Dez livros que não pode deixar de começar a ler ainda este ano

Após a reabertura das livrarias em março, as editoras portuguesas publicaram centenas de livros que merecem ser lidos. Nos dias que faltam para o fim deste ano, ainda pode avançar num dos que não foram recenseados no DN e que um bom leitor não deve perder. Nove autores portugueses e, já agora, um do país vizinho.

Mesmo a fechar o ano foi lançado o mais recente romance do escritor espanhol Javier Marías, Tomás Nevinson, livro difícil - ou de elevada paciência inicial até a intriga dominar o leitor em definitivo -, devido ao modo de escrita do autor mas que vale muito a pena. É uma espécie de espionagem/ policial à John Le Carré, só que muito mais culto. Na senda de um best-seller inesperado para todos, até para o autor, o Pátria de Fernando Aramburu, também Javier Marías regressa aos tempos do terrorismo no país vizinho e relata a busca pela culpabilização de dois atentados à bomba que mataram dezenas de pessoas e feriram gravemente mais de uma centena.

Começa com um vislumbre da maldade de Hitler e continua pela atualidade dos anos 1990, com muitos piscar de olhos à literatura clássica e a certos factos da História que sempre explicaram e deixaram registadas as más ações e como os que as perpetraram conseguiram escapar. Javier Marías não quer que uma das bombistas escape à justiça, mesmo que tenha passado uma década sobre as explosões. A forma como desenvolve a narrativa é elaborada e vai oferecendo ao leitor pequenos indícios dos factos ao convocar o protagonista de uma forma inusitada, de modo a ajustar as contas em falta.

Em tempos de grande impunidade global - basta ver os noticiários -, o romance Tomás Nevinson é, longe de uma metáfora, uma aposta na justiça e na não desculpabilização das atividades que a coberto das ideologias justificam massacres imperdoáveis. A atração pelo desenvolvimento dos acontecimentos e o modo como o autor entrega a missão ao protagonista que se vai acompanhar é feita de uma forma brilhante, criando um suspense crescente e impossível de permanecer ignorado.

Tomás Nevinson

Javier Marías

Editora Alfaguara

654 páginas

O romance Meridiano 28 de Joel Neto foi publicado há três anos mas tem agora uma edição especial limitada que permite mostrar-se a novos leitores. Antes de confirmar a inventividade narrativa e o domínio da investigação do autor, o livro prova que em Portugal não faltam cenários e acontecimentos que fazem parte da História para elaborar um romance de leitura mundial. Tudo se passa principalmente na ilha do Faial durante a Segunda Guerra Mundial, quando esta terra, que se levanta no meio do oceano Atlântico, é arrastada para o conflito. A razão é simples, trata-se de um ponto fulcral para as comunicações entre os vários continentes, onde se amarram os cabos telegráficos e na qual residem comunidades dos principais países envolvidos.

É difícil escolher um ponto alto na história, tantos são os episódios inesquecíveis que são alinhados ao longo de mais de quatrocentas páginas. No entanto, se se o desejar fazer, pode-se apontar a recriação dos eventos num aproveitamento dos locais açorianos que têm fascinado os visitantes e prendido os moradores destacados para a ilha por razões profissionais. Além do centro de comunicações onde convivem ingleses, alemães, americanos ou franceses, o autor repassa as suas vidas para os locais da geografia insular. Sem deixar de fazer os personagens percorrerem outras cidades necessárias à ficção proposta, como Lisboa ou Nova Iorque, é nos cantos e recantos do Faial que os espalha. E cada um tem uma história fundamental para responder à pergunta que incorpora o romance, a identificação de um espião que lá viveu durante a guerra. Alongando a narrativa sem importunar o leitor, Joel Neto descreve um mundo que poucos sabiam ter existido ali e passeia-se como um detetive por episódios que torna inesquecíveis de tão bem encaixados entre a realidade e a ficção, como se fosse o magma de um vulcão a espalhar-se à frente dos olhos do leitor.

Meridiano 28

Joel Neto

Editora Cultura

428 páginas

A opção literária mais recente de Mário de Carvalho por contos e crónicas regressa em De maneira que é claro..., onde reúne dezenas de episódios que povoam as suas memórias e que, como se fosse um historiador, faz questão de os deixar registadas para se compreender alguns dos muitos aspetos que a História oficial faz questão de esquecer. Ou seja, para quem desejar ter uma compreensão do que foi o último século português, é obrigatório passar por este volume. No prefácio, o autor confessa que "omissões" não faltarão" neste conjunto de relatos, afirmação em que não se deve acreditar pois em duzentas páginas cabe o que cabe.

