A segunda vida de Fernando Pessoa: lição final na Baía da Traição

E se Fernando Pessoa regressasse ao presente sob o heterónimo Vicente Guedes, aquele que foi preterido como autor do Livro do Desassossego para Bernardo Soares? Um romance inédito de João Céu e Silva que o DN está a publicar em 12 capítulos.

75 anos após a morte de Fernando Pessoa aparece um homem em tudo igual ao poeta na esplanada do Martinho da Arcada. Chama-se agora Vicente Guedes, um dos heterónimos do poeta, quer voltar a viver na sua antiga morada, onde agora está a Casa Fernando Pessoa, e assume-se como o seu herdeiro literário. Alguém o está a ensinar a ser Pessoa, recuperando os ensinamentos do poeta W.B. Yeats , de Ian Fleming e Somerset Maugham, três autores enganados pelo mago Aleister Crowley. Vicente Guedes sai do Freixo, com a incumbência de comprar certas peças no leilão do espólio deixado por Fernando Pessoa, mas é no arquivo do Diário do Notícias que existe na cave do edifício onde encontra a explicação para o suicídio de Aleister Crowley na Boca do Inferno. Embarca para a Baía da Traição, viajando com Proust, Jane Eyre, Virginia Woolf, James Joyce, F. Scott Fitzgerald e Hemingway.

Uma revelação feita por um índio

Posto que o comandante do navio não iria escrever o relato da viagem nem do achamento desta terra para onde íamos, não deixarei também de dar conta de como foi como eu melhor puder. Tomem os leitores a ignorância por boa vontade e não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu: A partida de Lisboa foi na segunda-feira, depois passámos as Canárias e avistámos as ilhas de Cabo Verde. Seguimos o caminho por este mar, de longo, até que topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno e aves a que chamam fura-buxos. Quando houve vista de terra foi primeiramente dum grande monte, alto e redondo, e doutras serras mais baixas ao sul dele, bem como de terra chã, com grandes arvoredos.

Dali seguimos num veleiro até ao destino, a Baía da Traição, onde se fundeou ao largo um dia depois. O capitão mandou lançar o prumo a seis léguas da terra, onde permanecemos toda a noite. Pela manhã, fizemos vela e seguimos direitos à terra até meia légua de distância, onde lançámos âncora em frente à boca de um rio. Dali avistámos homens que andavam pela praia, mas não pôde deles haver fala, nem entendimento de proveito, por o mar quebrar na costa. Ventou tanto sueste com chuvaceiros que fez âncora e fazer vela ao longo da costa, para ver se achávamos alguma abrigada e bom pouso. E, velejando pela costa, obra de dez léguas do sítio donde tínhamos levantado ferro, achou-se um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma larga entrada. Esta terra tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. Pelo sertão pareceu, vista do mar, muito longa, de muito bons ares, e águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo. Quanto aos habitantes, em muitos a feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto.

A crónica de viagem poderia continuar em tom quase medieval se o que Beatriz e eu víamos fosse uma terra como a da descrição. Terá sido, mas agora estava ocupada por uma civilização, na qual as choupanas de antigamente deram lugar a casas e ruas substituíam os carreiros, mesmo que a enseada que dava nome à Baía da Traição se mantivesse semelhante. Ainda havia a linha de recifes a proteger o litoral, agora com um farol construído sobre uma ilhota afastada da costa a alertar os navegadores para os perigos das pedras. Do veleiro que nos trouxera até à embocadura do rio podia ver-se as construções mais antigas, mas o calado não permitia ir muito além do local onde a água doce e salgada se misturavam.

Talvez influenciado pela conversa do passageiro Thoreau, contrariei o desejo de Beatriz em ficar num dos pequenos hotéis da localidade e propus que nos instalássemos junto da comunidade indígena. Ela surpreendeu-se com a minha sugestão, talvez por pensar que iríamos morar em plena floresta, daí que lhe tenha mostrado o cartaz que me inspirara e onde se informava da possibilidade de viver com uma tribo dos Potiguaras. Aceitou. Creio que não se arrependeu desta experiência, nunca o perguntei, em que nos despojávamos de muito do conforto para viver de um modo mais frugal. Não seria tão selvagem e exigente como o escritor norte-americano defendia, mas era o mais próximo que se poderia encontrar.

O meu primeiro objetivo nos dias que se seguiam era poder estudar os textos inéditos de Pessoa. Queria ir mais longe e desejava também compor a personagem de Vicente Guedes de um modo diferente da que o poeta desenhara, fazendo-a rivalizar com o passado brasileiro de Ricardo Reis, simpatizando com a autobiografia sem factos de Bernardo Soares, destroçando o engenheiro sentimental que era Álvaro de Campos, suplantando o mestre ingénuo que pôs em Alberto Caeiro... Mesmo que este último se intrometesse no meu trabalho de um modo que antes de falar com Thoreau não pensasse poder vir a acontecer, afinal era quem se preocupava com as questões da natureza o sempre desejoso de me retirar o papel de guardador de rebanhos que vinha a construir na minha cabeça. De qualquer modo, o que eu desejava para estas férias na Baía da Traição era simplesmente apropriar-me dos heterónimos e abafar o próprio poeta, mostrando que a existência por si só é o mais importante.

