Agentes secretos Hansel e Gretel: operação biscoito

A aposta Netflix para entreter a família nesta quadra chama-se Agência Secreta de Controlo de Magia. Um título burocrático que esconde um conto de fadas com toque de 007 e doçaria a rodos.

Às vezes as animações são só histórias simples bem polvilhadas de açúcar que levam os miúdos a lugares imaginários em nome da pura aventura com final feliz. Basta um bom truque narrativo, algum engenho visual, muita cor e aquele conforto genérico do conto de fadas. No caso de Agência Secreta de Controlo de Magia, de Aleksey Tsitsilin, o mais recente lançamento Netflix em matéria de desenhos animados, há mesmo uma fonte clássica: Hansel e Gretel, o conto dos irmãos Grimm, que acaba por ser mais uma referência do que uma nova versão, já que aqui tudo se resume a uma aventura de modelo 007 com abordagem descomplicada e pozinhos de perlimpimpim. Há também uma bruxa clássica, Baba Yaga, e guloseimas com fartura, mas as práticas de magia negra não têm rédea solta com uma especial dupla de agentes secretos por perto.

Quer dizer, a agente profissional desta história é Gretel. O irmão, Hansel, é um feiticeiro charlatão - não menos profissional - cuja arte de enganar multidões com poderes mágicos encenados se torna conveniente para uma missão que consiste em salvar o monarca do reino, que foi raptado por um homem-esparguete enquanto tentava comer uns macarons saltitantes do seu banquete real... A trama começa bem e tem pernas para andar, desde logo, aproveitando o conflito entre os dois irmãos de métodos divertidamente opostos. "Assuntos de família" que ajudam a um percalço que vai dar contornos mais fofinhos à missão: quando ainda estão no princípio da parceria, um acidente num armazém recheado de frascos com fórmulas mágicas resulta na inalação de uma que os transforma em crianças. De resto, uma aparência física que não dá jeito nenhum para se ser levado a sério...

Entra-se então na engrenagem do conto infantil, misturado com as habilidades das missões de espionagem, em que a premissa da fantasia domina os diversos cenários encantados e promove o cruzamento de personagens de todo o tipo. É um catálogo interessante, desde a chefe da organização secreta que ouvimos ser tratada por "Madrasta", a cupcakes de olhos grandes que fazem lembrar os Minions, passando por um exército de biscoitos em forma de soldadinhos de chumbo, sereias e ainda uma chef-feiticeira malvada que está a planear um "biscoitapocaplipse".

Enfim, não falta criatividade e doçura visual a esta incursão descontraída no registo dos filmes de ação "adultos", com tudo menos um registo adulto, bem entendido. Apesar do tom burocrático do título - a que não será alheio o facto de se tratar de uma produção russa - Agência Secreta de Controlo de Magia é a típica animação competente que entretém com eficácia, para além de trabalhar diferentes universos narrativos de maneira desembaraçada. Uma proposta que preenche os requisitos e garante a diversão mais gulosa do momento, sem cair nos excessos de enredo de muitas produções dos grandes estúdios... Aqui o propósito maior é conquistar a criançada com doses certas de fórmula mágica e, pelo caminho, arrancar um sorriso aos adultos pela inteligente combinação das referências clássicas (as infantis e as outras). É o suficiente para animar uma Páscoa tristonha.


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