A segunda vida de Fernando Pessoa: formar o poeta com ajuda de Ian Fleming

E se Fernando Pessoa regressasse ao presente sob o heterónimo Vicente Guedes, aquele que foi preterido como autor do Livro do Desassossego para Bernardo Soares? Um romance inédito de João Céu e Silva que o DN está a publicar em 12 capítulos.

75 anos após a morte de Fernando Pessoa aparece um homem em tudo igual ao poeta na esplanada do Martinho da Arcada. Chama-se agora Vicente Guedes, um dos heterónimos do poeta, quer voltar a viver na sua antiga morada, onde agora está a Casa Fernando Pessoa, e assume-se como o seu herdeiro literário. Alguém o está a ensinar a ser Pessoa, recuperando ensinamentos que vão desde o poeta W.B. Yeats à criação de personagens para a saga 007 por Ian Fleming.

Ian Fleming também foi enganado por Aleister Crowley

O clima do Freixo, conforme me tinha sido possível sentir até ao momento, parecia ser ameno. Foi a tempestade que se formou de um momento para o outro que demonstrou que estávamos numa parte da Terra como qualquer outra, onde a chuva caía sobre a povoação e a trovoada se mantinha por horas, com relâmpagos que cruzavam intensamente o céu negro. Sena informou-me que de vez em quando acontecia um temporal destes e o que havia a fazer era esperar. Sugeriu que fosse ocupando o tempo a fazer a mala pois, como alertara dias antes, estávamos de partida. Para Londres, acrescentou.

Não me disse exatamente o que iríamos lá fazer, mas passou-me um livro para a mão que deveria ter a ver com o tema. Não entendi bem porquê, pois era um policial de Ian Fleming, um género de literatura que em pouco se assemelhava aos autores poetas que até agora tinham estado em causa no nosso trabalho. O livro intitulava-se Casino Royale e fora publicado pela primeira vez a 13 de abril de 1953 por uma editora britânica. Dentro do volume, que era uma primeira edição, encontrava-se um conjunto de fotocópias dobradas que historiavam o livro e o autor. Fiquei, por isso, a saber uma quantidade de vulgaridades, como a de que dois anos mais tarde o livro tinha sido publicado nos Estados Unidos com um outro título -The Double-O Agent and The Deadly Gamble e que Casino Royale passara a subtítulo; que James Bond também fora conhecido como Jimmy Bond nos Estados Unidos; que ninguém esperava o enorme sucesso destas aventuras e que por essa razão só tinham sido impressos 4728 exemplares, e que a imagem de marca do agente de Sua Majestade só iria aparecer um ano depois, decalcada de uma fotografia de um ator americano.

O mais curioso que encontrei nesse pequeno maço de fotocópias estava escrito em três páginas. Uma crítica que saíra no jornal The New York Times e que dizia: O estilo sugestivo de Fleming mostra de uma forma muito clara como se joga o baccarat, até para quem nunca o fez, e descreve a mais entusiasmante sequência que eu jamais observei. Só que, a partir desse momento, decide transformar o livro numa sucessão de clichés e de situações que não surpreende ninguém a não ser o agente 007. O leitor deve ler o início do livro mas não se preocupe se o largar após o jogo de baccarat terminar.

Esta recensão literária quase que me fez abandonar a leitura supérflua das fotocópias e passar à da, dita, fabulosa sequência de baccarat. Não o fiz!

A segunda fotocópia relatava o modo como Ian Fleming escrevera o livro. Durante dois meses, na Jamaica, enquanto não chegava o dia do seu casamento com a noiva já grávida, como se se estivesse a despedir dos últimos tempos de liberdade e a esgotar as suas últimas semanas de irresponsabilidade familiar na redação de um romance de espionagem, em que colocava vários pormenores e passagens da sua própria vida. O texto de onde depreendi esta questão dos pormenores e de passagens pessoais dizia o seguinte: Fleming afirmou que Casino Royale era inspirado em episódios verdadeiros que se verificaram na sua carreira enquanto membro da Divisão de Inteligência Naval. O primeiro, e o que mais influenciou o romance, foi uma viagem a Lisboa durante a II Guerra Mundial, numa paragem de uma viagem até aos Estados Unidos. Ele e o diretor do departamento estiveram no Casino Estoril onde, devido ao estatuto de neutralidade de Portugal, encontrou muitos espiões de vários países. Enquanto jogava Chemin de Fer numa das mesas, o principal espião da Alemanha venceu-o claramente. A cena da tentativa de assassinato de James Bond, que se segue no livro, também foi inspirada num facto real, que lhe foi descrito por um embaixador de Hitler.