Os escritos lembram outros tempos. Por exemplo: como eram as cabinas telefónicas de Lisboa. Uns caixotes tipo "modelo inglês, mas aqui pintadas de amarelo-claro" que enxameavam a capital, num tempo em que não se imaginava os telemóveis e as invenções de Steve Jobs que iriam mudar o planeta para sempre. O mesmo texto refere" o meu primeiro encontro clandestino a sério foi exatamente na cabina da Ajuda". Encontro clandestino? O que é isso... aconteceu mesmo... não havia liberdade? Num texto a seguir fala-se de uma proposta: "que passasse de colega a camarada"... o que quer dizer isto num tempo em que se fala de geringonça ou de coligações negativas para todos os gostos? Noutro texto diz-se nomes de cinemas: "Liz, Rex, Royal, Imperial!"... ainda noutro, intitulado As lutadoras de Alpiarça, que retrata as prisões políticas do anterior regime... ou seja, umas memórias de um tempo que para muitos até parece ser o prolongamento do registo ficcional do escritor.

De maneira que é claro...

Mário de Carvalho

Porto Editora

207 páginas

Frequentemente, António Mega Ferreira regressa a Itália nos seus livros e mais uma vez, o faz. Desta vez, em Crónicas Italianas, "imitando" o Grand Tour que as elites de não há muitos séculos realizavam para obter a sua emancipação cultural, com uma viagem por Itália e a fruição da beleza através do entendimento que a arte poderia proporcionar. Parodiando o título que Stendhal deu a um seu Grand Tour, Chroniques italiennes, que o seduzia desde jovem, o autor fecha uma trilogia italiana e permite ao leitor flanar sobre muito daquele país sob o seu olhar e perceção.

É assim que dá início à narrativa com um desvio da rota principal para ir até à localidade de Prato, que situa como "discreta cidade a uns vinte quilómetros de Florença", onde encontra as marcas do seu apogeu artístico. De volta a Florença, em alguns dos dezassete capítulos que se seguem, reencontra as várias partes das histórias que pretende relatar: de Maquiavel, que situa no tempo e nos acontecimentos que o enquadram na história, divaga sobre os amores de Pietro Bembo e de Lucrécia Bórgia através da troca de correspondência entre ambos, recupera a Itália no pensamento de Cervantes, para terminar numa espécie de princípio: a triangulação literária entre Leonardo Sciascia, Lampedusa e Stendhal, onde refere a deriva stendhaliana do primeiro e as afinidades de Lampedusa pelo terceiro.

Crónicas Italianas

António Mega Ferreira

Editora Sextante

257 páginas

Nunca é demais um regresso à poesia da prosa de Sophia de Mello Breyner Andresen, como o prefaciador e especialista Carlos Mendes de Sousa recorda no título do seu texto introdutório a este livro que recolhe a ficção da poeta. Diz que é impossível fugir a esta matriz poética, pois tal faz parte do seu viver e recupera uma evocação de Sophia que revela este sentido: "Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existiam em si mesmos, por si mesmos, que eram como um elemento natural, que estavam suspensos, imanentes". É essa sensação que se reencontra entre estas capas duras ao lerem-se os seus contos, a literatura infanto-juvenil, ou o ensaio O Nu na Antiguidade Clássica, que com a ajuda das pistas do prefácio ajudam a elaborar de outro modo sobre a sua escrita.

Prosa

Sophia de Mello Breyner Andresen

Editora Assírio & Alvim

511 páginas

O mais recente romance do escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho ficciona os acontecimentos com que um visitante se pode deparar numa visita ao Museu da Revolução. Trata-se, claro, da sua revolução, a do seu país, e é essa cronologia avulsa de situações mais ou menos trágicas, com mais ou menos dor e prazer, que vão surgindo página após página. Não se trata apenas de Moçambique enquanto cenário, no entanto como pedra-chave de uma narrativa que exige ao leitor uma interpretação dos movimentos sociais, das rebeliões, das convivências coloniais, da guerra civil após a independência, entre muitas outras faces de uma vida coletiva destacada pele individualidade de vários personagens, que vão identificando os momentos determinantes da História e de como ela se desfaz de certas razões como se sacudisse a água da chuva da roupa que cobre este desfile de pessoas num vaivém de salas museológicas.

Museu da Revolução

João Paulo Borges Coelho

Editorial Caminho

484 páginas

A reunião de textos de Clara Ferreira Alves escritos nas últimas décadas é agora lida com o crivo do passar do tempo e do seu efeito na perceção dos dias de antigamente. Sendo a passagem do tempo hoje mais acelerada, esta revisão dos factos permite voltar a olhá-lo com outro ardor ou descrença. O primeiro texto recupera o inferno do Afeganistão, que muitos leitores acompanharam este ano com o desenlace do abandono do exército norte-americano do país, fechando com uma sentença real e profética: "E no Afeganistão, a nossa humanidade está a ser sepultada". Não será por acaso que este pedaço de História vai regressando nas páginas que se seguem! Tal como os políticos que marcaram ou envergonharam os tempos mais recentes, contados com testemunhos de como, por exemplo, Arafat fugia às perguntas "que não se encaixavam em respostas de cartilha", ou de Trump, recordado sob a fórmula do "riso alarve" e do seu desgosto, também por exemplo, por Angela Merkel não se parecer com a Kim Kardashian. Isto para não falar de Theresa May, Corbyn, Boris Johnson, entre outros, sobre o Brexit.