Tentar abafar Pessoa não seria difícil, até porque foi ele o fez em vida, conforme lera numa carta que enviara ao investigador Casais Monteiro a propósito da publicação de Mensagem. Onde confessava que tinha sido um erro publicar um livro assinado por si antes de outros com autoria dos heterónimos: "Comecei por esse livro as minhas publicações pela simples razão de que foi o primeiro livro que consegui, não sei porquê, ter organizado e pronto. Como estava pronto, incitaram-me a que o publicasse: acedi." Para o poeta, a estreia não tinha sido feliz mas fora a melhor que conseguira, porque essa sua faceta nacionalista da personalidade nunca tinha sido suficientemente manifestada nas colaborações em revistas. Essa carta continha instruções, se é que se pode dizer deste modo, sobre o que deveria ser o futuro de Vicente Guedes. Um plano muito claro e que me interessava por ser inaudito, é que Pessoa considerava que por enquanto só deveria expor a obra que respeitava à sua própria assinatura, anunciando que - esta foi a minha grande surpresa - a dos heterónimos só teria existência após ser galardoado com o Prémio Nobel!

Reli bem esta parte da carta!... Depois de Mensagem, o poeta queria prosseguir a publicação do seu trabalho com uma versão remodelada do Banqueiro Anarquista, a editar simultaneamente em inglês, e em seguida reunir num grande volume os poemas pequenos assinados por Fernando Pessoa. Quanto aos heterónimos, confirmava com a releitura, a intenção era revelá-los apenas após a concessão do Nobel: "Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, exceto quando me for dado o Prémio Nobel. E contudo - penso-o com tristeza - pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática; pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, e pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida." Acrescentava: "Pensar que todos estes têm que ser, na prática da publicação, preteridos pelo Fernando Pessoa, impuro e simples! Mais planos não tenho, por enquanto." Nem valia a pena ter outros planos, já que a data em que a carta fora escrita era do dia 13 de janeiro de 1935 e não lhe restava mais do que alguns meses e uns dias até 30 de novembro, a data da sua morte.

A carta do poeta ao amigo era um quase testamento sobre o que pretendia deixar como herança a cada um dos heterónimos. Li o resto em diagonal e sem prestar muita atenção, porque preferia neste momento passar à vida real e aproveitar a beleza do local onde estava em vez de me perder em Pessoa. Estava certo de que para reconstruir Vicente Guedes teria que voltar, e com grande profundidade, a esta correspondência, mas só o faria após executar a limpeza da minha própria mente com a ajuda do tempo livre de que dispunha para me reencontrar na natureza. Não era por acaso que apontava a natureza como uma solução, decerto que era uma intuição associada às palavras de Thoreau, de que seria a paisagem primeiro e a leitura dos inéditos do poeta em seguida que me dariam alento para expor aos leitores e ao mundo as pretensões íntimas do poeta quanto à sua obra.

Beatriz adaptara-se facilmente aos hábitos da comunidade Potiguara onde estávamos a morar, às vezes até bem de mais para os locais, e eu sentia curiosidade em os conhecer melhor. Com as nossas duas vontades juntas no mesmo objetivo, os dias que se seguiram foram dos melhores na minha vida. Despi toda a roupa séria que levava, ignorando o chapéu e os sapatos, e vestindo-me da forma mais simples possível. Ela, que se antecipara à minha quase nudez, vestia também uns calções e acrescentara uma camisa folgada. Demos início a caminhadas diárias pela região e a um diálogo cada vez maior com a família indígena que nos alojava, conversas que se iam alargando aos seus conhecidos, até que nos sentimos perfeitamente integrados. Não sei se esse era sentimento dos índios com quem convivíamos mas, também, nunca nos fizeram sentir indesejados. Havia roteiros assinalados para os turistas mas houve quem nos informasse de outros caminhos menos concorridos e ainda mais bonitos. A Baía da Traição, concluímos rapidamente, era um desses cenários onde o homem e a natureza poderiam combater-se ou harmonizarem-se. No nosso caso, optámos pelo segundo.

Parece que nem sempre a harmonia fora a regra principal nesta terra, segundo nos contou no fim do percurso de uma das nossas caminhadas um índio, dos mais velhos que encontrámos no único estaleiro dedicado ainda à construção de canoas. O homem era empregado num posto de turismo mas raramente por lá parava, dizia que preferia procurar os visitantes em vez de esperar que fossem ter com ele. Tinha o discurso próprio do que se imagina serem povos nómadas ou pouco habituados a cumprir horários mas, como esta região era um dos protetorados da cultura indígena, ninguém o contrariava. Afinal ele era uma das atrações locais, tal como mais cinco mil índios que restava do tempo em que as naus portuguesas chegaram a este ponto do novo mundo.

O velhote gostava de contar histórias dessa História oficial enxertando-a o suficiente com a visão dos conquistados, de modo a não ter problemas quando divergia do relato fixado que lhe competia transmitir. Como que a mostrar-se cumpridor no seu emprego, quando o ouvimos pela primeira vez, retirou do bolso do colete um papel com o roteiro escrito por terceiros. Não é que precisasse de pegar na folha para recitar os dados porque decerto já os decorara, seria mais uma forma de mostrar que debitava palavras oficiais e que não eram suas. Daí que não tivesse sido difícil obter a sua visão mais pessoal sobre o passado mal lhe pedimos e que nos foi contando ao longo dos dias em que íamos ter com ele. Ambos apreciávamos o seu modo de contar a História, se bem que Beatriz mostrasse o seu encanto mais abertamente do que eu conseguia, devido às constantes passagens de Fernando Pessoa pelo meu pensamento.

