A segunda vida de Fernando Pessoa: Segundo suicídio na Boca do Inferno

E se Fernando Pessoa regressasse ao presente sob o heterónimo Vicente Guedes, aquele que foi preterido como autor do Livro do Desassossego para Bernardo Soares? Um romance inédito de João Céu e Silva que o DN está a publicar em 12 capítulos.

75 anos após a morte de Fernando Pessoa aparece um homem em tudo igual ao poeta na esplanada do Martinho da Arcada. Chama-se agora Vicente Guedes, um dos heterónimos do poeta, quer voltar a viver na sua antiga morada, onde agora está a Casa Fernando Pessoa, e assume-se como o seu herdeiro literário. Alguém o está a ensinar a ser Pessoa, recuperando os ensinamentos do poeta W.B. Yeats, de Ian Fleming e Somerset Maugham, três autores enganados pelo mago Aleister Crowley. Vicente Guedes sai do Freixo, com a incumbência de comprar certas peças no leilão do espólio deixado por Fernando Pessoa, mas é no arquivo do Diário do Notícias que existe na cave do edifício onde encontra a explicação para o suicídio de Aleister Crowley na Boca do Inferno.

Uma 'arca' com espólio de Fernando Pessoa no arquivo do Diário de Notícias

A fórmula que encontrei para interromper a invasão do vazio foi cumprir à minha maneira e até ao fim o contrato entretanto rescindido com Sena. Procurei uma forma que pudesse dar-me essa sensação de continuar ainda a trabalhar na investigação durante as semanas que faltavam e, no dia seguinte, já decidira o que fazer para expulsar o vazio. Iria ao arquivo do jornal que noticiara o suicídio de a Besta na Boca do Inferno ler as edições dessa época e saber como tudo acontecera com mais pormenores.

Não foi difícil conseguir autorização para consultar as notícias que desejava ver nas edições antigas do jornal, designadamente nos exemplares que noticiavam o desaparecimento de a Besta na Boca do Inferno. Esta parte da investigação era a que me despertava mais curiosidade por considerar ser uma peça fundamental para compreender o caso, apesar da pouca importância que o meu anfitrião lhe dera. O meu trabalho foi simplificado com a atenção que o responsável pelo arquivo do jornal me deu logo que soube do tema que me interessava, porque também o estudara em tempos e até tinha criado uma pasta especial com vários documentos sobre o assunto. Mas, principalmente, foi o facto de me ter apresentado a um descendente do jornalista que escrevera as notícias do desaparecimento de a Besta na Boca do Inferno que tornou a minha visita aos arquivos mais interessante e esclarecedora.

Após a primeira conversa com o descendente do jornalista Ferreira Gomes, este ofereceu-se para me guiar no mistério em que o seu antepassado se intrometera em alegado conluio com o poeta para mascarar o desaparecimento fictício de a Besta. Também ele tinha uma pasta especial sobre o assunto que me prometeu facultar no dia seguinte, visto que a tinha guardado em sua casa. No entanto, não deixou de aguçar a minha curiosidade ao revelar a existência de um arquivo onde estariam várias cartas de Pessoa que, disse, me poderiam abrir os olhos para a sua personalidade e capacidade de elaborar situações pouco condizentes com a realidade. Antes mesmo de ver os documentos que o descendente me queria mostrar, perguntei-lhe se punha em dúvida o que se passara, bem como se considerava sem crédito o trabalho de investigação do seu antepassado. Não respondeu de forma afirmativa ou negativa, antes referiu que já perdera muito tempo com esse assunto e, por razões de ordem familiar, não conseguira obter uma resposta suficientemente clara. Interroguei-o, então, diretamente sobre a sua opinião, mas a resposta continuou dúbia. Preferiu apontar-me a leitura dessa correspondência do poeta como trabalho preparatório à leitura dos recortes que me traria no dia seguinte.

Rapidamente entendi que não estava disposto a conversar sobre o tema, mas mesmo assim tentei fazê-lo falar um pouco mais sobre o assunto. Para isso, convidei-o a acompanhar-me até a um café nas redondezas, desculpando-me com a necessidade de comer alguma coisa. Disse-lhe que tinha vindo para o jornal sem tomar o pequeno-almoço, porque não acordara com o despertador e tinha hora marcada com o responsável do arquivo. Ao pronunciar estas palavras, entendi que o descendente se surpreendeu com o caminho que a conversa tomava, o que me fez perguntar se ele via algum problema em ter contactado o responsável do arquivo. A resposta não se ouviu, antes compreendi que desviava o tema da conversa. Mais uma vez senti que existia uma barreira em torno desta investigação que iniciava por minha conta, a exemplo de outros entraves que observara enquanto trabalhava sob as ordens diretas de Sena. No entanto, aceitou o meu convite e fez-me companhia durante uma meia hora. Mesmo que o assunto da conversa tenha sido outro que não o que eu desejava, à despedida senti que teria feito uma descoberta que poderia dar-me a resposta que procurava.

O descendente já trabalhava no jornal há uns bons anos e era um profundo conhecedor do arquivo. Confessou que passara muitas horas do seu emprego na cave onde se guardavam os documentos mais antigos e que a dimensão do arquivo era muito maior do que aquela que era visitável. Questionei-o sobre o significado dessa afirmação mas, mais uma vez, o descendente rumou noutro sentido. Fiquei com a sensação de que um dia destes ele iria mostrar-me a razão de ser das suas palavras e esclarecer o seu significado, até porque me parecia uma pessoa sensata, pouco dada a elucubrações sobre mistérios ou dono de uma personalidade gabarola. De qualquer modo saí deste pequeno-almoço tardio consciente de que tinha encontrado alguém que, pela primeira vez em todo o trabalho com o meu anfitrião, poderia fornecer explicações honestas e fazer-me acreditar que não estava a mergulhar nos logros habituais.

