"Desvio": um livro na cabeça de um jovem entre o Instagram e o exame de código

Novela gráfica de Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho retrata um jovem à procura do seu caminho. E é uma pequena maravilha.

Miguel está estendido no sofá. É verão, ele tem 18 anos, os pais vão de férias, os amigos foram para um festival de música e ele vai ficar sozinho em casa. Desta vez não lhe apetece estar com os outros. Quer só ficar sem fazer nada. Por alguns dias, o tempo parece como que suspenso. Vê filmes, joga computador, distribui likes nas fotografias dos amigos, estuda para o exame de código. Está calor e ele e a namorada estão "a fazer uma pausa". Miguel aquece a comida no micro-ondas, rega as plantas da varanda como a mãe lhe pediu e deixa a roupa espalhada no chão do quarto. E pensa na sua vida. O que quer fazer, afinal? Com quem quer estar? É isto ser feliz ou será que há mais qualquer coisa?

Desvio, a novela gráfica de Ana Pessoa (texto) e Bernardo P. Carvalho (ilustração) é um pequeno livro que nos conta a história de um rapaz ao mesmo tempo que nos fala de praticamente todos os jovens, e tem a capacidade de nos pôr a pensar mas também de nos comover. Ali estão todas as encruzilhadas de um jovem que se sente como um turista na sua própria vida, vagueando, umas vezes entusiasmado e tirando fotografias, outras vezes entediado consigo mesmo.

O livro capta também um pouco dessa angústia que é ser mãe de um adolescente - aquele momento em que os filhos nos expulsam do seu mundo e se tornam estranhos que vivem num quarto da nossa casa, em que temos de os deixar ir mas não paramos de nos preocupar com o seu bem-estar. Aquele abraço - pedido pela mãe, cedido por Miguel - é tão verdadeiro que quase o podemos sentir.

"O que faço aqui?"

Não deveria ser surpresa. A adolescência e as múltiplas dores do crescimento são um tema recorrente para Ana Pessoa. O caderno vermelho da rapariga karateca, o seu primeiro livro e aquele com que venceu o Prémio Branquinho da Fonseca 2011, na categoria de literatura juvenil, era o diário de uma rapariga de 14 anos. Em Supergigante (2014) entrámos na cabeça de Edgar, um rapaz que acabou de perder o avô e ao mesmo tempo se descobre apaixonado pela amiga Joana. Mary John (2016) é uma longa carta de Maria João ao seu amigo de infância (e paixão não correspondida), Júlio.

"Acho que pode ter a ver com a minha relação com a língua portuguesa", diz Ana Pessoa, numa entrevista feita por mail, tentando explicar o seu interesse por esta fase da vida. "Vivo fora de Portugal há muito tempo. Quando escrevo em português, regresso a um espaço e a um tempo que estão mais próximos da adolescência. Além disso, escrevi muito quando era adolescente".

"Assim que aprendi a ler e a escrever, desatei logo a ler... e a escrever. Escrevi sempre muito", conta Ana Pessoa. Estudou Línguas e Literaturas Modernas e vive desde 2007 em Bruxelas, na Bélgica, onde trabalha como tradutora. Aos 38 anos, é mãe de três crianças. E também escritora. Em 2018, Aqui é um Bom Lugar venceu o Prémio Literário Maria Rosa Colaço, dedicado à literatura infantil. "Hoje em dia, a escrita salva os meus dias", diz. "Escrever permite-me prestar atenção ao tempo que passa e apanhar certos momentos fugazes, registá-los, pensá-los. Um corvo no céu, uma folha no chão, um papel no bolso, coisas assim. Escrever é no fundo viver outra vez ou viver com mais intensidade."

Nos livros de Ana Pessoa, os adolescentes falam na primeira pessoa. A autora mergulhando nas dúvidas e nas ansiedades e nos sonhos e nas paixões daqueles rapazes e raparigas - todos eles muito diferentes mas, ao mesmo tempo, muito parecidos. "Penso que, no essencial, não somos assim tão diferentes uns dos outros", diz, quando lhe perguntamos se é difícil imaginar-se na pele de um adolescente do século XXI .