Tanto podia ser um verso de Alberto Caeiro, que eu declamava em surdina enquanto o ouvia contar histórias da chegada dos portugueses: "Navio que partes para longe, / Por que é que, ao contrário dos outros, / Não fico, depois de desapareceres, com saudades de ti? / Porque quando te não vejo, deixaste de existir. / E se se tem saudades do eu não existe, Sinto-a em relação a causa nenhuma; / Não é do navio, é de nós que sentimos saudade"; como de Bernardo Soares, enquanto nos falava do panteão dos deuses indígenas: "Acima da verdade estão os deuses. / A nossa ciência é uma falhada cópia / Da certeza que eles / Sabem que há o Universo"; ou de Álvaro de Campos, que me retratava tão bem: "A liberdade, sim, a liberdade! / A verdadeira liberdade! / Pensar sem desejos nem convicções. / Ser dono de si mesmo sem influência de romances! / Existir sem Freud nem aeroplanos, / Sem cabarets, nem na alma, sem velocidades, nem no cansaço!"; e do próprio Pessoa, ao sentir-me em paz: Aqui está-se sossegado, / Longe do mundo e da vida, / Cheio de não ter passado, /Até o futuro se olvida"; como um poema de Ricardo Reis que me martelava a cabeça, por exigir-me mais ação do que aquela a que eu me entregara desde que chegara aqui: "Cada um cumpre o destino que lhe cumpre. / E deseja o destino que deseja; / Nem cumpre o que deseja, / Nem deseja o que cumpre". Regressava constantemente ao meu pensamento porque era obrigado a admitir que estava a perder tempo e a despreocupar-me demasiado com as minhas responsabilidades. Afinal, o poeta tinha tantos planos e acabara por morrer sem os realizar e, tendo sido eu o escolhido para cumprir o seu destino e o seu desejo, traía-o ao andar em passeios pela floresta e em conversas com um índio do posto de turismo!

Perguntei-lhe a razão de ser do nome Baía da Traição enquanto o velhote estava a contar uma das suas histórias a Beatriz e não pareceu satisfeito pela minha interrupção ou, quem sabe, pela minha questão. Ao fim de algum tempo respondeu dizendo que ninguém sabe bem a origem mas que o nome fora posto pelos colonizadores há muitos séculos.

- O dia em que batizaram esta terra desse modo tanto pode ser do ano de 1501, como de 1503 ou 1505, mas o que gerou esse nome foi sempre o mesmo motivo, o assassinato de portugueses e castelhanos pelos meus antepassados.

Recordou que existiam várias teses de historiadores sobre as chacinas. A primeira, logo quando Américo Vespúcio por ali passou e três tripulantes portugueses foram devorados após uma receção amigável; a segunda, quando outros náufragos também portugueses e castelhanos deram à costa e foram mortos em vez de ajudados; e a terceira, ao morrerem às mãos dos índios dois frades franciscanos. Uma coisa é certa, disse por outras palavras, em 1516 o nome da terra já aparecia num mapa com o topónimo que se mantém até hoje e a sua escolha deve-se ao facto de, por uma ou outra razão, os estrangeiros terem sido mortos pelos índios. Fez, no entanto, questão de dizer que eles não eram traiçoeiros, pelo contrário enfrentavam o inimigo na luta corpo a corpo e eram corajosos.

O velho índio aproveitou a deixa para interromper o relato sobre antigas traições naquela baía e começou a contar que os Potiguaras era o único grupo indígena que se mantinha na Baía da Traição e que a tradição obrigava que não se miscigenassem com quem não pertencesse à tribo; que quando chegaram os conquistadores existiam na região duas raças de índios, os Tupis e os Cariris; que os primeiros se dividiram entre os Tabajaras e os Potiguaras e eram inimigos; que os segundos diziam ter vindo de um grande lago e também se separaram em várias tribos. Ao ver-nos tão interessados no que contava, puxou do papel - era o hábito - e continuou o discurso, agora com a história oficial dos europeus. Que os franceses conseguiram o apoio dos índios contra a colonização portuguesa ainda no primeiro século de ocupação; que após a morte de milhares de indígenas, foi criada uma capitania; que, por terem ajudado os holandeses, os Potiguaras foram de novo massacrados...

Nesse dia, falou muito do passado, enquanto sobre o futuro foi menos conversador. Era claro que ao ver o turismo apreciar tanto a enseada, chegaria o momento em que os Potiguaras teriam uma última luta para vencer. Se sobre isso não queria conversar, tendo preferido ir mostrar um dos locais que considerava mais bonitos na região, o velho índio encaminhou-nos por uma sucessão de veredas, dunas e mangues até nos deixar à beira de uma lagoa. Disse que esta era a mais bonita e menos conhecida, que podíamos ficar por ali o tempo que desejássemos. Era realmente bela e a fonte de inspiração que eu procurava, tendo-lhe logo perguntado se era possível acampar nas suas margens por algum tempo. O índio sorriu e, como se estivesse a condescender num dos seus segredos, respondeu que poderíamos permanecer na sua palhota.

- Costumo vir para aqui várias vezes mas tenho assuntos para resolver na vila. Se quiserem, podem lá ficar.

Também avisou que não tinha alimentos mas possuía redes e uma cana de pesca que nos poderiam ajudar a procurar alimento.

- E nas árvores aqui à volta há muita comida.

Olhei para Beatriz que, novamente um pouco contrafeita, acabou por aceitar ficar no que eu considerava ser o verdadeiro paraíso que Álvaro de Campos escrevera nos versos, da verdadeira liberdade e de ser dono de si mesmo sem influência de romances, de Freud, aeroplanos e cabarets.