Senti-o porque o descendente fazia questão de ser sucinto e claro nos seus argumentos, utilizando sempre atalhos na conversa que pretendiam evitar os caminhos mais longos, aqueles onde a imaginação fazia nascer opções menos concretas. Para ele, compreendi-o no decurso dos nossos encontros seguintes, o que se passara naquele ano de 1930 entre o seu antepassado e o poeta Pessoa fora algo que ficara por deslindar. Não era o único que o tentara mas, afirmou-o com um ar bastante carrancudo, fora ele apenas quem tentara encarar os factos sem embarcar nos duplos sentidos que acabavam sempre por se apresentar a quem tratava do assunto da Boca do Inferno.

Quanto à questão da "dimensão do arquivo", o descendente não quis fazer muitos mais comentários. Preferiu avisar-me sobre o modo em como o responsável do arquivo iria tentar conduzir-me se continuasse interessado no assunto. A palavra que usou em relação ao seu colega de jornal era "manipular", acrescentando que não era a primeira vez que tal acontecia. Para me convencer das suas dúvidas sobre a pessoa em causa, referiu que desde o tempo em que o responsável fora contratado, a maior parte dos documentos sobre o caso deixaram de estar disponíveis para consulta e, por outro lado, surgiram mais notícias do que nunca em diversos jornais e revistas. O objetivo, sugeriu, era mais o de criar uma cortina de fumo em relação ao mistério da Boca do Inferno do que esclarecê-lo através da publicação de novos artigos. Quanto ao porquê dessa atitude, que foi a minha pergunta, o descendente nada quis dizer. "Não diga depois que eu não o alertei", foi só o que avisou antes de nos despedirmos.

A pasta especial que o responsável do arquivo me queria disponibilizar já estava sobre a mesa que me fora destinada quando cheguei no dia seguinte às instalações do jornal. O responsável estava ausente, segundo informou a funcionária que me levou até à cave e indicou o lugar onde deveria sentar-me. Acrescentou que o seu chefe lhe transmitira que eu começaria pela leitura da pasta e que tinha ordens para trazer, quando eu desejasse, os jornais da época. Educadamente perguntou se queria que fosse assim ou pretendia que os jornais fossem trazidos imediatamente. Respondi-lhe que manteríamos o programa sugerido e que, após o intervalo que pensava fazer para almoço, iniciaria a consulta dos jornais.

Deu meia volta e desapareceu, deixando-me só na cave. Assim fiquei durante as horas que se seguiram, apaixonado pelo que estava a ler e, ao mesmo tempo, impressionado com o aspeto soturno da divisão onde me encontrava. Estava de frente para uma parede que já fora branca e de costas para uma longa fila de estantes, onde se enfileiravam milhares de jornais encadernados por semestres. Pelo menos essa era a visão que eu tinha do que estava imediatamente por trás de mim, já que o que exatamente se encontraria após as primeiras filas de prateleiras era-me desconhecido. A funcionária só tinha deixado acesas as lâmpadas do espaço onde eu me encontrava, tendo ficado o restante espaço em total escuridão. Tive vontade de descobrir o que estaria lá para o fundo mas achei que se fosse apanhado a satisfazer a minha curiosidade logo no primeiro dia poderia ser proibido de voltar à cave. Ainda dei alguns passos pelo corredor onde se iniciavam as estantes, mas a escuridão era tanta que preferi regressar à salinha onde me tinham colocado. De qualquer modo, estava certo de que as prateleiras não poderiam estar apenas preenchidas por coleções de jornais, mesmo sendo o jornal uma publicação mais do que centenária. Fiz as contas mentalmente e, somado o número de edições - tendo em conta o volume que estava a consultar -, o espaço da cave parecia-me demasiado grande para conter apenas o que observava atrás das minhas costas. Decerto, existiriam outros documentos ali arquivados, muitas folhas de papel contendo anotações, fotografias e tudo o mais que um jornal tão antigo acumularia ao fim de décadas de existência.

Passei a manhã às voltas com a pasta especial. O que mais me chamou a atenção foi um artigo de um jornal chamado Girassol - estranho nome! - onde se relatava o desaparecimento de a Besta e o envolvimento do poeta na questão da Boca do Inferno. Datava de Novembro de 1930, tinha o título especulativo "A Besta foi assassinada" e fazia a súmula dos acontecimentos assim: "Deve estar ainda na memória de todos, porque foi largamente tratado no Diário de Notícias, e ainda mais largamente, com ampla reportagem fotográfica, no Notícias Ilustrado, o estranho caso do desaparecimento em Portugal do poeta, ocultista e "homem de mistério" inglês, que se sumiu por completo, deixando na Boca do Inferno, onde foi achada em 25 de Setembro, uma carta em linguagem misteriosa, de onde parecia depreender-se um suicídio.

Mais tarde surgiu, não entre o grande público, mas nos meios restritíssimos dos cafés, a hipótese de uma "blague", cuja base parece ter sido apenas a circunstância insuficiente de o achador da carta ser jornalista e amigo pessoal de Fernando Pessoa, o indivíduo que mais lidara com a Besta aqui em Portugal. Se o suicídio nunca deveras se provou (só o aparecimento do cadáver, como bem pensou a nossa Polícia, o poderia provar), também ninguém pôde provar que houvesse "blague". E o caso, em boa verdade, ficou sempre misterioso.

