A segunda vida de Fernando Pessoa: Yeats e a crença no Anti-Cristo

E se Fernando Pessoa regressasse ao presente sob o heterónimo Vicente Guedes, aquele que foi preterido como autor do Livro do Desassossego para Bernardo Soares? Um romance inédito de João Céu e Silva que o DN está a publicar em 12 capítulos.

75 anos após a morte de Fernando Pessoa aparece um homem em tudo igual ao poeta na esplanada do Martinho da Arcada. Chama-se agora Vicente Guedes, um dos heterónimos do poeta, quer voltar a viver na sua antiga morada, onde agora está a Casa Fernando Pessoa, e assume-se como o seu herdeiro literário. Alguém o está a ensinar a ser Pessoa, recuperando os ensinamentos do poeta W.B. Yeats.

Yeats recebe o Nobel da Literatura mas não esquece os ritos mágicos

Alguém retirara a sobrecapa ao livro Uma Visão do poeta irlandês W.B. Yeats e este ficara encadernado apenas com uma cartolina totalmente branca. É certo que o conteúdo do livro estava no seu interior como antes, mas o rosto que lhe dava a primeira personalidade desaparecera. Folheei-o e reparei que nas últimas duas páginas, em branco, estavam anotados alguns números e várias breves frases. Havia o 160 e as palavras Ilhas de Aran, que logo fui verificar a que corresponderiam. Havia também o 101, sem nada escrito a seguir, e uma série de números, 181; 184; 206 e 210, que se referiam a páginas onde as palavras "os meus instrutores" estavam sempre sublinhadas.

Voltei a folhear o volume várias vezes durante as horas em que aguardei por Sena no escritório, na primeira manhã após o seu regresso da Irlanda, e acabei por me fixar na página 167, onde estava impressa a seguinte frase: O intelecto tornou-se indiferente ao bem e ao mal, à verdade e à falsidade; o corpo fez-se indiferenciado, como uma massa maleável; quanto mais perfeita a alma, mais indiferente o intelecto, mais maleável o corpo; corpo e intelecto assumem toda e qualquer forma, aceitam toda e qualquer imagem que neles seja gravada, cumprem todo e qualquer fito que lhes seja imposto, são deveras instrumentos de manifestação sobrenatural, o derradeiro elo entre os vivos e os seres mais poderosos.

Larguei o livro e fiquei a pensar na frase durante alguns minutos. Depois, coloquei-o no lugar onde estava antes na estante e quando Sena entrou pelo escritório adentro apanhou-me no êxtase de pensamento, num momento em que tentava adaptar a biografia que conhecia do poeta Pessoa àquelas linhas que acabara de ler sobre o poeta irlandês. E perguntava-me até que ponto este não era o verdadeiro retrato de Fernando Pessoa?

Sena não se apercebeu do meu estado de alma e, creio, até achou que eu dormitava, encafuado confortavelmente no sofá enquanto o aguardava. Ele, que abrandara a velocidade da marcha em que vinha com um bater de solas no chão de madeira, silenciou a fala que estava a iniciar - um bem audível Bom dia - que rapidamente me trouxe até à realidade matinal.

Logo que me achou estar desperto, perguntou:

- Já leu alguma coisa de William Butler Yeats?

Menti-lhe e disse que não, porque queria ouvir o seu relato sobre o autor numa versão para principiantes. Poderia ter confessado que já lera uma antologia da obra poética traduzida e alguns livros na língua original, mas preferi fazer uma afirmação mais tola, a de que o conhecia de nome e que sabia que ganhara o Nobel, mas desconhecia o que lhe valera tal Prémio. Sena não pareceu importar-se, nem mesmo surpreender-se com a minha ignorância. Antes disse:

- Ótimo, assim não fará o seu trabalho a partir de preconceitos errados como muitos têm por hábito em relação a William Butler Yeats. A quem vou a partir de agora referir-me sempre como Yeats e não como W.B. Yeats.

Gostava de ouvir estas afirmações de princípio por parte de Sena que, cada vez que iniciava um novo capítulo sobre alguém, esclarecia sempre algumas particularidades da sua relação com o autor. Não deixou de o fazer mais uma vez.

- O homem morre em 1939 e, como disse, ganhou o Prémio Nobel em 1923. Ou seja, teve pouco mais de quinze anos para gozar dessa glória mundana em que o galardão sueco sempre afunda aqueles que premeia. Curiosamente, mesmo laureado, não deixou de aprofundar as suas teorias mais esotéricas e de publicar no ano seguinte um livro chamado Uma Visão, no qual expõe muito do pensamento que nos vai interessar daqui para a frente.