Encontrei um encaixe perfeito na areia para estudar os textos inéditos de Pessoa, ler a carta a Casais Monteiro e observar Beatriz nos seus banhos de sol e de lagoa. Na manhã seguinte à primeira noite dormida na lagoa, era ela que me atraía a atenção, só vindo os interesses atrás referidos a aparecer muito mais tarde e em ordem contrária à descrita. Não era por acaso que Beatriz se tornara o foco da minha atenção, é que ela deixara na palhota todas as suas roupas e andava o dia inteiro nua. Bela como era, fascinava-me admirar o seu corpo, vê-la a nadar ou a flutuar sobre a água doce na parte menos profunda da lagoa, que lhe cobria apenas meia altura do corpo deitado.

Ninguém aparecia por ali, sendo o cantar dos pássaros a única voz animal que ouvíamos e o ressoar das ondas contra as dunas que separavam esta água da do mar a outra sonoridade natural, para além das nossas falas. Evitara preparar o novo Vicente Guedes através dos documentos que nos acompanhavam, numa arca incomparavelmente menor se posta ao lado da do poeta, porque precisava desesperadamente de limpar o meu pensamento e encontrar espaço para o parto do herdeiro.

Beatriz não me fazia perguntas sobre o assunto, nem sobre qualquer outro tema. Parecia afinal ter ficado satisfeita por termos encontrado este albergue natural e crer que esta bolsa natural seria propícia ao desenvolvimento do feto poético que eu carregava. Invertia os papéis naturais do homem e da mulher, tornando-me a mãe do Vicentinho e ela com um comportamento de um pai pouco dedicado a estas coisas da gravidez. Isso não me incomodava, até porque o poeta tão poucas vezes fora vítima do amor que eu já lhe deveria ter ganho em tempo de paixão e de direito a corpo de uma mulher. Decerto, Pessoa infiltrara-se infinitas vezes menos do que eu em toda a sua vida entre as pernas do outro sexo mesmo que o seu Álvaro de Campos se arrependesse de não o ter feito com "a rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa / que queria casar comigo", sendo-lhe mais fácil pensar que ela "já me deve ter esquecido" ou se me recorda é "com o quarto filho nos braços, debruçada sobre o Daily Mirror a ver a Pussy Maria". Ou que noutros versos mais violentos apostasse que "A alma humana é porca como um ânus / E a Vantagem dos caralhos pesa em muitas imaginações". E tudo isto atravessava o meu pensamento enquanto Beatriz se armava em sereia e dava tempo ao tempo para que eu me tornasse Pessoa.

Não ficávamos só por aquela zona, nem eu só pela radiografia do exterior do seu corpo. De mãos dadas, percorremos os areais e mergulhámos no oceano ao longo da costa, sem recear que o velho índio regressasse e perdêssemos o lugar na palhota. O seu corpo tornava-se diferente ao meu toque, penso que por ação do sol e do sal do mar sobre a pele, e eu beijava-o até ao milímetro mais escondido. Não coloquei jamais a hipótese de esquecer o meu destino, mesmo que o vazio das minhas obrigações para com o estudo do Poeta pesasse mais do que alguma vez pensei acontecer.

Mais uma vez pressionei Beatriz para me revelar os seus segredos, bem como os de Sena e os do Freixo. Estávamos deitados sobre a duna que separava a água doce da lagoa da salgada do mar e foi esse argumento que ela utilizou para me pedir que ficasse em ignorância.

- Nunca se devem misturar as águas.

Continuou dizendo que se eu tivesse uma ferida no pé e nadasse no mar a cicatrização nunca mais aconteceria, enquanto se a mergulhasse na lagoa não haveria problema. Não era uma metáfora difícil de entender, mesmo que a minha curiosidade fosse muita e quisesse saber as razões que, no fim de um longo caminho, me tinham trazido até esta duna que servia a Beatriz de fronteira. Respondi-lhe que nunca tivera problemas em atravessar fronteiras e que só no ano passado no Freixo é que deixara de mandar em mim. Vi no seu rosto que a vontade de revelar qualquer coisa era inexistente, bem como nas palavras que se seguiram.

- Não queres ser o Poeta?

Sim, respondi-lhe, acrescentando que o desejava mais do que nunca. Que acreditava no meu desígnio, mas que era importante saber o porquê.

- Às vezes é melhor não saber a verdade. Fica tudo mais fácil.

Fiquei em silêncio, a pensar no que dizia. Qual seria o significado deste seu segredo? O que me faria de mal se o soubesse? Principalmente, questionei porque é que se eu perguntara sobre o seu mistério, Beatriz acabara por unir o seu aos de Sena e do Freixo. Eu só queria conhecer o seu passado, nem imaginava que pudesse existir alguma ligação com o meu anfitrião ou com o local onde morara que impedisse a revelação. Se Beatriz caracterizava o seu segredo com um ar tenebroso para evitar contar-me a sua vida, lá deveria ter as suas razões.

Achei por bem calar em definitivo as perguntas sobre esta curiosidade e abandonar-me ao mundo que a Baía da Traição me proporcionava. Beatriz, após o meu silêncio continuado, já deixara de ter a testa franzida e abandonara-se também ao seu mundo.

... Depois, como se as palavras viessem do mar, Beatriz iniciou uma história sem nexo...

Era uma vez uma menina que estava abandonada numa floresta. Houve um pastor que ouviu o seu choro e procurou-a. Encontrou-a entre as árvores, sozinha e embrulhada em pano e cordas. Levou-a ao colo até à casa do senhor mais rico das imediações e entregou-a aos cuidados da sua mulher. Um ano depois, a menina estava bem mas a mulher morrera. Ninguém soubera explicar a morte da mulher do homem rico e a tristeza dominou a casa. Mandou chamar o pastor e perguntou-lhe como é que encontrara a criança. O homem lembrou-se de que a ouvira chorar. Também recordou que um dia antes vira passar um avião e que dele caíra uma coisa, tropeçando nas nuvens até pousar inteira no chão. Poderia ser a menina ou uma coincidência. O homem mandou também chamar uma bruxa e pediu-lhe para adivinhar o futuro da menina, encontrando as respostas para todas as suas dúvidas. Decidiu prendê-la no quarto onde a mulher morrera até que a menina se tornasse adulta...