Começou agora a saber-se, ou a constar, mais coisas, vindas de fora de Portugal, e o caso, que parecia em princípio não ter outra explicação senão um suicídio ou uma "blague", tende a assumir aspetos acentuadamente mais sinistros. Há já tempo que se sabe, por exemplo, que logo que constou no estrangeiro o desaparecimento de a Besta, um agente da polícia inglesa apareceu na redação do Détective, de Paris, a comprar um exemplar de um número de Maio de 1929, onde vinha um extenso artigo sobre a Besta e sobre a sua atividade de espionagem (nunca se soube bem a favor de quem), durante a Grande Guerra. E o que é certo é que o Détective, logo que soube que estava em Paris o sr. Ferreira Gomes, achador da carta na Boca do Inferno, se apressou a entrevistá-lo dedicando uma boa parte do seu número de 30 de Outubro a um extenso relato do acontecimento.

Agora constou em Lisboa, sem dúvida por uma daquelas inconfidências que seguem, como sombras, o passo de todos os segredos, que a polícia inglesa tinha chegado à conclusão de que a Besta havia sido assassinada."

Ao ler esta entrevista entendi o perigo das más interpretações para que o descendente de Ferreira Gomes me tinha alertado. Se bem que fosse uma peça jornalística que parecia fidedigna, até porque tinha no cabeçalho a indicação de que fazia parte do espólio do poeta à guarda da Casa Fernando Pessoa, o seu conteúdo era pouco factual e poderia fazer parte de uma brincadeira. Continuei a ler a notícia: "Ora nós sabíamos que tinha sido o sr. Fernando Pessoa quem tinha estado em contacto mais constante com a Besta, aquando da estada dele em Portugal, e sabíamos também por lho termos ouvido contar que estava em contacto com entidades estrangeiras, amigos e conhecidos de a Besta, que se lhe dirigiram, pedindo informações logo que o desaparecimento constou nos jornais lá de fora. Concluímos, portanto, que, se alguém soubesse alguma coisa do assunto, seria o antigo director do "Orpheu". E, sem medo de "blagues" a ele nos dirigimos.

- Não - diz-nos Fernando Pessoa - não há o que v. chama "notícias" de a Besta."

- E v. sabe alguma coisa das conclusões a que chegaram esses investigadores?

- De oficial, nada; nem tenho, exceto por dedução, a certeza da existência dele, que aliás relaciono com essa história do outro agente oficial que visitou o Détective em Paris. Do "professor de línguas" não só tenho a certeza visual e lógica, mas consegui saber, por favor especial, três resultados das suas investigações. Sei que ele conseguiu "levar a sua investigação a bom fim", ou que, pelo menos, supõe que o fez; sei que nem admite a hipótese do suicídio nem a hipótese da "blague"; e sei que, desde o primeiro dia da investigação, me "riscou do caso", com o fundamento, que me deixa perplexo, de que entre a Besta e os jornais havia um elemento de ligação "muito mais íntimo e valioso" do que eu.

- Mas uma coisa que não é suicídio nem "blague", o que é que pode ser senão um assassinato?

- É, com efeito, o que ocorre; e é por isso que eu lhe disse que, embora sejam novos para mim, não me espantam os boatos sinistros que v. me contou. Posso admitir que quisessem assassinar a Besta, mas admiti-lo-ia com mais facilidade se pudesse compreender que um indivíduo, antes de ser assassinado, se desse ao trabalho de escrever uma carta (incontestavelmente autentica), dizendo que se suicidava. É ser boa vítima demais..."

Entendi que o poeta era hábil nas respostas e que o artigo continha todos os ingredientes que à época faria as delícias dos leitores, mesmo que a Besta não fosse uma personalidade assim tão conhecida no país que escolhera para representar mais um ato da sua vida espetacular. Regressei à leitura: "De repente, Fernando Pessoa sorri, leva a mão à carteira, e tira dela um recorte de jornal.

- Olhe, já que fala de assassínio, vou-lhe ler um documento curioso. Isto é um recorte do diário inglês Oxford Mail, de 15 de Outubro; é de notar que a Besta era muito conhecido e admirado em Oxford, embora seja Cambridge a sua universidade. O título do artigo é "A Besta assassinado", "Revelações Espíritas a um Médium de Londres", "Empurrado dos Rochedos Abaixo". É um telegrama ou telefonema de Londres, do correspondente do jornal. É do próprio dia, e diz assim: "Num quarto pequeno e mal iluminado em Bloomsbury, a noite passada, o sr. A. V. Peters, médium londrino, entrou em transe para se obterem algumas indicações sobre o paradeiro de a Besta, escritor e mago. De a Besta, cuja projectada conferência sobre "Um Mago Medieval" fora proibida em Oxford, em Fevereiro, não tem havido notícias desde que uma carta dele se encontrou nos rochedos chamados Boca do Inferno, a 23 milhas de Lisboa, há quinze dias.

O sr. Peters declarou que, durante o transe, lhe tinha sido indicado que a Besta estava morta, e que "tinha sido empurrado dos rochedos abaixo por um agente da Igreja Católica Romana". "Os católicos já anteriormente tinham atentado contra a vida de a Besta", disse o sr. Peters, "e ele estava à espera de ser atacado". Descreveu o lugar como sendo "redondo" como "uma cratera de vulcão", e o sr. Peters acrescentou que "era nas montanhas, ao pé de água". Grande parte da sessão foi ocupada em obter detalhes pessoais sobre o aspeto, ocupações e saúde de a Besta, "para fins de verificação".

- E o que se conclui disso? - perguntámos.

- Que eu saiba, nada. Pessoalmente, nada tenho contra nem a favor das visões desta ordem. Mas é curioso, não é, depois dos boatos que me trouxe e das conclusões a que ninguém chegou?"