Há um texto recente, de 2020, que refere o fim da série de televisão Segurança Nacional. Serve para elaborar um paralelo entre o fim do antigo inimigo soviético e do atual islão, onde se mostra a ambiguidade da personagem interpretada por Carrie Mathison, e de como a atualidade está nebulosa com a troca de poder e a ascensão de outros valores tão errados como os que nos fizeram chegar aqui. Só esse texto vale o livro, que, no entanto, após estas páginas não se esgota pois a realidade observada pela autora vale pelo seu olhar. Concorde-se ou não com ela.

Os Suspeitos do Costume

Clara Ferreira Alves

Editora Clube do Livro

494 páginas

Apesar da longa carreira poética, após A misericórdia dos mercados (2014) o olhar do poeta cruza-se com o do seu leitor de uma forma mais interventiva, com uma fórmula mais drástica, e com uma visão menos de perdão. Em Voltar, o mais recente volume que publica, esse olhar regressa, mesmo que seja num poema de memória de um antigo amor que as redes sociais não ressuscitam por ter sido sempre falhado - como um acontecimento perverso na História -, no Navegação à vista, onde o destino permanece obscuro - em que a transformação pessoal é questionada -, ou em Eles, com variações da língua brasileira - com a exigência do sopro da natureza. Não se fica indiferente quando se explica o poeta em Negócio da poesia: "Estranho mexer na poesia, / apanhá-la quente num brando estertor / e secá-la em palavras endurecidas / sobre o chão. / Um negócio de instantes sem memória / a cintilar no escuro / à espera do fogo."

Voltar

Luís Filipe Castro Mendes

Editora Assírio & Alvim

103 páginas

O autor de O Pirata das Flores tem por hábito remexer em situações que os escritores deixam de lado e, afinal, dão bons livros. Neste caso, Tiago Salazar explica-se no prólogo: "Tudo começou a ganhar corpo quando me chegou à caixa de correio a imagem de um túmulo decorado com uma caveira e duas tíbias (...). Essa carta enviada "por um amigo do peito" avançava que estava ali o assunto que o deveria inspirar: "Tens aqui o teu próximo livro". Tratava-se de investigar o protagonista que de aluno do seminário de Angra do Heroísmo faria o inverso do que lhe estava destinado e em vez e uma vida pia iria tornar-se pirata, traficante de ópio, entre outras malvadezas. No fim, é enterrado na ilha das Flores, onde viera ao mundo, e o relato que o descreve é emocionante devido aos vários lados de uma personalidade, aventurosa como podem ser algumas vidas, explicativo de como os portugueses andaram por aí pelo mundo, e, principalmente, exigente no conhecimento deste peregrinação que estava escondida e à frente de muitos olhos.

O Pirata das Flores

Tiago Salazar

Editora Oficina do Livro

180 páginas

Se há protagonistas do século XX que regressam intermitentemente às nossas vidas, o senhor António Ferro é um deles. Por norma, sempre ligado a Salazar e ao brilho que deu ao ditador, mas desta vez a edição da sua Ficção pretende mostrá-lo enquanto autor e, como refere o editor Hugo Xavier no início dessas centenas de páginas que se seguirão, o desejo ao publicar esta recolha é voltar a dar ao senhor António Ferro o seu pendor intelectual em vez do de propagandista. Explica-o: "Nos anos 10 do século XX, Ferro consumira o cinema internacional e moderno. A estética e o ideário". Daí que, acrescenta, a "ficção de António Ferro é, quase, exclusivamente, sobre essa modernidade: vamps, mulheres libertas, carros (...); enfim, o estilo é típico da prosa modernista, cheio de si e aforístico".

A introdução de Luís Leal é muito oportuna, afinal já é necessário nos tempos que correm enquadrar o senhor António Ferro e dar a compreender a dimensão de um autor que numa epígrafe escreve: "Não sou um discípulo de Oscar Wilde. Quando o li pela primeira vez, tive a impressão que tinha sido plagiado." Uma recolha que sai a tempo, nem que seja para reviver o escândalo que o seu livro Leviana provocou quando foi publicado.

Ficção

António Ferro

Editora E-primatur

675 páginas

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