogar com uma equipa de filmagem. E o que é que resulta deste descontraído momento de perguntas e respostas? Uma rica deambulação pelos caminhos do cinema - o seu e o dos outros -, a sua infância e outras reflexões filosóficas e artísticas. Brisseau - 251, Marcadet's Street é um título da competição internacional e integra a famosa série documental dedicada a realizadores, Cinéma, de notre temps. Eis uma verdadeira morada para se estar.

Objetos entre Nós , de Júlio Alves/Una Voce Umana, de Roberto Rossellini (26 out. 19.00, Culturgest)

José Bragança de Miranda, professor e ensaísta, é o condutor do nosso pensamento no documentário Objetos entre Nós, de Júlio Alves. Como o título sugere, através de um conjunto íntimo de objetos, elabora-se acerca da relação destes com o mundo. É aqui que Una Voce Umana (um dos segmentos do filme O Amor, de Rossellini) vai surgir como referência específica de cinema: o telefone de Anna Magnani assume um fundamental papel dramatúrgico na ação. Por isso mesmo, a sessão completa-se com este título italiano. No final, há um debate com a presença de Bragança de Miranda.

Mais Notícias