Enquanto lia o texto pensava nas folhas que o descendente pedira para eu ler antes de - foram estas as suas palavras - "ser intoxicado por contra-informação". O que me chamou à atenção foram as palavras médium e transe. Tratava-se de uma carta de Pessoa à sua tia Anica, onde o poeta revelava as suas capacidades de vidente num parágrafo confessional: "Vamos agora ao caso misterioso que a interessa e que a tia Anica diz não poder calcular o que seja. Sim, não calcula, decerto eu próprio é o que menos esperaria. O facto é o seguinte. Aí por fins de Março (se não me engano) comecei a ser médium. Imagine! Eu, que (como deve recordar-se) era um elemento atrasador nas sessões semiespíritas que fazíamos, comecei, de repente, com a escrita automática. Estava uma vez em casa, de noite, tendo vindo da Brasileira, quando senti a vontade de, literalmente, pegar numa caneta e pô-la sobre o papel. É claro que depois é que dei por o facto de que tinha sido esse impulso. No momento, não reparei no facto, tomei-o como o facto, natural em quem está distraído, de pegar numa pena para fazer rabiscos. Nessa primeira sessão comecei por a assinatura (bem conhecida de mim) «Manuel Gualdino da Cunha». Eu nem de longe estava pensando no tio Cunha. Depois escrevi mais umas cousas, sem relevo, nem interesse nem importância.

De vez em quando, umas vezes voluntariamente, outras obrigado, escrevo. Mas raras vezes são «comunicações» compreensíveis. Certas frases percebem-se. E há sobretudo uma cousa curiosíssima - uma tendência irritante para me responder a perguntas com números; assim como há a tendência para desenhar. Não são desenhos de cousas, mas de sinais cabalísticos e maçónicos, símbolos do ocultismo e cousas assim que me perturbam um pouco. Não é nada que se pareça com a escrita automática da Tia Anica ou da Maria - uma narrativa, uma série de respostas em linguagem coerente. É assim mais imperfeito, mas muito mais misterioso.

Mando-lhe, junta, uma amostra simples, que não é preciso devolver-me. Nesta há números e rabiscos, mas quase que não há desenhos. É o que tenho aqui à mão. É para verem como é o aspeto das minhas comunicações.

É singular que, apesar de eu não perceber nada de tais números, consultei um amigo meu, ocultista e magnetizador (uma criatura muito curiosa e interessante, além de ser um excelente amigo) e ele disse-me cousas singulares. Explicou-me que esse facto de eu escrever números era prova da autenticidade da minha escrita automática - isto é, de que não era autossugestão, mas mediunidade legítima. Os espíritos - diz ele - fazem essas comunicações para dar essa garantia; e essas comunicações são, por isso mesmo, incompreensíveis ao médium, e de ordem que mesmo o inconsciente dele era incapaz de imaginar (?)."

Antes de passar à leitura de mais uma folha que o descendente me forneceu ainda li mais uma parte da carta à tia Anica: "Perguntará a Tia Anica em que é que isto me perturba, e em que é que estes fenómenos - aliás ainda tão rudimentares - me incomodam? Não é o susto. Há mais curiosidade do que susto, ainda que haja às vezes cousas que metem um certo respeito, como quando, várias vezes, olhando para o espelho, a minha cara desaparece e me surge um fácies de homem de barbas, ou um outro qualquer (são quatro, ao todo, os que assim me aparecem).

O que me incomoda um pouco é que eu sei pouco mais ou menos o que isto significa. Não julgue que é a loucura. Não é: dá-se até o facto curioso de, em matéria de equilíbrio mental, eu estar bem como nunca estive. É que tudo isto não é o vulgar desenvolvimento de qualidades de médium. Já sei o bastante das ciências ocultas para reconhecer que estão sendo acordados em mim os sentidos chamados superiores para um fim qualquer que o Mestre desconhecido, que assim me vai iniciando, ao impor-me essa existência superior, me vai dar um sofrimento muito maior do que até aqui tenho tido, e aquele desgosto profundo de tudo que vem com a aquisição destas altas faculdades. Além disso, já o próprio alvorecer dessas faculdades é acompanhado duma misteriosa sensação de isolamento e de abandono que enche de amargura até ao fundo da alma.

Enfim, será o que tiver de ser."

Ao terminar a leitura da carta senti um arrepio de medo e, ao mesmo tempo, ouvi um ruído. Virei-me para trás e observei a escuridão da cave em busca de alguma presença. Olhei e reolhei mas ninguém ou nada me apareceu. Seria apenas um estado sugestão face às parvoíces que estava a ler. Decidi ir almoçar, ver a luz do dia e deixar para trás a dualidade de opiniões contida nas pastas especiais que tanto o responsável do arquivo como o descendente do jornalista Ferreira Gomes me deram. Mas, antes de subir as escadas, ainda folheei a carta que o poeta enviara, a 10 de Junho de 1919, aos psiquiatras franceses Hector e Henry Durville para completar o retrato de Pessoa: "Eu quero desenvolver, tanto quanto possível, o que possa ter de magnetismo pessoal, e quero desenvolvê-lo para dar, se isso for possível, uma direção coordenada exterior à minha vida... Do ponto de vista psiquiátrico, eu sou um histériconeurasténico, mas felizmente a minha neuropsicose é bastante fraca; o elemento neurasténico domina o elemento histérico, e isso faz com que não tenha sintomas histéricos exteriores - nem nenhuma necessidade da mentira, qualquer instabilidade mórbida no meu relacionamento com os outros... Eu não sou um cadáver consciente. Mas a minha vontade de agir é insuficiente..." Estava na hora de ir almoçar e ver a luz do dia.

Correram os dias de duas semanas, ou diria as noites por estar sempre tão escuro na cave, até que consegui analisar toda a documentação que me fora entregue, bem como aquela que descobrira sobre o desaparecimento de a Besta na Boca do Inferno e a participação do poeta. Posso definir estes dias como de uma severa monotonia, aquela que deve fazer companhia aos investigadores de arquivos e bibliotecas. Talvez por essa razão, tendo em conta a minha situação de abandono, não estranhasse que o descendente se divertisse ao chamar-me de rato de biblioteca.