- Conhece esse livro?

Respondi-lhe que nunca ouvira falar dele, mesmo que o tivesse tido entre mãos nos últimos minutos, lido algumas páginas e escrutinado as anotações finais manuscritas por quem, penso, agora me perguntava se conhecia esse livro. Evitei referir a curiosidade que me provocaram os sucessivos números de páginas que reportava aos conhecimentos transmitidos pelo que o escritor chamava de "os seus instrutores", designadamente uma frase que ainda me pedia compreensão: Os meus instrutores identificam consciência não com conhecimento mas com conflito, substituindo sujeito e objeto, com a lógica que lhes corresponde, por uma luta pela harmonia, pela Unidade do Ser.

Estava a pensar naquela frase quando Sena pediu para me aprontar. Peguei no lápis e nas folhas que estavam sobre a secretária e comecei a anotar o que dizia. Fi-lo sem atenção porque o meu pensamento estava na Irlanda de onde o meu anfitrião viera. Queria perguntar-lhe como fora a viagem e o que fizera durante os dias em que lá estivera. Como era a cidade; que monumentos visitara; se comprara livros e conhecera pessoas interessantes? Perguntas não faltavam porque, apesar de só conhecer Dublim através de leituras e descrições, era uma cidade que me interessava visitar. Provavelmente seria uma desilusão, mas existia em mim esse desejo que se sobrepunha à atividade que estava a fazer. E o nome Yeats sugeria-me também a pintura, visto que um irmão do poeta fora pintor e eu gostava de várias das suas telas.

Tentei não me distrair porque Sena gostava de uma caligrafia bonita, pouco esborratada e, principalmente, sem erros ortográficos. Ditava devagar para que eu não me pudesse desculpar com o facto de ser incapaz de o acompanhar e era bastante claro na dicção. Não havia, portanto, desculpas para erros da minha parte.

O que Sena perorava era pouco interessante. Fixava uma espécie de cronologia sobre a vida do poeta e ia referindo datas umas atrás das outras, preenchendo os anos entre 1948 e 1865. Estava tão distraído que só a meio da manhã é que eu entendi que estava a escrever a cronologia ao contrário, ou seja, do fim da vida de Yeats para o início. Também só ao rever os apontamentos, a pedido de Sena, é que reparei numa discrepância entre a última data da sua vida que ditara e aquela que realmente deveria ter proclamado como sendo a da sua morte. Yeats morrera a 28 de Janeiro de 1939 e ele fizera-me escrever o ano de 1948 como a data do seu fim. Olhei para o que escrevera com mais atenção e só então entendi que considerava a trasladação do corpo do poeta irlandês para a localidade de Sligo como o ponto final da sua vida e não a primeira sepultura em Roquebrune. Qual seria a razão desta opção?

Não a consegui saber porque a minha distração decerto o irritara. Por isso, quando lhe ia perguntar o motivo desta opção fúnebre já Sena tinha saído porta fora, como era seu hábito ao fim da manhã.

Irlanda? Dublim? Sligo? Roquebrune? Um país, três localidades e nenhuma história de viagem contada. Sem ser capaz de disfarçar o meu estado de curiosidade, decidi que durante o lanche iria extorquir-lhe o relato da sua deslocação àquela ilha do Mar do Norte. Far-lhe-ia uma pergunta discreta e logo veria se aceitaria conversar sobre o tema. Outra pergunta que lhe queria fazer era sobre uns versos que lera em voz alta, no entanto sem pedir para anotar qualquer referência. O verso que mais me surpreendera fora o que dizia "A cerimónia da inocência foi afogada".

- Isso pertence ao poema "The Second Coming", que Yeats escreveu pouco tempo depois de a Grande Guerra terminar. É um escrito estranho e sobre o qual há várias interpretações que pouco nos importam agora. Posso-lhe dizer que, na maior parte das opiniões, a razão de ser do poema terá a ver com a profecia bíblica do Livro da Revelação, a que anuncia o regresso de Jesus no fim dos tempos. Eu não partilho dessa explicação porque Yeats coloca nos versos a transposição de uma teoria que é alegadamente esotérica mas que será mais verdadeira do que as outras que parecem ter a ver com a Primeira Grande Guerra, até porque é devido a esse conflito que então se colocava a iminência do apocalipse.

