Casper Clausen, um disco ao ritmo do Tejo

O dinamarquês, vocalista dos Efterklang, acabou de editar o primeiro álbum a solo, Better Way, criado e gravado num estúdio com vista para Lisboa, onde viveu dois anos e que, segundo ele, foi fonte de inspiração para estas músicas.

Era uma rotina que partilha com milhares de pessoas. Durante dois anos, quase todos os dias, o músico e cantor dinamarquês Casper Clausen, 39 anos, membro fundador dos influentes Efterklang, uma das mais inventivas bandas do pop-rock alternativo europeu, cruzou o Tejo para ir trabalhar no estúdio que criou num velho armazém semiabandonado, situado no popular bairro do Olho de Boi, junto a Cacilhas. "Há algo que me fascina na água a fluir. Foi o estúdio mais cool que já tive. A rotina de atravessar o rio, no cacilheiro, era muito importante para mim. Esse local ajudou-me a encontrar o caminho certo para este disco, que tem muito que ver com Lisboa. Não canto propriamente sobre as ruas, mas a vibração da cidade está toda lá", começa por dizer ao DN via telefone, "desde uma zona rural da Dinamarca", onde está "confinado com os amigos e companheiros dos Efterklang", a gravar o novo disco da banda. "Neste momento estou numa espécie de limbo, por causa da pandemia. "Ainda tenho todas as minhas coisas em Lisboa, apesar de já não ter aí casa", conta.

Better Way, assim se chama o álbum, num título que, segundo Casper, "diz tudo sobre a influência de Lisboa", é um trabalho variado e de certa forma exploratório, no qual se cruzam elementos de krautrock, avant-pop e até rock progressivo. "Este disco é uma definição de mim, foi isso que procurei ao fazê-lo, porque quando se está numa mesma banda já há mais de 20 anos, como é o meu caso, o trabalho passa muito por descobrirmo-nos e desafiarmo-nos uns aos outros. A solo, descobri uma maneira completamente nova de trabalhar, em que sou eu a decidir tudo. As canções tanto podem ser longas como curtas, mais pop ou completamente esquisitas, tenho liberdade total para fazer o que quiser. Foi uma grande experiência, tenho de admitir."

Com arte gráfica da amiga e artista plástica portuguesa Fátima Moreno e produção do britânico Peter "Sonic Boom" Kember, dos Spacemen 3, também ele, desde há algum tempo, um expatriado em Portugal, Better Way assume-se também como um retrato musical do período de cerca de dois anos que Casper passou em Portugal. "Além de todos os pensamentos e raciocínios que levaram à construção das canções, este álbum tem acima de tudo muito que ver com a minha vontade de construir uma banda sonora para o simples facto de ter estado ali. Agora que olho para trás, percebo que é muito difícil descrever aquele espaço de uma forma simples", constata. A própria escolha final foi feita durante alguns concertos que deu em Portugal, onde experimentou as músicas em palco, para decidir quais entravam no disco e as que ficavam de fora: "Adoro o lado de performance ao vivo e como estas canções foram todas cridas em estúdio e tinha de as experimentar noutro contexto."

Cidade com sol todo o ano

Foi já há mais de uma década que Casper Clausen visitou pela primeira vez Lisboa, na companhia dos Efterklang, numa noite que começou no palco do Musicbox e terminou madrugada dentro, nas ruas do Cais do Sodré, de copo de cerveja na mão, a falar com quem lhe aparecia à frente. À época, estava prestes a mudar-se da sua Copenhaga natal para Berlim, mas a imagem daquela "cidade amigável e descontraída" nunca mais lhe saiu da memória. Depois de seis anos a viver na capital alemã, sentiu "necessidade de vir para o sul".

Estava indeciso entre Lisboa e Granada, mas a escolha ficou logo limitada à primeira opção, por influência do amigo Pedro Azevedo, programador do Musicbox. "Fez o que qualquer português faria e convenceu-me", lembra Casper. Começou por passar cá um mês, em 2015 e quando regressou a Berlim "já não tinha dúvidas - mudou-se em definitivo para a capital portuguesa no ano seguinte. "Nessa época era muito mais barato arranjar casa", lembra com humor Casper, que começou por viver em Alfama, numa casa partilhada com o músico português Pedro Lucas, da dupla Medeiros-Lucas.

Viveu depois no Bairro Alto, mas era na Margem Sul, algures entre o Ginjal e a Trafaria, que tinha o seu refúgio, numa sala emprestada pelo artista plástico Rui Soares Costa, num antigo edifício portuário, que transformou em estúdio. "Ia para lá todos os dias, para criar uma rotina de trabalho, que na música, por ser algo tão abstrato, por vezes é difícil de conseguir", recorda Casper, para quem o Tejo acabou por se tornar um metrónomo natural. "Se há influências de Lisboa na minha música, uma delas tem que ver com a proximidade da água. É como se estivesse sempre a tentar encaixá-la nesse rio, que se move ao sabor das marés. Estar num sítio como este acabou por acalmar a minha música, que também acabou por ganhar outras cores, devido a todos os sons de Lisboa, como os elétricos ou a ponte. É um ambiente totalmente diferente daquele de onde venho, o que me abriu muito mais o espectro e me tornou mais livre, enquanto artista. E depois há luz. Na Dinamarca, quando há um dia de sol, fazemos uma festa. Aí há sol durante todo o ano", sublinha. Sobre os portugueses, elogia o modo de ser, "simples e cordial, sem receio de serem intuitivos com estranhos", embora reconheça que "é um pouco difícil planear coisas com antecedência", mas foi também esse lado mais informal que inicialmente o atraiu. "As pessoas não se importam de ficar à conversa, a beber uma cerveja ou um café com os amigos. Há tempo para tudo e isso agrada-me muito."

O regresso a Portugal está para já marcado para o final de maio, para uma residência artística em Braga, no GNRation, onde também irá dar o primeiro concerto de apresentação do álbum, a 29 desse mês, se a situação da pandemia o permitir. "Talvez depois do verão, se as vacinas funcionarem, as coisas voltem aos poucos ao normal", deseja. Entretanto, continua a refugiar-se na música. "Sou abençoado pelo facto de estar a fazer música com os meus amigos de há mais de duas décadas. Começámos a trabalhar no início da pandemia e esse processo tem funcionado como uma proteção, que me tem ajudado a estar concentrado e distraído do resto", admite. Por outro lado, depois de anos a viajar pelo mundo, "em digressão mas também por opção", compara a pandemia a "um enorme botão vermelho", que finalmente o obrigou a parar um pouco. "De certa forma voltei a encontrar-me, percebi os meus limites e defini novos desafios, mas, acima de tudo, tornei-me muito mais agradecido pelas coisas simples da vida que damos como garantidas: comida na mesa, amigos, trabalho e um sítio para viver".

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