A terceira fotocópia fazia o histórico da primeira adaptação realizada nos EUA e adiantava-me um pouco como seria o livro de Ian Fleming, que eu ainda não lera: Bond era um agente americano e a personagem Le Chiffre tinha perdido 80 mil francos que pertenciam aos soviéticos no baccarat e tentava agora recuperar a quantia num jogo que para si era de vida ou de morte. Eu ainda não sabia, mas era esta personagem Le Chiffre a razão que nos fazia ir até Londres. Fiquei entretido a ler o primeiro romance de James Bond durante algumas horas. Preferia tê-lo feito no gazebo mas o temporal mantinha-se forte e o calor da lareira eliminava qualquer desejo em abandonar a sala.

Sena estivera desaparecido durante todo o dia e só se tornara visível à hora do lanche, altura em que me perguntou a minha opinião sobre o Casino Royale. Não tinha nada de especial a responder e usei a crítica do norte-americano, no que dizia respeito à perfeita cena do baccarat, para suportar o parecer sobre o livro durante alguns segundos.

- Já viu o rio?

A pergunta do meu anfitrião apanhou-me de surpresa. Um rio? Que rio?

- O que está a correr à nossa porta.

Fui até à janela ver o que estava a acontecer e deparei-me com um leito de água enlameada sobre o chão da única rua do Freixo.

- Acontece quase todos os anos, mas desta vez é mesmo a valer.

Sena gostou da surpresa que provocara e convidou-me para lanchar consigo enquanto explicava o que se estava a passar. Foi assim que fiquei a saber que raro era o ano em que as chuvadas a norte não engrossavam o caudal do ribeiro que passava próximo do Freixo e que, ao transbordar das margens, refaziam este leito antigo, que eu tomara apenas por uma estrada. Só agora estava explicada a razão de todas as habitações serem edificadas a uma relativa distância da rua e sobre colinas. Ainda me contou que, como acontecia este ano, com o degelo das neves cantábricas o volume do leito era ainda maior do que o normal e que duraria vários dias até secar.

- Isso não nos impedirá de partimos para Londres conforme planeado. Espera-nos lá muito trabalho e, talvez, a chave de segredos que até agora não consegui descobrir.

Fiquei a saber que partiríamos dentro de dois dias e que não era preciso levar muita roupa para vestir.

- Apenas o essencial para a viagem porque não teremos espaço na cabina para mais do que aquilo que será extremamente necessário levar. Lá chegados, haverá muita roupa para vestir.

Mais uma vez não entendi o que se passava. Dizia-me que não era preciso levar roupa para Londres! Dera-me para ler uma aventura de Ian Fleming, como trabalho de casa antes de partir! Se isto tudo já era estranho, o que pensar sobre o que aconteceu quando chegámos à estação onde iríamos apanhar o comboio e deparar-me com a empregada e a jovem que dormira comigo durante a anterior ausência do meu anfitrião na Irlanda. A minha companheira sorriu-me e até fez uma pequena vénia, enquanto a sua empregada pusera-se imediatamente a caminhar em direção às carruagens que estavam uma centena de metros à frente.

Sena parecia enervado com o nosso atraso porque o comboio preparava-se para partir a qualquer instante, conforme se pressentia pelo fumo que saía da chaminé da locomotiva. Não era um meio de transporte muito moderno, antes parecia ser dos primórdios dos caminhos-de-ferro, não me preocupando com questões de segurança porque apenas seguiríamos nele até à estação principal. Aí, continuaríamos no comboio internacional que nos levaria até Paris e, da capital francesa, seguiríamos num bastante mais moderno até Londres. Foi esse o programa que Sena elencou antes de me fazer subir para a pequena carruagem que estava engatada às restantes que faziam parte do comboio. Era a nossa, particular, um pequeno privilégio concedido pela companhia ferroviária a Sena.

- Desde há muitos anos que vou do Freixo até à estação principal assim. Ficou escrito no contrato desde que adquiri esta carruagem presidencial e que paguei do meu bolso a sua restauração. Recuperado o património, eles permitem que circule em carruagem própria nas vias férreas secundárias. Podemos percorrer quase todo o país nela, se o desejarmos.

A viagem até à estação principal iria demorar grande parte da noite. Como a empregada não trouxera lanche para bordo, ficou decidido que cada "casal" iria à vez até à carruagem-restaurante. Sena e a sua companheira foram os primeiros e eu fiquei na carruagem com a minha. De imediato confirmei que ela continuava às minhas ordens por inteiro, pois ao sentir o meu olhar de desejo fixado no seu corpo ofereceu-se para o que eu quisesse com a seguinte frase:

-Eles costumam sempre demorar uma hora. Temos tempo para o que quiser, senhor.

