Do ódio e do amor

Provavelmente, a obra que marca o arranque do Festival de Cannes. Frère et Soeur, de Arnaud Desplechin, com uma Marion Cotillard sublime e perto do abismo.

É o primeiro sério encantamento de Cannes, Frère et Soeur, conto de irmãos desavindos pela lente de Arnaud Desplechin, cineasta das molduras das famílias disfuncionais. Desta vez a narrar o amor-ódio entre uma irmã e um irmão. Ela atriz de teatro aclamada mas com problemas de saúde mental, ele um escritor famoso marcado pela morte do seu filho. Ambos estão em rota de reencontro depois de um acidente que deixa os seus pais à porta da morte.

Filmado com o mesmo brilho criativo de Um Conto de Natal, Desplechin fica igual ao melhor Desplechin: cada cena pode ser um exercício de leituras diversas e um mergulho destemido na contemplação da maior das fragilidades humanas: a culpa. Do ódio nasce amor, do ciúme pode nascer algo que nem é uma coisa nem outra. Uma briga entre irmãos com um cheiro de incesto é também um olhar sobre aquilo que de mais secreto carregamos no coração, provavelmente o nosso espaço na família e nos seus laços de afeto. Que tudo seja feito com uma elegância excêntrica notável é algo que alimenta uma concordância de emoções notáveis. Saímos da sala talvez de coração abanado ou de alma cheia - o tempo o dirá. Mas é seguramente uma obra que se cola à pele de cada espetador. Se seremos "team Marion Cotillard" ou "team Melvil Poupaud" pouco importa. Frère et Soeur é de uma crueldade valente. Cinema maldito pode ser isto...

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