Via-se que Sena não desejava divulgar o seu conhecimento, mesmo que ainda tenha dito que Yeats tinha uma opinião mais mística sobre o processo histórico e o seu fim, através da representação dos ciclos do tempo nuns cones em rotação, que se entrelaçavam uns com os outros e que continham espirais onde se registava o início e o fim do desenvolvimento do pensamento humano, bem como o combate entre as forças do que é puro e do que é mal.

- Ou seja, para Yeats o apocalipse será bem diferente daquilo que as Sagradas Escrituras contam e a tão esperada Segunda Vinda de Jesus terá uma relação com o aparecimento do Anti-Cristo que não será bem como se pensa...

Sena não falou mais sobre o poema, nem, clarificou a minha incompreensão sobre o simples verso que eu referira. Pelo contrário, o que dissera transformava aquelas palavras normais numa pilha de mistérios que, esses sim, afogavam a minha inocência sem cerimónia. Destas suas palavras, retive mais o inesperado de as proferir, já que era raro adiantar-se em explicações. Mais uma vez, eu confirmava que fazer três leituras era o prato forte de Sena no que respeita à mensagem oculta que se poderia encontrar em qualquer verso, aparentemente inocente e belo.

Saber ler nas entrelinhas era o meu maior desafio neste momento. O que ia desvendando na personalidade de Yeats através da sua poesia mostrava-me que era esse o caminho a seguir se o desejo fosse também o de entender o meu papel nesta estada no Freixo, até porque se um poeta transporta sempre para os seus versos muito do que observa no dia-a-dia, também a poesia serve para esconder conhecimentos. Pelo que Sena ditara até ao momento, era impossível acreditar que o poeta irlandês apenas escrevera poemas sem introduzir entre as linhas dos versos muita da informação sobre ocultismo que aprendera ao longo de décadas de prática. Para quem lê o trabalho intelectual de Yeats sem estar preocupado com essa dupla condição do autor, o que lhe aparece é o confronto com a beleza de uma paisagem, o torcer das palavras para quando é necessário rimar e a expressão de sentimentos amorosos. Alertado pelos textos em posse do meu anfitrião e que eu espiara, não poderia ser mais essa a minha posição perante a sua poesia. Não considerava, no entanto, que isso fosse bom para um leitor como eu. Porque abandonava a contemplação das palavras a troco da sua desconstrução e preocupava-me mais em estar a fazer uma busca por significados diferentes daquele que uma leitura ingénua ofereceria da obra.

Talvez para evitar este erro interpretativo, revi os poemas que lera nos dias anteriores. Vi imediatamente que os significados que tinham desapareceram com a violência que provocaria uma onda gigante no areal desprotegido de uma praia. Só que esse choque era contra mim e o resultado fazia com que as palavras dos poemas perdessem o norte. Como se a minha bússola de leitura estivesse mais desorientada do que eu próprio nesta investigação e me obrigasse a repensar que o facto de saber ler nas entrelinhas não seria o meu maior desafio neste momento. Não seria por acaso, pensei também, que o escritor recebera o Prémio Nobel... Nem a Academia Sueca estaria ao abrigo de certas poderes ocultos que andavam por esse mundo fora, bem a coberto da literatura e do trabalho de poetas como Yeats...

O que o meu trabalho para Sena mostrava de um modo muito claro é que nada era o que parecia, realidade que as anotações que eu viera fazer para o Freixo confirmavam. Afinal, qualquer segredo desapareceria se fosse bem investigado ou, por outro lado, ganharia uma carapaça mística que o faria bem mais misterioso do que aquela que já possuía. Não era necessário pensar muito sobre esta verdade que me surgia cada vez mais clara, nem ser um grande entendido para ficar a perceber que o ocultismo em que estes poetas se apoiavam tinham um objetivo muito maior do que aquele que o cidadão poderia compreender. O leitor era um recetor, nada mais do que isso, que servia uma causa que lhe passava ao lado mas que, ao partilhar do prazer de certas leituras, transformava-se em seu divulgador.

