Alice e Peter Pan em estado de crise

Em nome do cinema para crianças, Era Uma Vez... propõe uma triste e patética variação sobre a herança de dois livros clássicos.

Como diz o triste lugar-comum: aí está mais um "filme para os miúdos", de seu nome Era Uma Vez... (título original: Come Away). A justificar, talvez, o relançamento de uma velha interrogação: de que falamos quando falamos de cinema infantil?

A expressão é quase sempre aplicada como uma bandeira moral. A saber: por um lado, parte-se do princípio segundo o qual um filme "infantil" é algo facilmente identificável, logo universal; por outro lado, as vidas das crianças são frequentemente tratadas como um território autónomo, também universal, fazendo que os filmes em causa estejam recobertos por uma espécie de inexpugnável legitimidade artística.

Promovido pelo marketing, esse idealismo de bolso parece francamente insuficiente. Uma parte significativa do cinema (dito) infantil transformou-se mesmo num apêndice fútil dos filmes de super-heróis: a normalização das narrativas triunfa, a ostentação técnica faz lei e prevalece a ideia de que o espetador pertence a uma tribo definida pelas rotinas de um consumo sem critério.

O exemplo de Era Uma Vez... é tanto mais significativo quanto há nele um desconcertante "amadorismo" que confunde a arte de contar histórias com a acumulação de "surpresas" mais ou menos bizarras. Quem se lembraria de juntar numa mesma ficção a Alice de Lewis Carroll e o Peter Pan de J. M. Barrie? Pois bem, eles aí estão reunidos em festiva irmandade. Literalmente: Alice e Peter são... irmãos! É verdade: a aventura (?) irá nascer do empenho com que as incautas personagens tentam resolver os problemas financeiros dos pais...

Haverá, por certo, "razões" para justificar as propostas dramáticas desta primeira realização a solo de Brenda Chapman, depois do seu envolvimento em O Príncipe do Egito (1998) e Brave - Indomável (2012), dois títulos de animação. A começar pelo facto de Alice no País das Maravilhas e Peter Pan pertencerem a uma época de peculiar fulgor literário - as suas primeiras edições datam de 1865 e 1902, respetivamente.

Não é isso que está em causa. Acontece que a sua fraterna "aproximação" (no interior de uma família inter-racial) não passa de um pequeno truque para construir uma fábula de patéticas trivialidades, pontuada por cenas "oníricas" com lugares e objetos que remetam para as memórias cinematográficas dos originais. Depois, pouco mais acontece para lá desse academismo muito na moda que consiste em seguir os atores com uma câmara de steadicam, de modo a gerar uma ilusão de "movimento" e "vertigem" reforçada por uma montagem sem imaginação.

A sensação de desperdício é enorme, até porque não é todos os dias que se reúne um elenco liderado por Angelina Jolie e David Oyelowo (intérpretes dos pais de Alice e Peter), incluindo, em breves papéis secundários, atores como Michael Caine e Derek Jacobi. Era Uma Vez... deixa a sensação amarga de um objeto anónimo, executado por uma máquina de produção que mais não procura do que "encaixar" no chamado setor infantil do mercado.

dnot@dn.pt

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