Beatriz voltou ao silêncio e, mesmo que as ondas continuassem a bater na areia da duna, não vieram mais palavras. Enquanto esperava pela continuação da história, ponderei se o que ela me contava era uma história inventada e não a da sua vida. Nem o homem seria Sena, nem o quarto onde ficara fechada seria o da casa do Freixo! Enquanto procurava explicações na história contada por Beatriz senti, pelo ruído dos passos sobre a areia, que alguém se aproximava. Abri os olhos e vi que o velho índio caminhava à beira da lagoa. Estava de regresso, como que a anunciar que o nosso tempo de solidão ia terminar. Pensei também que não seria por acaso que voltava, era o sinal de que o passado não interessava e que eu deveria manter-me ignorante sobre tudo isso. O velho índio não se aproximou de nós. Foi até à sua palhota e deitou-se. Fiquei a olhá-lo por mais algum tempo até decidir acordar Beatriz com um beijo. Disse-lhe que já não estávamos sós e mergulhámos na lagoa uma última vez nus, como os antepassados do velho índio fariam antes de os jesuítas os obrigarem a cobrir-se cada vez que queriam tomar banho.

A nossa vida voltou a ter um ritmo civilizado! Contrariamente ao que seria de esperar da convivência com um indígena, o velho obrigou-me a trabalhar. Depois de ter dormido uma longa sesta, foi direto na sua pergunta ao interrogar-me sobre os meus estudos.

- Eu cedi-lhe a minha casa para que estivesse em paz e pudesse trabalhar. Não vai aproveitar a minha oferta?

Fiquei sem sabe o que lhe responder, até porque os dias passados a sós com Beatriz permitiram recuperar alguma lucidez e esvaziar o meu cérebro para o formatar com a estrutura mental de Vicente Guedes. Não seria por acaso que o homem me interpelava e exigia ação. Ainda por cima, decidiu que eu não poderia continuar a estudar os documentos encaixado naquela cova na areia à beira da lagoa.

- Assim não vai a lado algum! Vou construir-lhe uma mesa para trabalhar. Aproveite o resto do dia, amanhã terá que voltar ao trabalho.

Durante o resto do dia, o velho índio esteve atarefado em trabalhos de carpintaria, saindo das suas mãos uma espécie de púlpito onde eu teria que estar de pé. Ao olhar para a posição de trabalho, recordei imediatamente o parágrafo da carta de Pessoa ao Casais Monteiro, onde dizia: "Acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim."

Ainda perguntei ao índio porque é que fizera a construção assim, mas não me soube explicar.

- Foi o que me veio à ideia por ser mais fácil de fazer com as poucas ferramentas que tenho aqui.

Jantámos uma refeição preparada por ele e fomo-nos deitar mal o sol se pôs, de modo a aproveitar bem o dia seguinte.

A carta do poeta era um documento importante para eu compreender o modo como pensara a sua descendência heteronímica. Ele explicava nessas páginas datilografadas, de um fôlego, o que pretendia ser e o que sonhava para os três parceiros que escolhera entre todos os que criara ao longo da vida. Para os que ficavam de fora, não existiam grandes palavras, a não ser para o Chevalier de Pas, que inventara aos seis anos e por quem escrevia cartas que enviava para si mesmo. Contava que a origem mental dos heterónimos estava na sua tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação: "Não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo os eu a sós comigo." Este sentimento de foro psiquiátrico levava-o a dizer que se fosse uma mulher dada a fenómenos histéricos, então cada poema de Álvaro de Campos - o mais histericamente histérico de si - seria um alarme para a vizinhança!

Registava que a dada altura pensara escrever uns poemas de índole pagã mas, não o tendo conseguido, abandonou o trabalho que mais tarde se veio a tornar a essência de Ricardo Reis. E contava que ao desejar criar o oposto, lhe surgiu Álvaro de Campos. Quanto a Alberto Caeiro, o seu nascimento devia-se à necessidade de inventar um poeta bucólico. Dadas estas explicações, o poeta questionava-se sobre como adquirira capacidade para escrever em nome dos três: "Caeiro, por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstrata, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê." Em seguida, para esmiuçar as particularidades de cada invenção, explicava que o semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afetividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer «eu próprio» em vez de «eu mesmo», etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim é escrever a prosa de Reis - ainda inédita - ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso.

Não sei qual terá sido a reação de Casais Monteiro a estas páginas de uma carta que serviria para explicar a arte do poeta. Se hoje em dia se pode olhar para trás e compreender o percurso de Pessoa, à data desta correspondência seria bastante complexo receber uma confissão assim e difícil classificá-la. Se fosse o meu caso, até a definiria como que enviada por um lunático ou mais uma das charadas que o poeta em jovem tanto gostava de escrever. Certifiquei-me desta opinião ao continuar a ler a carta, designadamente a parte em que construía as biografias dos heterónimos: "Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construi-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inatividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos - o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma - só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre."