Tive a tarde toda para mim. Ainda fiz uma revisão à cronologia e passei a limpo a folha que estava em piores condições para ser apresentada. A lista de datas e os eventos da vida do poeta ocupavam uma dúzia de folhas, confirmando que esta fora a sessão de trabalho mais produtiva desde que iniciáramos a colaboração e que bem merecera o almoço que se seguiu. A jovem que me fizera companhia durante a ausência do meu anfitrião e da sua empregada desaparecera e ainda estive para questionar a mulher que me servia agora a refeição sobre a razão da sua ausência. Seria definitivo o seu desaparecimento; voltaria a perguntar-me se a desejava - responderia imediatamente que sim -, ou regressaria ao meu convívio mal a dupla partisse para outra viagem? Resolvi que não faria qualquer pergunta sobre a jovem e que o consolo sexual que me proporcionara durante os dias anteriores seria com certeza suportável, ou não estivesse eu acostumado a longas ausências de um corpo feminino na minha vida. Fora um presente dos deuses ter alguém que satisfizesse o meu apetite sexual como uma escrava. Ainda pensei, tudo o que é bom tem um fim.

Era isto que estava na minha cabeça enquanto me ocupava com outras questões menos filosóficas. Tal com o gosto da carne da perna de porco que me fora posta à frente e do resto do peito de pato que sobrara do jantar do dia anterior, que eu excluíra da refeição por ser impossível devorar tanta comida como a que me fora oferecida. Desconfiei, no entanto, que estes pensamentos sobre a jovem ausente só tenham surgido após a empregada me ter perguntado se eu preferia perna ou peito, palavras que me remetiam sem escrúpulos para aquele corpo.

Antes de terminar a refeição, ainda olhei pela janela aberta de par em par para o jardim. Não se via o gazebo desta sala, por isso imaginei como seria bom aproveitar o resto do sol enquanto fosse de tarde, para me aquecer durante a leitura de alguns poemas de Yeats dos livros que Sena me entregara para melhor compreender o protagonista do trabalho agora em curso. Escolhi para aprofundar o meu conhecimento da poesia de Yeats um dos seus mais famosos poemas do início de carreira. Intitulava-se "A Ilha do Lago de Innisfree" e fazia parte dos que publicara em 1893 no livro A Rosa.

Confesso que, apesar de apreciar o género literário, não sou grande leitor de poesia. Não sei se me falta alguma sensibilidade para ler a inteireza dos versos ou se me escapa a profundidade dos sentimentos? Desconheço o que me acontece enquanto estou em frente às linhas da poesia e porque passo tão rapidamente as páginas desses livros, já por si habitualmente pouco espessos. Até porque, quando era mais novo, também escrevera alguns poemas e esforçara-me para que tivessem sentido, como que nascidos de uma alma no estado mais puro possível. Só que não sendo capaz de atingir esse grau de pureza tão necessário à expressão do que sentia, acabei por procurar outras formas de confissão humana. E, não tendo sido capaz de criar mais do que umas poucas dezenas de poemas, que se podem educadamente definir como bem elaborados, achei que só me restava guardá-los numa pasta e deixá-los adormecer entre as outras recordações da infância e da adolescência.

O poema de Yeats era direto: "Sim, partirei já, partirei para Innisfree, / E aí uma pequena cabana edificarei, uma cabana de argila e canas: / Plantarei nove renques de feijão e haverá uma colmeia, / E solitário entre o rumor das abelhas viverei." Confrontado com as minhas anteriores experiências poéticas, perguntei a mim mesmo se não seria capaz de escrever algo semelhante? A auto-repreensão veio em poucos segundos, justificando o deslize com a desculpa de que é fácil criticar os outros e difícil ter o seu sucesso. Afinal, mesmo que Yeats estivesse mais ou menos com a minha idade quando escrevera o poema e publicado o livro, eu só realizara a primeira destas situações - e nem fora capaz de aceitar o resultado como bom -, coisa que o irlandês conseguira e que repetira tantas vezes até que recebera o Prémio Nobel.

Como o livro era bilingue, decidi ler a versão original para confirmar se era mais profundo ou se apenas continuava a rasar a minha insensibilidade, sem fazer qualquer corte nesta pele dura e incapaz de provocar a gota de sangue ou de dor merecida. Fui à quinta linha e li: "And I shall have some peace there, for peace comes dropping slow, / Dropping from the veils of the morning to where the cricket sings; / There midnight"s all a glimmer, and noon a purple glow, / And evening full of the linnet"s wings." Interrompi a leitura porque o último raio de sol desapareceu no horizonte e fiquei com frio.