Era isso mesmo que eu fazia, uma vida de rato! E, como um bom rato, não resisti a portar-me mal a partir de uma certa altura. Ou seja, ultrapassar a fronteira do espaço que estava autorizado a ocupar, entrando na escuridão que se encontrava por detrás das minhas costas. Não era apenas por curiosidade, confesso que certas deixas do descendente sobre o que poderia estar escondido para lá dos volumes que guardavam as encadernações de cento e muitos anos de jornal foram a causa principal deste desvio de comportamento. Era verdade o que me dissera, que após as estantes empilhavam-se vários caixotes de todo o tipo de tamanhos. O que conteriam foi a pergunta que se me pôs enquanto queimava as pontas dos dedos com os fósforos que acendia nesta peregrinação proibida. Seria mais fácil se acendesse as luzes, afinal os interruptores estavam mesmo ao lado da secretária onde eu trabalhava, mas não me atrevera a fazê-lo com receio de que algum funcionário do arquivo descobrisse o que estava a acontecer. Entrar no setor proibido foi o desafio que fiz, nada que exigisse muita coragem visto que eu tinha sido abandonado nas catacumbas do edifício e poucas vezes era interrompido no meu trabalho solitário. À exceção de uma visita do responsável do arquivo para saber se estava tudo a correr bem, durante a qual me pareceu fazer sugestões para inquinar a minha investigação, só terei tido companhia rápida por umas três vezes. Nessas alturas, discretamente, eu mapeava a cave para lá das minhas costas e apontava no meu cérebro os caminhos entre as estantes, preparando-me para invadir esse labirinto que mantinham em segredo.

Notava-se que não eram manuseadas há bastante tempo devido à camada de pó que as cobriam, tendo descoberto que a minha curiosidade fizera-me imaginar tesouros que ali não existiam, já que o conteúdo das caixas dizia apenas respeito a temas que já tinham sido notícia. Eram arquivos mortos, alguns muito desorganizados e outros que estavam mais disciplinados e que se via serem de consulta frequente. Mesmo assim passei grande parte dessa manhã a ler os rótulos dos arquivos. Como estavam organizadas por ordem alfabética, ainda me dirigi à letra F do primeiro nome do poeta, bem como à letra P do apelido, para ver se existia alguma caixa que lhe fosse dedicada. Não descobri nenhuma, situação que me fez perguntar como é que o arquivo passava ao lado de uma das maiores figuras da literatura tão despudoradamente? Até porque me cruzei com outros escritores, bem fornecidos de material dentro das caixas em que eram arrumados. Ainda me questionei sobre se todo o material que me fora posto à disposição não seria a totalidade do que existiria sobre o poeta, mas rapidamente pus essa hipótese de parte. Quanto mais não fosse, porque o responsável do arquivo era um interessado em Pessoa! Haveria, com toda a certeza, uma caixa especial para o poeta que, muito provavelmente, estaria fechada a sete chaves na caixa-forte. Descobrir como entrar nesse templo seria o meu próximo passo.

Uma casa-forte deveria ser impenetrável, pensei, mas não era o que se passava com esta. Uma situação que descobri noutra das caminhadas proibidas pelo labirinto de estantes quando ao aproximar-me dela notei que a porta estava entreaberta. Ou o funcionário se esquecera de a encerrar ou, desconfiei, fora deixada assim de propósito... De novo senti nascer em mim a personalidade de um rato de biblioteca, só que desta vez eu era vítima de uma artimanha como a que fazem para caçar esses animais. Quem estivesse interessado na minha intrusão na casa-forte teria deixado a armadilha preparada e a porta aberta era como o bocado de queijo para atrair o rato. Se o bicho não cederia à tentação do cheiro do queijo, eu também não evitaria a tentação, teriam pensado!

Se foi uma situação preparada, quem montou a armadilha deve ter-se sentido satisfeito com o resultado pois não hesitei um segundo em entrar na casa-forte e espiar o seu conteúdo. Mexia-me em silêncio, com um ouvido sempre à escuta de um ruído que anunciasse a presença de um funcionário, e de olhos quase fora de órbita, em busca da caixa onde estariam encerrados os segredos sobre Pessoa. Não foi difícil encontrá-la, bastava seguir a ordem alfabética da arrumação de arquivos e, na letra P, lá estava o Fernando Pessoa encaixotado. Ainda questionei se agora que já sabia onde procurar não deveria voltar ao meu lugar e evitar ser apanhado com a boca no queijo? Mas, pensei, a minha investigação naquela cave estava no fim e não teria uma segunda hipótese tão boa como a que se me apresentava agora. Em silêncio, levantei a tampa da caixa para descobrir o que estava no seu interior.

O que primeiro me despertou a atenção foram as fotografias. Eram muitas, mais do que aquelas que se têm conhecimento existir do poeta; das quais, muitas retratavam aspetos da sua vida social, designadamente imagens onde aparecia rodeado de personalidades do mundo artístico da época. Seriam fotografias tiradas a essas mesmas pessoas e não ao poeta, parecia-me, mas eram imagens onde ele surgia fisicamente. Observei-as com mais atenção para verificar se seriam falsas, fotomontagens que recriassem os círculos culturais de então que Pessoa poderia ter frequentado, apesar de se saber que ele era avesso à mundanidade. Não ofereciam grandes dúvidas quanto à sua veracidade, o que me fez perguntar a razão de nunca terem sido publicadas?