O meu receio sobre o que destinatário da carta poderia pensar sobre o poeta, leio na página seguinte, é também partilhado pelo próprio quando diz que "nesta altura estará pensando que má sorte o fez cair, por leitura, em meio de um manicómio". A finalizar, Pessoa ainda dará mais umas explicações sobre uma dúvida de Casais Monteiro sobre a sua crença no ocultismo. Creio que será o remate final na estupefação do destinatário da carta, já que Pessoa se confessa assim: "Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando até se chegar a um Ente Supremo, que presumivelmente criou este mundo. Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos, e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por estas razões, e ainda outras, a Ordem Extrema do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (exceto a Maçonaria anglo-saxónica) a expressão «Deus», dadas as suas implicações teológicas e populares, e prefere dizer «Grande Arquiteto do Universo», expressão que deixa em branco o problema de se Ele é criador, ou simples Governador do mundo. Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação direta com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos. Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também), caminho místico, que não tem propriamente perigos, mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm. Quanto a «iniciação» ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde à sua pergunta: não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe ao meu poema Eros e Psique, de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente - o que é facto - que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1881. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a orde m) trechos de Rituais que estão em trabalho."

A estas minhas leituras assistiu estático o velho índio. Fi-las em voz alta, passando folha após folha, encostado ao púlpito que ele construíra, como que a imitar o poeta sem o querer, só que a ler em vez de escrever. Ao terminar, aguardei pela sua reação mas a única que obtive foi uma só palavra.

- Silêncio.

Sentado, de pernas cruzadas uma na outra, o meu ouvinte mantinha-se calado após ouvir o conteúdo da carta. Não sei o que pensaria, nem se esta lengalenga de um poeta do outro lado do oceano lhe diria alguma coisa. Cansado, decidi descer do pequeno monte de areia à beira da lagoa onde estava o púlpito e encaixar-me na cova quente pelos raios de sol que ainda permanecia na areia. Repousei um pouco, molhei os pés e descontraí. Mesmo que por pouco tempo porque, sem ter reparado, o velho índio interrompera o seu silêncio e aproximara-se do púlpito, de onde iniciava a sua própria proclamação. Mal ouvi os primeiros versos, reconheci o poema de Pessoa.

"Eu nunca guardei rebanhos, / Mas é como se os guardasse. / Minha alma é como um pastor, / Conhece o vento e o sol / E anda pela mão das Estacões / A seguir e a olhar. / Toda a paz da Natureza sem gente / Vem sentar-se a meu lado. / Mas eu fico triste como um pôr do Sol / Para a nossa imaginação, / Quando esfria no fundo da planície / E se sente a noite entrada / Como uma borboleta pela janela... Quando me sento a escrever versos / Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos, / Escrevo versos num papel que está no meu pensamento, / Sinto um cajado nas mãos / E vejo um recorte de mim / No cimo dum outeiro, / Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias, / Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho, / E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz / E quer fingir que compreende."

Então o velho índio pegou na minha mão e levou-me até à duna. Desviou o olhar do corpo nu de Beatriz, que ali estava mais uma vez só enquanto o índio e eu nos confrontávamos, e apontou-me o mar. Disse-me que o oceano começava pouco profundo, que a meio da minha viagem de regresso seria impossível ver o chão, mas que ao aproximar-me da minha terra voltaria a poder caminhar sobre a areia submersa no litoral. Que começasse por desenhar as minhas palavras na areia e elas continuariam a escrever-se por si próprias.

- Que o seu novo eu seja como os grãos de areia em movimento.

Em seguida convidou-me a sentar, observou o oceano e desafiou-me.

- Ponha-se a andar sobre o mar e caminhe até ao seu destino.

Não disse mais uma palavra. Depois de algum tempo, voltou à choupana e recolheu alguns pertences de que necessitava. Sem se despedir, meteu-se pela floresta que nos cercava e desapareceu, não sem antes me aconselhar a ir até ao seu casinhoto e ler um caderno que lá tinha deixado sobre uma cadeira para mim.

- Pode interessar-lhe muito e ajudá-lo nos seus projetos artísticos...

E desapareceu das nossas vidas por mais algum tempo.

Não entendi logo que Beatriz me devolvera à solidão da vida, achei apenas que tinha ido passear. Nem o compreendi nos próximos dias, tal foi a forma como me perdi no caderno que o índio me sugerira ler, um conjunto de páginas encadernadas, com muitas anotações e uma linguagem que eu não consegui perceber de imediato. Eram várias folhas de papel com muitos desenhos, como que a explicar a influência do biografado na sua própria pessoa. Contava a história de um esquizofrénico-paranoico que ficara confinado durante meio século numa cela de um centro de tratamento psiquiátrico e que durante esse tempo elaborara um trabalho artístico que seria considerada uma das mais impressivas obras de arte do século XX.