Reabrir o livro de Yeats que continuava sem sobrecapa foi o procedimento habitual de Sena nos dias que seguiram. Ultrapassada a fase da cronologia, começara a ditar um relato onde as personagens eram as que estavam nesse livro. A primeira era o poeta Ezra Pound, de quem Yeats referia que produzia uma arte que estava nos antípodas da sua e na qual elogiava o que para si era mais condenável. Sena escolhera, para refazer à sua maneira, um texto em que o irlandês descrevia um encontro com Pound: Passámos esta última hora sentados no terraço que é também um jardim, a discutir esse imenso poema...

- O que Ezra Pound estava a escrever!

... de que ainda só foram publicados vinte e sete cantos...

- Que Ezra Pound pretendia que tivesse uma estrutura semelhante a uma fuga de Bach!

... onde não haverá enredo, nem crónica de acontecimentos, nem lógica de discurso, mas sim dois temas, a Descida ao Hades segundo Homero, uma Metamorfose segundo Ovídio e, entretecidas neles, personagens históricas medievais ou modernas...

- Que tivesse uma estrutura do género matemático!

... em que a associação onírica de palavras e imagens resulte num poema de que nada possa ser retirado e analisado, no qual nada haja que não faça parte do próprio poema...

- O Yeats contava que ia passear com o Pound e que este levava os bolsos cheios de comida para dar aos gatos da rua. Conhecia bem cada bicho que encontrava durante o passeio e diferenciava-os sem dificuldade, mesmo que fosse de noite - quando todos os gatos são pardos, não é? - como era o caso de um, que pertencia ao dono de um hotel e não aceitava o que os restantes comiam com sofreguidão.

Sena esquecera-se do que estávamos a fazer e divergira para as histórias sobre gatos, como prenúncio do fim da manhã de trabalho.

- O Yeats achava que Pound não gostava dos gatos em geral, mesmo se mantivesse aquela sua atitude de matar a fome aos bichos durante os passeios que ambos davam após o jantar. Até o acusava de privilegiar uns em desfavor dos outros.

Com o passar dos dias, cada vez mais e novas personagens iam desfilando, apanhadas nos raciocínios que Sena me ditava. Não existia, no entanto, um método científico para a sua investigação, antes ia somando informações que encontrava em Uma Visão para achar as pistas que Yeats deixara na sua obra para os que no futuro tivessem interesse em as encontrar. Sena descobria-as, ditava frases e codificava essas informações por uma segunda vez. O método de trabalho alterara-se em relação ao que fizera com o poeta Pessoa e essa situação parecia desagradar-lhe, por muito esotérico que se achasse perante mim ou fosse por absoluta exigência do tema que envolviam estas suas pesquisas.

Reparava nessa irritação ao vê-lo folhear o livro de capa branca para a frente e para trás, amarrotando-o um pouco mais a cada dia. Sentia que estava a perder tempo com Yeats, apesar de o poeta ser fundamental para o trabalho que pretendia executar através de mim. É certo que ainda não fora totalmente explícito no objetivo para que me usava mas, pouco a pouco, eu gostava de pensar que ia entender o que de mim se esperava. Bastava-me ser paciente e observador como Newton que a maçã haveria de cair e descobrir-se a explicação para a gravidade.

Pensava que a mim, que era um mero reprodutor de frases para o papel, seria suficiente a esperteza popular - onde não eram precisos pressupostos filosóficos - para encontrar em breve a verdadeira razão de ser da minha presença no Freixo. Enquanto isso, assistia impassível a este frenesi de Sena e divertia-me com as frases que mandava reproduzir sobre as novas personagens:

- pensemos em Verlaine oscilando entre a igreja e o bordel;

- Napoleão vê-se a si próprio como um Alexandre;

- Anatole France afirma que Flaubert não era inteligente;

- Rembrandt descobrirá o seu Cristo através da curiosidade anatómica;

- Hegel identifica a Ásia com a Natureza;

- César e Jesus estão sempre frente a frente na nossa imaginação:

- Anaximandro considerava existirem dois infinitos;

- Tolstói, na Guerra e Paz, ainda tinha preferências.

Platão também mereceu uma citação, a maior e mais cabalística:

- Há na República de Platão certos números, certos cálculos obscuros cujo propósito é sugerir e ocultar os métodos adotados pelos filósofos governantes para assegurar que os pais certos geram os filhos certos, e prevê-se que quando esses números e cálculos forem esquecidos a República decairá.