Mas havia muitos mais testemunhos inéditos nesta caixa. Principalmente documentos que, após uma breve passagem de olhos, deixariam Sena bastante entusiasmado se os possuísse. Ou os estudiosos de Pessoa! Continuei a bisbilhotar a caixa e o que ia descobrindo no seu interior deixava-me surpreso. Havia datiloscritos inéditos, manuscritos rasurados e muitas mais fotografias e desenhos que retratavam o poeta. Como se algum seu contemporâneo tivesse adivinhado que Pessoa iria ser famoso o suficiente para necessitar de ficar bem documentado para a história.

Entre os documentos houve um que me obrigou a uma leitura mais demorada, mesmo que o receio de ser apanhado dificultasse a concentração necessária para entender a profundidade do seu significado. Dizia o seguinte: "O meu sentido interior de tal modo predomina sobre os meus cinco sentidos que - estou convencido - vejo as coisas desta vida de modo diferente do dos outros homens. Existe para mim - existia - um tesouro de significado numa coisa tão ridícula como uma chave, um prego na parede, os bigodes de um gato. Encontro toda uma plenitude de sugestão espiritual no espetáculo de uma ave doméstica com os seus pintainhos que, com ar pimpão, atravessam a rua. Encontro um significado mais profundo do que os terrores humanos no aroma do sândalo, nas latas velhas jazendo numa montureira, numa caixa de fósforos caída na valeta, em dois papéis sujos que, num dia ventoso, rolam e se perseguem rua abaixo. E que poesia é espanto, admiração, como de um ser tombado dos céus em plena consciência da sua queda, atónito com as coisas. Como de alguém que conhecesse a alma das coisas e se esforçasse por rememorar esse conhecimento, lembrando-se de que não era assim que as conhecia, não com estas formas e nestas condições, mas de nada mais se recordando."

O maior espanto aconteceu com uma carta manuscrita do poeta para a namorada de a Besta, aquela que o acompanhara durante a viagem em que ele se encontrara com Pessoa. Já sabia que o poeta tinha sido flechado por Cupido quando a vira; que até escrevera um poema sobre as sensações que o seu corpo lhe provocara, mas nesta carta - que nunca deveria ter sido enviada -, o poeta abria-se desordenadamente, como pude ler: "A verdade? É uma coisa exterior? Não posso ter a certeza dela, porque não é uma sensação minha, e eu só destas tenho a certeza. Uma sensação minha? De quê? Procurar o sonho é pois procurar a verdade, visto que a única verdade para mim, sou eu próprio. Isolar-se tanto quanto possível dos outros é respeitar a verdade."

A carta escrita para Hanni Jaeger arrebatou-me. Para além de a data em que foi escrita coincidir com o reatar do namoro entre Ofélia e o poeta, ponderei sobre o modo em como as suas personalidades se atrairiam. Já lera a confissão de Pessoa sobre o que pensava da sua própria personalidade sob o ângulo psiquiátrico, onde se definia como histérico, característica que também definiria a namorada de a Besta. Não fora por acaso que a jovem de 19 anos fizera uma cena que os expulsara do hotel onde pernoitavam e partira, abandonando a Besta no país de Pessoa!

Estava neste transe quando ouvi passos a ressoar na cave e alguém a perguntar por mim. Não duvidei que estava na antecâmara de um enxovalho gigantesco se fosse o responsável do arquivo quem me chamava. Imitando mais uma vez a personalidade de um rato, encolhi-me enquanto arrumava o mais depressa possível a caixa que estivera a consultar, de modo a que ninguém notasse que tinha sido remexida. Em seguida, mantive o silêncio como resposta a mais duas chamadas pelo meu nome e esperei que a pessoa se fosse embora. O meu desejo era o de que quem quer que fosse que me queria ver não percorresse o labirinto dos corredores até à casa-forte, o que felizmente não aconteceu. Talvez por eu ter previsto esta hipótese e ter deixado a iluminação desligada no meu rasto.

Aguardei mais uns minutos até sentir que estava novamente solitário na cave, apaguei a luz da casa-forte e caminhei veloz até à secretária de onde não era autorizado sair. Sentei-me e tentei acalmar os nervos que causavam suores frios por todo o meu corpo. Limpei o rosto com as costas da mão, encostado à cadeira, sem forças para reagir a um novo susto. Só esperava que nos próximos minutos ninguém descesse as escadas até ao buraco onde me encontrava e que pudesse regressar à pulsação normal para, mal estivesse recomposto, poder fugir do jornal.

Na manhã seguinte descobri que fora o jornalista quem tinha ido procurar-me à cave. Descobri-o da pior maneira, através de uma página no jornal que noticiava a morte do meu anfitrião do Freixo! Ferreira Gomes fora destacado para fazer a cobertura de um suicídio na Boca do Inferno e, ao ligar para as autoridades locais, soubera o nome da vítima. Conhecendo o meu interesse pelo assunto, quis levar-me consigo. Não sabia ele que eu trabalhara com Sena durante vários meses e que o meu interesse pela relação entre Pessoa e a Besta derivava desse contrato interrompido poucas semanas antes do seu final.

Estava na cave a ler a notícia quando ouvi os seus passos a descer a escada. Trazia o jornal na mão e tinha um ar afogueado, de quem correra até mim para me dar a novidade. Ao ver que eu já tinha um exemplar na mão, perguntou-me se sabia do que acontecera, ao que lhe respondi afirmativamente. Mas Ferreira Gomes tinha pormenores que não foram impressos a pedido da polícia na edição que saíra nessa manhã, entre os quais a existência de um saco deixado por Sena na borda do buraco do rochedo. Descreveu-me o seu conteúdo e rapidamente entendi que continha todo o trabalho para o qual eu fora contratado. Era uma pilha de folhas cor-de-rosa, disse, com anotações sobre a Besta. Acrescentou que a polícia afirmara que esta era a única pista que tinha para entender as razões do que acontecera e que através das folhas poderiam deslindar o que sucedera.