O início do caderno fez-me pensar que os adjetivos eram próprios de um povo que gosta de exacerbar os seus feitos populares mas, conforme ia lendo, fiquei deslumbrado com o trabalho e a vida do biografado. Durante os dias que se seguiram não larguei o livro, nem reparei no apagamento de Beatriz - como só vim a entender depois - na minha vida, apenas li e vi as reproduções dos trabalhos do esquizofrénico-paranoico. Pensando no que me acontecia a esta distância, talvez o facto de me ter fechado na choupana do índio como se fosse também eu uma personagem psiquiátrica, perigosa se estivesse à solta, foi uma contribuição importante para fazer mais um pouco de Vicente Guedes o que ele iria ser. Não fiz a leitura de forma organizada, a querer saber que tinha nascido em 1909 num estado vizinho àquele em que me encontrava, que tinha sido sinaleiro-chefe durante os oito anos em que esteve na Marinha e que depois deixou o mar para levantar voo como funcionário que cuidava dos pneus dos aviões de uma companhia aérea, até lhe acontecer o relâmpago mental que o internou num hospital para alienados trinta anos depois de ter nascido e onde se deixou ficar por vontade própria encerrado durante meio século, já nomeado artista pelos especialistas mas sem se interessar por esse estatuto. O que mais me impressionou saber, num dos capítulos escolhidos na desordem do acaso da minha leitura, foi a recusa em o enterrarem vestido com um peça de roupa que costurara para esse fim. Chamava-o de manto da apresentação e era a peça de vestuário que desejava usar no dia do seu juízo final, coberta de nomes bordados por dentro e por fora daqueles que considerava merecerem o céu após a morte. Recortou o manto de um cobertor vermelho do hospital e, além de uma lista de nomes das pessoas de que se convencera com direito a um final feliz, bordou, na maioria das vezes usando a cor azul, situações de uma vida: um tabuleiro de xadrez e uma mesa de bilhar, aviões, números e inúmeros objetos. A ilustração maravilhou-me e deu-me que pensar sobre o que inscreveria num manto se fosse eu a fazê-lo!

A princípio pensei que a cor azul aparecia por ser a do céu, o lugar para envergar o manto da apresentação no dia do julgamento final, mas a leitura de um outro capítulo explicou-me que o esquizofrénico-paranoico o fizera por lhe faltar matéria-prima para conceber a sua arte. Como não a tinha, desfiara o uniforme azul que os doentes vestiam e aproveitara o fio do tecido para tecer os bordados. Vi nessa solução algum paralelismo com a minha obra literária, que sem poesia escrita herdara a arca que Beatriz me deixara em legado antes de desaparecer na floresta, cheia de originais de Pessoa. As folhas que estavam do interior da caixa de madeira eram os fios do meu uniforme, com as quais bordaria a escrita a apresentar aos leitores nesta segunda vinda do poeta. Se o doido transformara os fios de um bolso, de um colarinho e de outras partes em linha para inscrever nomes no seu manto, eu faria destes manuscritos as linhas de muitos poemas inéditos. Poderia, como ele fez, reinventar a matéria-prima que dera forma à gola de um uniforme ao transformá-la em nomes, enquanto eu recriaria as folhas velhas em novas manufaturas poéticas. Tal como ele, ambos faríamos de uma peça criada com um destino humano físico um altar espiritual. Preocupava-me, ao ler sobre o seu fim, como seria o meu próximo tempo? Decerto estaria fora de uma cela onde a inspiração chegaria pelo buraco de uma janela ou pela fuga à insanidade através da expressão interior. Queria um destino diferente, era o que eu pensava enquanto devorava as páginas do caderno, porque pressentia que o uso do que não era meu em mim não criaria loucura. É certo que ele se livrara de levar os choques elétricos recomendados pelo tratamento porque soubera encontrar um lado útil para a sua pessoa em vez de ser mais um carneiro no rebanho de desmiolados.

Nessas páginas, de onde fugi mal pude, apreendi que a princípio fora incluído no grupo dos agitados por ser agressivo, mas que o instinto o fizera tornar-se um dos aliados dos enfermeiros devido à capacidade para sossegar os companheiros mais violentos. Pulei mais algumas partes do livro para ignorar o que viria a seguir, não evitando aquela que explicava que para ser artista ele tinha usado o boxe, uma das atividades que os médicos recomendavam para apaziguar os mais nervosos. E que o artista aprendera a pôr à volta da mão uma toalha molhada que, com a ajuda de um soco inglês, acalmava os agitados. Se isso lhe permitira ser olhado como um paciente com serventia, também o ensinara a dominar-se. Nada pelo que eu quisesse passar com Vicente Guedes, até porque jamais olhara o boxe como uma via para a minha libertação criativa.

Enquanto lia o caderno do índio, o meu pensamento rodopiava sem parar e desenhava associações sobre a auto-investigação ao próprio eu que o poeta realizara, as quais comunicava em cartas a conhecidos que o questionavam sobre a divisão heteronímica e processos de criação. Pessoa não fora económico nas explicações, nem parco nas elucubrações sobre o facto de se considerar histero-neurasténico, afirmando que o primeiro sintoma lhe orientava a emoção e o segundo a inteligência e a vontade. Dizia que pelas suas tendências naturais e pelas circunstâncias que rodearam o princípio da sua vida, o seu caráter se tornara auto-cêntrico e mudo e que, por isso, toda a sua vida era de passividade: "O que sou essencialmente - por trás das máscaras involuntárias do poeta, do raciocinador e do que mais haja - é o dramaturgo. O fenómeno da minha despersonalização instintiva, para explicação da existência dos heterónimos, conduz naturalmente a essa definição. Vou mudando de personalidade, vou enriquecendo-me na capacidade de criar personalidades novas, novos tipos de fingir que compreendo o mundo, ou, antes, de fingir que se pode compreendê-lo." No entanto, o seu autoconhecimento permitia-lhe dizer que havia entre si e o mundo uma névoa que o impedia de ver as coisas como verdadeiramente eram e como são para os outros." E considerava que não tinha força de vontade para eliminar ou deter os pensamentos que perpassavam dentro de si porque não eram seus, apenas passavam através dele.

Ao ler o caderno deixado dentro da choupana, ponderava até que ponto o índio admitira que o seu protagonista pudesse confluir com o meu, sendo tão diferentes espiritualmente e longínquos geograficamente, e que ao partilhar a sua paixão biográfica com a minha futura persona isso me permitisse saltar alguns degraus no processo. É certo que um fora diagnosticado esquizofrénico-paranoico e o outro achava-se histero-neurasténico... É também certo que um aceitara isolar-se numa instituição e o outro tornara-se uma instituição isolada... Dúvidas que a leitura do caderno ia ajudando a resolver, com uma única exceção, qual seria o motivo porque o índio considerara que a sua consulta era importante para mim.