Refletir sobre estas frases poderia ter sido um bom soporífero para adormecer nessa noite, mas preferi esquecer os desvarios da manhã de trabalho. Até cheguei a pensar que estava com saudades do protagonismo de a Besta nas primeiras semanas, devido à sua relação pouco honesta com Fernando Pessoa. Talvez devesse ter pensado mais cedo nessa personagem pois, ao entrar no escritório, o nome dela foi a primeira a ser proferida por Sena, com um sorriso trocista e um pouco alarve até.

- A Besta, vamos voltar a ele!

Ainda me perguntei se o meu anfitrião seria capaz de ler os meus pensamentos. Rapidamente vi que não, bastou-me reparar no risco grosso que sublinhava o nome verdadeiro de a Besta numa das folhas do livro de capa branca que estava pousado sobre a secretária. Na página 267 destacava-se, por via de um traço sob a palavra, o apelido da Besta, naquela que seria a única inscrição em Uma Visão do nome do autor que transmitira vários ensinamentos ao poeta irlandês por altura do conhecimento mútuo.

- Yeats deu os seus primeiros passos no mundo dos magos quando se intrometeu nas reuniões da Ordem Teosófica. Depois, avançou na busca de conhecimentos e foi numa outra ordem que os encontrou, a Ordem Hermética da Aurora Dourada. Durante vinte e oito anos andou por lá e, quando se casou em 1917, o desânimo com essa relação conjugal fê-lo procurar os efeitos da magia no corpo humano. Há quem diga que a poesia foi o escape para Yeats superar a frustração do casamento e a ausência de grande prazer físico, situação que já tinha vivenciado com outra musa anterior, uma mulher que também se dedicava às artes do oculto. Esta recusara as insistentes declarações de amor do poeta e preferira casar-se com um militar. A partir desse momento, nenhum dos dois foi feliz, nem quando o militar morreu e Yeats achou que poderia sonhar com um reencontro.

Sena parou de ditar e fez uma confidência que eu não esperava ouvir de si.

- Esta musa era tão endiabrada que, tendo tido uma filha desse casamento fracassado, ao ver a menina morrer cedo decidiu engravidar novamente. Seduziu o marido, de quem já estava separada, durante o velório da filha e, dentro da própria igreja, obrigou-o a manter as relações sexuais que, por sorte, a fecundaram e lhe deram uma segunda maternidade. A Besta, a quem nada escapava, teve conhecimento desta história macabra e usou-a como argumento para um romance que escreveu em seguida, com o título Moonchild.

O relato de Sena foi interrompido pelo chamamento da empregada para o almoço. O meu anfitrião convidou-me para a refeição e eu aceitei o convite com a intenção de saber mais sobre Yeats e, principalmente, tentar conhecer pormenores sobre a viagem à Irlanda que ainda não contara. Por norma, Sena não almoçava na sua mansão. Esta exceção vinha mesmo a calhar porque, pareceu-me, estava em maré de confidências. Decerto que a ligação entre o poeta irlandês e a Besta não eram muito do seu agrado e daí estes desabafos inesperados. A forma que encontrei para introduzir o assunto foi pregar-lhe uma rasteira, perguntando-lhe se tinha ido a Roquebrune visitar a campa de Yeats, que eu sabia ter sido trasladada para Sligo posteriormente.

- Yeats repousa em Sligo, numa campa discreta onde só uma lápide em mármore cinzento confirma que é aí o lugar do seu eterno descanso.

A resposta de Sena confirmou que a minha artimanha não estava a funcionar.

- Descreverei essa minha visita no que lhe vou ditar amanhã. Tenha um pouco de paciência e, agora, aproveite para saborear este bolo delicioso.

Caiu o silêncio entre nós e o único ruído que lhe ouvi foi o de sorver o chá de forma um pouco ofegante, como se precisasse de queimar as entranhas.

