Deixem passar a voz deste Lobo Antunes

Há um efeito de perplexidade ao ver Miguel Lobo Antunes a cantar e a protagonizar a comédia musical Technoboss, de João Nicolau. Um efeito que joga a favor do filme que se estreia nesta semana.

Uma comédia do arco-da-velha ou a cristalização de um estilo que impõe um humor sem vassalagem do real. João Nicolau, depois de John From (2015), regressa com um tom airoso e a retomar o seu tema comum: a possibilidade do amor, neste caso através de um estudo de personagem de um simpático caixeiro-viajante à porta dos 70. Um expert de uma empresa de instalação de equipamentos tecnológicos de segurança. Alguém que canta para espantar os males e refletir sobre a vida e os outros. Mas cantará de um outro modo quando percebe que o amor pode estar ali mesmo à sua frente, neste caso, encarnado numa rececionista de hotel com pelo na venta.

Tudo ganha maior densidade de cinema de fantasia quando cedo percebemos que os cenários podem ser telões num jogo cénico com a própria noção de musical de pequena escala, onde os temas de Nicolau, Norberto Lobo e Pedro da Silva Martins avançam a narrativa e trocam-nos as voltas com a mistura de registos - do beat eletrónico ao metal. Isso e a escolha do ator, um Miguel Lobo Antunes que se estreia na representação e que dá à personagem uma palete de afetos tão sincera como original. O antigo jurista que esteve à frente da Culturgest é daqueles não atores cujo carisma não se explica.

Technoboss tem ainda a delicada virtude de não se parecer com nada, a não ser com a insolência do próprio estilo pardacento de Nicolau, cineasta que insiste num cinema que desmonta a sua própria pose...

Profundo na sua leveza, vive igualmente das canções que este septuagenário canta. E canta como sonha ou como pensa. As letras das melodias falam do seu estado de alma e dos seus sonhos. São cantos de cisne literais. Cantos que encantam e que embalam por uma teimosia que está do lado dos românticos e dos casmurros.

Nicolau fez filme livre, com falhas, mas sempre único num tom que é só dele e que já atravessava o historial das suas curtas-metragens, onde por vezes as melodias musicais eram um pacto perfeito com o espectador.

Romântico e trôpego, o senhor Rovisco de Nicolau é uma possível ideia de gentleman português. Poderia ser o protagonista de um livro ou um retrato da difícil arte de envelhecer, mas é apenas o nosso timoneiro de um road movieque é ao mesmo tempo áspero e benevolente. Por isso, é importante cantar e dançar, desafinar e subverter as coreografias. Porque o que mais importa é fazer um manguito à tragédia.

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