"Aurora Negra": é a vez de elas contarem a sua história

Cleo, Isabel e Nádia são três atrizes negras que pegam nas suas memórias para criar um espetáculo que é também um manifesto pela visibilidade e pela dignidade dos negros, no palco e fora dele.

"Esta é a nossa casa." Elas dizem-no com determinação. Referem-se ao teatro onde se apresentam, um teatro público, histórico, com salas douradas e cadeiras de veludo. "Estás a ouvir, Maria da Glória?" "Esta é a nossa casa." Referem-se ao país onde moram ou onde nasceram, onde são cidadãs, mas onde, tantas vezes, ainda ouvem palavras como "volta para a tua terra". "Esta é a nossa casa." E aqui estão elas para reivindicar esse espaço: "Se ser uma mulher preta e feliz é revolucionário, então nós somos a revolução".

Aurora Negra, o espetáculo que está em cena da Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, é uma criação coletiva de Cleo Tavares, Isabél Zuaa e Nádia Yracema. Elas são três mulheres negras - e estas são duas informações importantes porque o espetáculo é baseado precisamente nesta experiência de ser mulher e negra, hoje, há 50 anos, há 400 anos. O que mudou? O que não mudou? Que imagens lhe estão associadas? Que expectativas?

A peça começa como uma viagem, nos navios de escravos que saíram de África e atravessaram o Atlântico, mas pouco depois já estamos noutra viagem, aquela que trouxe para Portugal muitas famílias, entre as quais as das atrizes. E das histórias das mães que se levantavam às quatro da manhã para trabalhar, mergulhamos nas vivências delas, primeiro crianças e depois jovens, desconstruindo estereótipos a partir das suas próprias memórias, umas vezes doces, outras vezes tristes, umas vezes fazendo-nos rir, outras denunciando preconceitos. Maravilhamo-nos a vê-las a dançar para logo a seguir sentirmos o desconforto da discriminação de que são alvo: "Eu sou tão preta que as pessoas acham que estou aqui para limpar o palco".

A constatação da invisibilidade dos corpos negros nas artes performativas foi um dos pontos de partida para esta Aurora Negra. "Tem de existir mais diversidade quando se forma uma equipa, porque são pessoas que trazem outra sensibilidade, outras histórias", explica Cleo Tavares numa conversa com os jornalistas, antes da estreia, considerando que o acesso à construção das narrativas é constantemente negado aos atores negros, normalmente relegados para papéis estereotipados que vão ao encontro de uma construção previamente concebida e que se estende também ao meio audiovisual. A atriz recorda que no meio artístico é "constantemente debatida pela cor da pele". Isabél Zuaa acrescenta que normalmente "o preto, quando está no palco, representa todos os pretos, mas o branco não representa todos os brancos".

Mas a invisibilidade dos corpos negros não "morre" nos palcos, antes estende-se por toda a sociedade portuguesa em detalhes como a dificuldade de aceitação das línguas nativas. Por isso, em Aurora Negra estão em cena três mulheres que falam crioulo, tchokwe e português, "na condição de estrangeiras", num país "onde são faladas essas três línguas". O objetivo de algumas cenas onde as personagens trocam impressões nessas línguas é, precisamente, "obrigar" o espetador a, "de repente, estar nesse lugar de estrangeiro", explica Nádia Yracema. "Aquilo que queremos que todos percebam, no geral, é isso de as pessoas se sentirem estrangeiras no seu próprio país, como muitos se sentiram estrangeiros no seu próprio país onde a língua oficial é o português", corrrobora Isabél Zuaa.

O projeto começou a nascer há quatro anos mas só ganhou realmente forma quando receberam a Bolsa Amélia Rey Colaço, no valor de 22 mil euros, atribuída pelo Teatro Nacional. O prémio destinado a apoiar a produção de espetáculos de jovens artistas e companhias emergentes, foi um "empurrão" essencial: "A Bolsa possibilitou-nos ir mais além, acrescentar mais coisas", explica Cleo Tavares. Quando tens esse suporte financeiro, dá-te tempo para experimentar, deu-nos esse conforto de poder ser criadoras e experimentar várias coisas."

Maria da Glória, a D. Maria II que dá nome ao teatro, não podia imaginar, quando vivia ainda criança, rodeada de criados negros, no Brasil, em meados do século XIX, que isto iria acontecer. O caminho foi íngreme, demoraram a chegar. Mas estamos em 2020 e, agora, elas já podem dizê-lo: "Esta é a nossa casa".

Aurora Negra
de Cleo Tavares, Isabél Zuaa e Nádia Yracema
Sala Estúdio do Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa
Até 13 de setembro
Qua e sábado às 19:30, quinta e sexta às 21:30, domingo às 16:30 Sala

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