"William Butler Yeats teve, se assim se pode dizer, dez anos depois de ter sido sepultado em Sligo, uma boa notícia: a fundação de uma instituição cujos estatutos previam homenagear a sua memória e difundir o conhecimento da sua obra. É fácil descobrir o edifício que abriga o Memorial Yeats porque está construído no centro da localidade e é bastante digno na sua arquitetura; forrado com tijolos outrora vermelhos, que o tempo escureceu e situado bem perto do rio Garavogue. Há sempre uma exposição sobre Yeats e os interessados podem participar em muitos dos cursos que aí se realizam, bem como consultar a biblioteca e fazer as investigações que desejarem sobre o poeta. Mas não era isso que eu pretendia, até porque os funcionários não vão para além das repostas triviais e dentro dos limites do que a memória do celebrado exige. Dificilmente alguém responderá a uma pergunta sobre a relação entre Yeats e a Besta, só se a fizermos a um irlandês indiscreto que queira beber uma cerveja à nossa conta. Por isso, o que fiz foi dirigir-me à região onde teve início a conquista normanda da Irlanda, zona onde os invasores construíram uma série de torres de defesa contra os celtas que teimavam em recuperar o terreno perdido. Yeats comprou uma destas construções, a Torre Ballylee, também conhecida como Castelo Ballylee, onde fez grandes obras de restauração apesar de nunca as ter conseguido acabar como era o seu plano, nem habitar a residência como era o seu desejo. Durante três anos insistiu na recuperação da Torre e fixou a data do equinócio de 21 de setembro de 1918 como o limite para o fim das obras, altura em que se deveria realizar o primeiro ritual de magia, dos vários que se tiveram lugar na propriedade. Se Yeats registou o fracasso da sessão no diário reservado aos relatos de atividades mágicas, houve alguém que decidiu transformar o facto numa história bastante romanceada. Fora a Besta, devido à animosidade que mantinha com o poeta por causa da rivalidade entre ambos por um papel na Ordem Hermética, que fixou para sempre o fracasso da sessão ao sugerir a morte de um participante, que se despenharia do telhado do castelo. Publicou essa invenção no seu livro Equinox, num capítulo intitulado "Os crápulas meus contemporâneos", páginas onde criticava Yeats abertamente e deitava por terra a sua poesia. O certo é que Yeats ganhou o Nobel, mesmo que a Besta o tenha superado em todas as atividades do ocultismo. O que se passou na Torre é prova disso, mesmo que agora ninguém queira falar muito sobre o assunto, o que torna uma viagem à Irlanda para apurar esses acontecimentos uma frustração."

Foi este o relato de Sena sobre a sua viagem à terra de Yeats.

Li mais umas páginas do livro de capa branca de Yeats e alguns poemas que me despertaram a atenção após o relato de Sena sobre a expedição irlandesa...

A prosa: "Certos espiritistas de Londres guarnecem, de há alguns anos a esta parte, uma Árvore de Natal com presentes, cada qual com o nome de uma criança morta".

O poema: "Eu, o poeta William Yeats, / Com velhas tábuas de moinho e lousas verde-mar, / E ferro forjado na forja de Gort, / Restaurei esta torre para a minha esposa George; / Possam estes sinais permanecer / Quando tudo for ruínas outra vez.

... até que Sena chegou, de rosto sério, desejoso de avançar no trabalho.

- Este Yeats cada vez me interessa menos. Ele não se deixou enganar tão credulamente pela Besta como muitos outros e, por isso, temos de encerrar o seu capítulo o mais rápido possível para podermos avançar naquilo que realmente é preciso.

O meu anfitrião estava nervoso. A ida à Irlanda não o tinha ajudado na sua investigação e queria fechar depressa o relato sobre este poeta que fora ludibriado pela Besta. Como os acontecimentos que envolveram Yeats e a Besta já tinham mais de um século de existência, encontrara muito pouca documentação sobre a relação. Sabia-se que se tinham conhecido na Ordem Hermética em 1899, onde o poeta fizera questão de não valorizar a Besta. Este, como paga, escrevera nas suas notas que o que mais magoara Yeats era o facto de "ter consciência da sua incomparável inferioridade no que respeita aos conhecimentos". Uma cisão na Ordem acabara por colocá-los em fações opostas, seguindo-se um processo que envolvera pragas, feitiços e ameaças físicas. A Besta não desanimou e oito anos mais tarde anunciou a criação de um novo movimento, a Ordem da Estrela de Prata, após um intervalo de tempo em que parecia ter desistido da magia. Nesse entretanto, fez uma escalada a um dos picos dos Himalaias, que não foi totalmente conseguida. No meio destas diatribes todas, a Besta proclamou-se como a reencarnação de um ocultista que falecera no ano em que tinha nascido, após ter sido noutras vidas o fundador do Rito Maçom Egípcio, um Papa e um vidente. Da relação com Yeats, nada mais ficara para a história a não serem especulações nessas memórias.