Não foi só isto que Ferreira Gomes me contou, mas esta intenção da polícia em descobrir por via da pilha de folhas cor-de-rosa as razões do suicídio deixaram-me preocupado, pois poderia acabar por me envolver no caso sem ter alguma coisa a ver com ele. Afinal, eu era o escritor daquelas páginas e poderiam investigar de forma tão eficiente que me ligariam ao acontecimento. Tal como acontecera ao poeta com o alegado suicídio de a Besta, com a diferença de que eu não queria o protagonismo que Pessoa desejara, nem iria colaborar numa farsa como ele fizera.

Também suspeitei que a vinda em passo de corrida do jornalista até mim, com o exemplar a abanar nas suas mãos, poderia ter uma outra intenção que não a de me relatar apenas a notícia. Afinal, não houvera um outro jornalista que em 1930 prolongara a história do suicídio de a Besta com versões de detetives franceses, polícias ingleses e uma entrevista ao poeta? Eu não estava interessado nesta situação e, apesar de o jornalista não estar ainda a tentar repetir a novela policial de há décadas, também nada apontava para que fosse totalmente desconhecedor do meu envolvimento com Sena durante os meses passados no Freixo. Havia que aguardar pelo desenrolar dos acontecimentos.

Esperar ou não calmamente pelas novidades era a hesitação perante a qual me encontrava após o jornalista regressar à redação. O que contribuiu para agravar as minhas suspeitas sobre os seus interesses em relação a mim fora o facto de me ter convidado a acompanhá-lo até à Boca do Inferno na sua busca por mais informação.

- Há que explorar este filão, até porque Sena não é um desconhecido mas antes um ilustre desconhecido. Com toda a certeza que o que deixou à beira do buraco é a pista para se descobrir o que aconteceu. Alguém estará por trás de tudo isto e aquelas folhas podem levar-me até essa pessoa.

Estas palavras deixaram-me gelado e confirmavam os meus receios. O jornalista estava determinado a obter qualquer pista com aquelas anotações e se começasse a investigar a sério acabaria por chegar até mim. Ainda ponderei se lhe o comunicaria imediatamente, situação que poderia evitar-me futuros problemas, explicando-lhe que aquele conteúdo guardado dentro de um saco de plástico era o resultado das sessões com Sena. No entanto, achei que não o deveria fazer pois dificilmente acreditaria na linearidade da minha contratação para o trabalho. E, se pensasse bem, que testemunhas poderiam abonar em meu favor? A jovem, a funcionária ou o porteiro... Todas elas pessoas de confiança de Sena, provavelmente agastadas com o que lhe sucedera. Felizmente, o jornalista não insistiu no seu convite para o acompanhar ao local do suicídio. Felizmente, até ao momento ninguém falava em crime, coisa que na edição de amanhã já poderia ser uma hipótese, pois tanto a polícia como o redator tinham que mostrar trabalho. E, pelo que lera no jornal, Sena não era uma figura assim tão desconhecida como sempre me dera a entender.

Bastou-me ler o obituário impresso no jornal para adivinhar que a morte de Sena não iria ser esquecida nos próximos dias. Um pequeno artigo, entre os que descreviam a morte com todas as desinformações possíveis, dominava a página da secção de crime, fomentando nas entrelinhas suspeitas sobre um não suicídio mas antes uma morte com razões por esclarecer. Mais, uma testemunha dera um depoimento que garantia que o meu anfitrião não estava sozinho no momento em que se aproximara da borda fatídica. Mas o que mais me assustara fora a repetição das assinaturas do jornalista que escrevera o artigo sobre as mortes de a Besta há décadas e a de Sena agora: eram a mesma. É que o descendente de Ferreira Gomes, ao fim de tantos anos, utilizava a mesma assinatura! Se a mim me parecia um dejá vu, imagine-se os leitores quando o escândalo fosse servido numa bandeja de factos e coincidências bem cozinhadas.

Estava certo de que este Ferreira Gomes não ficaria atrás do outro Ferreira Gomes quanto à intenção de agarrar a notícia com as duas mãos, afinal ainda o corpo não estava frio e já o descendente regressava ao local da morte com o intuito de armar uma história que tivesse um paralelo com a do passado. E tinha todos os condimentos para o conseguir, dado tudo aquilo que estava escrito nas páginas cor-de-rosa com a minha letra, desde o nome profusamente repetido de a Besta, à presença do poeta, passando por toda a investigação de pessoas que o anterior suicida enganara durante as atividades esotéricas ao longo da sua vida. O que poderia querer o descendente para além destas situações pouco claras como achas para uma fogueira noticiosa que lhe dariam material infindável para uma sucessão de artigos tão ao gosto popular?

Na minha cabeça ainda estava o pedido para lhe devolver a pasta especial que me emprestara, contendo os recortes do falso suicídio de a Besta, porque iria precisar deles quase de certeza. Outra ideia começou imediatamente a germinar em mim, a de que também este poderia ser um suicídio não verdadeiro - mais uma vez não fora encontrado o corpo - e que a pilha de folhas cor-de-rosa por mim escritas mais não seriam que o substituto do bilhete que a Besta deixara na sua farsa noutros tempos. Até que ponto este Ferreira Gomes estava envolvido na fabricação de um desaparecimento como o seu antepassado estivera? Foi esta a pergunta que me fez agir.