"No geral andamos todos nas mesmas demandas, queremos todos perceber quem somos e o que andamos aqui a fazer. Um adolescente dos anos 90 não é diferente de um adolescente hoje em dia. Da mesma forma que um adulto hoje em dia não é muito diferente de um adulto no século XIX. Arriscaria dizer até que os adultos não são muito diferentes dos adolescentes. Claro que há a questão da maturidade e da experiência de vida, mas o ser humano está sempre à procura das mesmas respostas. Quem sou eu? O que faço aqui?"

Menos palavras, mais imagens

"Já andava a escrever sobre este Miguel há um tempo. Quando percebi que estava a escrever uma novela gráfica, fiquei um pouco confusa: não sabia como avançar", conta Ana Pessoa. Este era um formato que a fascinava há algum tempo e já tinha trocado umas ideias sobre o assunto com o ilustrador Bernardo P. Carvalho e a editora Isabel Minhós Martins. A maior dificuldade, diz, "foi escrever várias narrativas em simultâneo (narrativa em off, diálogos e narrativa visual). Ao longo deste processo, tinha grandes dores de cabeça (é mesmo verdade). O caderno onde escrevi a maior parte da história estava cheio de setas e asteriscos. Foi um processo cheio de solavancos porque estava a fazer uma trança com várias narrativas que tinham, ainda assim, de funcionar quase autonomamente. Ainda por cima, o texto tinha de ser necessariamente sintético."

Claro que é complicado para um escritor que está habituado à narrativa, de repente, ter que limitar as palavras e deixar grande parte da história ser contada por imagens, admite Ana Pessoa. "Era difícil calar o Miguel e as personagens. Além disso, não foi um exercício muito literário, porque o monólogo interior do Miguel era constantemente interrompido por uma narrativa visual omnipresente; onde é que ele está, como é que está, o que está a fazer. Por vezes tinha a sensação de que a história estava toda partida aos bocados. Mas de repente havia momentos em que tudo se iluminava, porque essa narrativa visual, muito descritiva e quase técnica, trazia novos elementos para as reflexões do Miguel: o micro-ondas em contagem decrescente, a gaivota a olhar para ele, o carreiro de formigas, etc."

Isto implicou também um processo de trabalho muito diferente do que era habitual para a autora: Ana e Bernardo já tinham feito outros livros em colaboração mas desta vez, pela primeira vez, iam mostrando o seu trabalho um outro e iam avançando juntos na escrita do livro. O ilustrador partilhou no site da Planeta Tangerina alguns dos primeiros desenhos e o modo como foram evoluindo até ao livro.

Este é um daqueles casos em que a forma determina o conteúdo. Se não fosse uma novela gráfica, a história seria necessariamente diferente, admite Ana Pessoa: "Não haveria encontros inesperados entre o espaço interior do protagonista e o espaço exterior. Não haveria tantos níveis de leitura. Observar um rapaz numa varanda não é o mesmo que ler sobre um rapaz que está na varanda. A narrativa visual é silenciosa e tem um poder muito próprio, sobretudo se estiver nas mãos de um artista como o Bernardo. Em prosa, seria necessário descrever este rapaz na varanda e isso significa que essa imagem deixaria de ser silenciosa e subtil. Passaria a ser explicada. Por outro lado, num conto ou num romance, teríamos acesso a uma narração exaustiva. Nesse sentido, haveria menos espaço para o silêncio e o mistério. O Miguel seria menos enigmático, parece-me."

Uma questão difícil de resolver noutro registo literário, diz a autora, seria o tempo dos ecrãs: os videojogos, a televisão, o Instagram, o WhatsApp. "Mostrar estes ambientes é muito interessante. Escrever sobre eles nem tanto." O livro está cheio desses pequenos pormenores que lhe dão uma consistência muito real - as hashtags no Instagram, as selfies desfocadas, a sopa de letras, os cigarros fumados à varanda, ficando cada vez mais curtos à medida que o tempo passa. Entretanto, os pais voltam de férias. Tudo volta ao normal - ou talvez não, talvez este desvio leve Miguel por outros caminhos que ele antes não tinha avistado.

Desvio
Novela gráfica
Ana Pessoa e Bernardo P. Carvalho
Editora Planeta Tangerina
Preço: 18.90 euros

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