E Sena desistiu de continuar a ditar frases sobre a Besta no dia seguinte. Informou-me que ainda teria uns apontamentos finais para eu escrever - seria coisa de uma hora. Era só para ficarem registados porque poderiam vir a ter algum interesse após a investigação sobre o próximo escritor que também fora preso nas malhas das maquinações de a Besta. Ainda lhe perguntei quem era, mas não referiu o nome do próximo protagonista.

- Prefiro que seja uma surpresa!

E saiu porta fora, depois de termos almoçado mais uma vez.

Durante a refeição, perguntara se eu tinha roupas que aguentassem mais frio pois no destino que nos aguardava as temperaturas estavam muito baixas e a última coisa que desejava era que eu ficasse doente e sem poder trabalhar. Talvez para fazer conversa, questionou como é que tinham decorrido as minhas visitas aos moradores do Freixo. Contei-lhe, parcialmente, as minhas impressões, às quais ele acrescentou alguns comentários antes de dar a última garfada no prato confecionado pela empregada. Ainda comeu uma pera mergulhada em vinho e fez mais um comentário sobre as residências que eu ainda não visitara:

- Está a perder uma oportunidade única de conhecer pessoas muito interessantes.

Sena, enquanto passava o guardanapo sobre a boca, ainda sugeriu que eu aproveitasse a tarde para visitar mais alguns moradores da terra e comunicou-me que já escrevera mais umas cartas de apresentação que, com certeza, me abririam as portas.

- Se fosse a si, em vez de ficar a perder tempo aqui em casa, ia passear.

Enquanto saboreava a pera embebida em vinho tinto que me calhou ainda ponderei fazer uma caminhada até uma das casas, mas a preguiça dominou-me e considerei que o melhor a fazer era instalar-me no gazebo e dormitar um pouco. Se ainda fosse dia, quando acordasse, talvez me pusesse ao caminho. Antes de atravessar o jardim até ao pavilhão, passei pelo escritório de Sena para ver que cartas de apresentação me deixara. Havia duas, com o endereço dos palacetes onde habitavam os outros dois moradores da mesma condição social que Sena.

Yeats voltou pela última vez ao nosso convívio três dias depois. Entretanto, toda a população do Freixo esteve com o pensamento num evento que para mim era inesperado mas que para eles não. Uma trupe de artistas de circo chegou à terra para fazer um conjunto de representações que lhe tinham sido encomendadas. Não havia público suficiente para encher o teatro caseiro que existia num dos palacetes - que aproveitei para visitar -, mas as sessões verificaram-se na mesma. Alguém colocara manequins como se pessoas fossem na maior parte das cadeiras e a sala ficara com um ar composto, pelo menos o suficiente para que os artistas não desanimassem. A representação era a mesma ao longo do trio de sessões mas os espectadores, também sempre os mesmos, não ficaram incomodados por esse facto. Pelo contrário, à segunda vez já se riam por antecipação das graças dos palhaços ou enervavam-se com os saltos mortais dos trapezistas. Sena tinha um camarote privilegiado, um dos três individuais que existiam na sala, de onde observava os espetáculos e parecia partilhar da felicidade dos restantes habitantes.

Quando voltámos a trabalhar, ditou-me uma confissão do poeta sobre uma atividade da sua mulher que, dizia na introdução a Uma Visão, aperfeiçoara em muito a sua própria escrita poética: Na tarde de 24 de outubro de 1917, quatro dias depois do meu casamento, a minha mulher surpreendeu-me ao fazer uma tentativa de escrita automática. O que lhe saiu das mãos, em frases desconexas de uma caligrafia quase ilegível, era tão promissor, às vezes tão profundo, que a convenci a consagrar todos os dias uma ou duas horas ao escritor desconhecido. Após uma meia dúzia dessas horas ofereci-me para gastar o resto da minha vida a explicar e conjugar entre si essas frases soltas.

Foi após ditar estas frases que Sena disse o seguinte:

- É mais ou menos isto que eu e você estamos a fazer.

O remoque de Sena não me preocupou por aí além, pelo contrário, deu-me finalmente uma pista sobre o método de trabalho que o meu anfitrião escolhera para me dar a ganhar a vida. O pior aconteceu quando fui ler o resto da introdução, é que Yeats contabilizara cinquenta cadernos transmitidos pela mulher nesta situação de escrita automática. Pior ainda fiquei quando entendi que uma parte destes cadernos foram escritos por Yeats, sentado ao lado da mulher, enquanto ela dormia e os comunicava em voz alta. Esperar-me-ia alguma coisa deste género?

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