Havia uma parte no universo do esquizofrénico-paranoico que me seduzia a cada avanço nas páginas daquele caderno, ele próprio um conjunto de colagens como era a obra do paciente, que (des)montava a história daquele homem. Tudo começara quando deixou de ser o empregado eficiente para servir obedientemente a outro patrão: Deus. Acreditava que fora escolhido, mesmo que negasse o caráter divino das suas criações. Nas anotações escritas no caderno estava uma que revelava ter escondido o seu passado e até a data de nascimento e que, simplesmente, aparecera um dia. Não dizia qual o nome da sua terra natal, mas afirmava-se um Jesus Cristo, filho de José, e que a mãe, Virgem Maria, o recebera nos seus braços. Quanto ao modo como soubera tudo isto, não havia declarações. Sabia-se que o ponto de viragem acontecera nas vésperas do Natal de 1938, quando iniciou o trajeto até a uma igreja, orientado por um exército de anjos que o guiaram, aonde se transformaria em Jesus no dia do nascimento deste. A intervenção das autoridades impedira o seu nascimento e oferecera-lhe em troca a estada no hospício de onde não quis mais sair. Se a sua santidade era razão de desconfiança, já o seu trabalho artístico era apoiado pelas pessoas que lhe entregavam todo o tipo de lixo para transformar em obras artísticas. E, mais uma vez, o poeta surgia nas comparações com o artista, já que numa das páginas do caderno estava o relato de uma autobiografia bordada num estandarte onde se inscrevia a seguinte frase: "Eu preciso destas palavras." Também o poeta precisava de palavras, como escrevia num poema: "É fácil trocar as palavras, / Difícil é interpretar os silêncios!" Ambos utilizavam as "palavras", quer bordadas em mantos, quer postas em poemas, no silêncio a que se remetiam nas suas vidas.

Se a história do paranoico-esquizofrénico desenrolava-se num hospício e a do histérico-neurasténico nas ruas da Baixa lisboeta, ambas tinham muito mais a ver uma com a outra do que se poderia pensar e foram essas pontas que continuei a procurar até sentir que Vicente Guedes estava cada vez mais completo na sua construção. Apercebi-me disso quando o velho índio regressou e se sentou ao meu lado, no encaixe na areia onde eu gostava de ficar. Não disse uma palavra, olhava também para a lagoa fixamente até que, num gesto preciso atirou uma seta de bico afiado para o mar. Apesar de a água estar calma, a arma abanava como uma cana verde. Fui ver o que se passava e descobri que pescara um peixe. Trouxe-o e dei-lho, sob o olhar curioso de Beatriz, que também regressara da floresta.

Decidi que antes de partir, deveria escrever um manifesto sobre Vicente Guedes. Não o consegui idealizar de imediato, mas o índio explicou que chegara a altura de aprender algo mais com ele. Abriu cirurgicamente o peixe ao meio e deu-me para a mão. Felizmente o animal já estava morto, pelo que só a visão do seu interior é que me enojou.

- Leia as entranhas do peixe e decida o que vai fazer.

Como se fosse um adivinho, li nas entranhas o que precisava para, a correr, ir até ao púlpito e escrever o texto que me definiria: "Pertenço a uma geração que ainda está por vir, cuja alma não conhece já, realmente, a sinceridade e os sentimentos sociais. Por isso não compreendo como é que uma criatura fica desqualificada, nem como é que ela o sente. É oca de sentido. Assisto ao que me acontece, de longe, desprendidamente, sorrindo ligeiramente das coisas que acontecem na vida. Hoje, ainda ninguém sente isto; mas um dia virá quem o possa perceber. Procurei sempre ser espectador da vida, sem me misturar nela. Não tenho rancor nenhum a quem provocou isto. Esses sentimentos pertencem àqueles que têm uma opinião, ou uma profissão ou um objetivo na vida. Eu não tenho nada dessas coisas. Tenho na vida o interesse de um decifrador de charadas.

Nunca senti saudades da infância; nunca senti, em verdade, saudades de nada. Sou, por índole, e no sentido direto da palavra, futurista. Não sei ter pessimismo, nem olhar para trás. Que eu saiba ou repare só um tempo de trovoada é capaz de me deprimir. O ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Transmudo automaticamente o que sinto para uma expressão alheia ao que senti, construindo na emoção uma pessoa inexistente que a sentisse verdadeiramente, e por isso sentisse, em derivação, outras emoções que eu, puramente eu, me esqueci de sentir.

A Humanidade é outra realidade social, tão forte como o indivíduo, mais forte ainda que a Nação, porque mais definida do que ela. Mas eu não tenho princípios. Hoje defendo uma coisa, amanhã outra. Não creio no que defendo hoje, nem amanhã terei fé no que defenderei. Brincar com as ideias e com os sentimentos pareceu-me sempre o destino supremamente belo. Tento realizá-lo quanto posso."

Ao terminar o manifesto, coloquei-me muito empertigado atrás do púlpito, como se estivesse perante uma plateia de espetadores ávidos, e discursei-o em voz alta. Soou bem e pareceu-me uma proposta que Pessoa rubricaria para o seu heterónimo, que se encaixava no perfil de quem se iria apresentar como a reencarnação do poeta.

Amanhã: o regresso ao Martinho da Arcada

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