Antes de tomar uma decisão sobre o que fazer para evitar problemas com o caso Sena, li a biografia publicada no obituário. Que também era escrita por Ferreira Gomes e, para além de muito estranha e coincidente com episódios da vida de a Besta, era suficientemente vaga para dar azo a todas as interpretações e contribuir para a polémicas em artigos sucessivos. O descendente do jornalista resumira a vida de Sena com pormenores que eu nunca imaginara existirem na sua vida: "Teve uma vida aventurosa, sendo-lhe conhecidas vários casamentos com mulheres que elevou ao grau de sacerdotisas. Hábil jogador de xadrez, foi praticante de montanhismo, tendo subido aos mais altos picos de todo o mundo e viajado por vários países. O alegado suicídio de A.E. Sena na turística paisagem de a Boca do Inferno, em Cascais, ainda por explicar, dá por terminada uma vida sempre distante da ribalta, sendo até desconhecido o local onde residia nos últimos anos."

Outra coisa que me chamou à atenção na página sobre a morte de Sena era o destaque que o descendente dava a uns versos de Pessoa, encontrados sobre os maços de folhas cor-de-rosa na borda da Boca do Inferno: "O diabo é o limite / A creação é divina / como coisa e diabólica / como limite d"essa coisa." Surpreendi-me com a citação poética no artigo do jornal porque, além de que quando os escrevera nas folhas de apontamentos ditados por Sena os ter achado estranhos, os versos surgiam com a clara intenção de levantar uma suspeita sobre o caráter satânico do suicídio.

A curiosidade sobre o local onde Sena se suicidara acabou por me dominar nas horas seguintes. Apesar de a Boca do Inferno ter estado muitas vezes presente nas anotações que fiz, desconhecia o sítio que tanto marcara a relação entre a Besta e o poeta. Não foi preciso passarem mais minutos para decidir ir até ao local, apenas deixei correr o tempo suficiente para não me cruzar com o descendente e, fruto desse encontro, poder ser logo arrolado como suspeito pelas autoridades. Afinal, diz a máxima que o criminoso volta sempre ao lugar do crime! Aproveitei para arejar o Chrysler e pôr o seu motor a trabalhar, visto que estava estacionado na garagem desde que terminara o contrato com o meu anfitrião. Escolhi a marginal à beira-mar para fazer o percurso, evitando a autoestrada onde os carros são obrigados a deslocar-se a maior velocidade. Como a temperatura estava agradável, baixei o vidro da janela e fui de cabelos ao vento durante todo o percurso.

Passei uma e outra vez pelo local do suicídio antes de estacionar. Estava a anoitecer mas ainda havia uma concentração de pessoas junto à Boca do Inferno, a maior parte visivelmente turistas. No entanto, era fácil descobrir um ajuntamento de polícias no local do alegado suicídio. Bastou um pouco de atenção para descobrir que o descendente estava entre eles, confirmação de que deveria esperar mais um pouco para ir até ao local. Ele teria que regressar à redação; os polícias não iriam passar ali a noite com toda a certeza, e eu não tinha pressa. A minha intenção era, também, dar um fim ao meu contrato com Sena ao visitar o local onde desaparecera. Era a última tarefa que considerava ter em falta para com ele e que daria por encerrada esta colaboração. Nada mais havia em a Besta que me interessasse.

O descendente só partiu cerca de uma hora depois da minha chegada. Ao abandonar o local passou perto de mim e olhou com atenção para o carro. Fiquei em dúvida se o fazia por curiosidade, como todas as outras pessoas, ou se o seu faro jornalístico lhe permitia cheirar alguma ligação entre o veículo e Sena? Olhou com curiosidade durante alguns segundos, enquanto eu me escondia atrás dos vidros fumados, até que se foi embora a olhar para os seus apontamentos. Pareceu-me que ainda acrescentou uma nota nas páginas do caderno, mas se o fez disfarçou-o bem. Decerto que teria memorizado a matrícula e que iria investigar o nome do proprietário. Isso era algo que neste momento já não me preocupava, queria era fechar o meu contrato e ir-me embora. Estava certo de que haveria uma outra vida à minha espera e eu queria entrar rapidamente nela.

Pouco depois, foi a vez de os polícias abandonarem o local também. E aí, a Boca do inferno ficou só. Chegara a minha vez! Abri a porta do Chrysler e caminhei até local onde a Besta saltara para o buraco negro em 1930 e, numa repetição inesperada, há dois dias Sena fizera o mesmo. Nada me garantia que mais uma vez tivesse acontecido um suicídio, até porque a Besta fora avistada poucos dias depois em Berlim e Sena ainda tinha o futuro para reaparecer. Enquanto me aproximava da Boca do Inferno pensava nas razões que levariam dois homens adultos e inteligentes, sem motivos aparentes para se suicidarem, a encenarem tal atitude. Decerto que haveria uma explicação simples para terem tomado tal decisão...

Não foi preciso pensar muito para, vendo as suas vidas passarem como um filme no meu pensamento, me aperceber que ambos procuravam uma purificação que só aquele buraco negro lhes poderia dar. Estava certo de que haveria uma explicação para o facto de saltarem para um destino desconhecido se não soubessem ao que iam. Tinha a certeza que ambos saberiam muito bem o que estavam a fazer e que não teriam escolhido esse destino sem terem acautelado uma vida posterior. Nem a Besta nem Sena eram desapegados da vida como muitas outras pessoas que ali se suicidaram, nem estavam numa etapa das suas vidas em que morrer fosse uma solução.

Os fotogramas do filme das suas vidas continuavam a projetar-se no meu pensamento e foi então que, numa inspiração sem fundamento, entendi a razão para o salto que deram para dentro das profundezas da Boca do Inferno. Nesse momento, senti também uma vontade irresistível de me atirar, plenamente consciente de que não morreria afogado na água que existia no fundo do buraco rochoso, nem seria desfeito pelas ondas contra as escarpas afiadas que haveria até lá em baixo. Se a Besta e Sena escaparam - eu estava certo de que o meu anfitrião reapareceria um dia destes -, porque é que eu morreria?

Não hesitei mais do que uns segundos e saltei também.

Amanhã: Vicente Guedes salta para a Boca do Inferno

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