A jovem continuava a sorrir e, reparei, o vestido vaporoso que usava deixava qualquer homem a sonhar. Eu poderia, para além de imaginar, concretizar esses sonhos e foi o que fizemos enquanto Sena e a empregada jantavam. Quando regressaram, já estávamos recompostos e como que a aguardar a nossa vez. Saímos pela porta que ligava as duas carruagens e fomos atravessando as restantes plataformas e corredores até ao restaurante.

Durante o jantar tentei saber algo mais desta viagem a Londres pela jovem mas, mais uma vez, nada consegui. Nunca fora à capital britânica, apesar de já ter acompanhado Sena e a empregada noutras viagens. Mesmo as perguntas que lhe voltei a fazer sobre si própria mantinham-se sem resposta, desviando o assunto ou a minha atenção para qualquer coisa que estivesse a acontecer. Não me preocupei com a situação, afinal havia um contrato a cumprir e até ao momento nada acontecera de desagradável.

Quando regressámos à carruagem privada de Sena, o silêncio era quase total. Ouvia-se a leve respiração de quem já dormia por entre o barulho das rodas metálicas do comboio sobre os carris e em poucos minutos estava eu também profundamente a dormir. À jovem, que se deitara no beliche sobre o meu, aconteceu o mesmo. Antes de adormecer ainda tentei fazer uma súmula da experiência que estava a viver com Sena, mas não demorei muito tempo a perder-me nos sonhos.

A chegada à estação principal ocorreu ao fim da madrugada. Uma forte travagem fez-nos acordar a todos e o silvo do apito de uma locomotiva, que se ouviu claramente, despertou-nos definitivamente. A empregada olhou pela janela e avisou que faltavam apenas uns minutos para se entrar na gare. Como dormíramos vestidos, rapidamente o quarteto estava a postos e, logo que as composições se imobilizaram na estação, saímos em direção ao cais onde o comboio internacional já aguardava pelos passageiros. Neste, não havia carruagem privada de Sena atrelada mas, mesmo assim, notei imediatamente que os nossos aposentos para as próximas 24 horas eram também de exceção e qualidade.

Foi a presença de Úrsula que marcou a diferença em relação à normalidade do grupo que vinha do Freixo, mesmo que só algumas horas após a partida é que tenha compreendido que ela seria o quinto elemento da expedição londrina. Folheava o Casino Royale quando reparei nela, sentada num dos bancos da fila a seguir à nossa, tendo-se juntado ao grupo aquando do lanche. A partir desse encontro, tanto a empregada como a jovem passaram a sentar-se lado a lado, enquanto Úrsula fazia companhia a Sena e eu ficava na fila dos lugares individuais. Falava de modo suficientemente alto para que eu ouvisse o que relatava ao meu anfitrião: a história de Ian Fleming. Nascera no bairro de Mayfair; o pai foi membro do parlamento e o ator Christopher Lee, o dos filmes de terror, ainda era seu familiar; estudou no Eton College, na Real Academia Militar em Sandhurst e aprendeu alemão numa escola austríaca, de modo a poder prestar provas para o Ministério dos Negócios Estrangeiros; como não foi selecionado, enveredou pelo jornalismo e tornou-se correspondente da Agência Reuters em Moscovo, até que o recrutaram para a Marinha britânica.

Depois de relatar mais alguns dados biográficos, Úrsula disse: É a partir daqui que vem o que mais lhe interessa Doutor Sena. E continuou: Fleming planeou uma operação para se descobrir as cifras secretas do codificador Enigma, que envolvia o falso despenhar de um avião alemão - onde estariam ingleses disfarçados de alemães para roubar os códigos - ao serem socorridos por um barco da Alemanha. A operação, no entanto, não avançou. Úrsula ainda contou especificações de outras operações em que Fleming esteve envolvido, como a Goldeneye, a Mincemeat e histórias dos tempos em que comandou a 30.ª Unidade de Assalto. Falou durante toda a tarde e anoitecer, mas só quando baixaram o nível da iluminação da carruagem para facilitar o sono dos passageiros é que chegou ao ponto que me interessava: a ligação à Besta...

Rudolf Hess era o ponto de união entre Fleming e a Besta. Antes de o escritor de policiais conceber uma operação que pretendia fazer reunir o nazi com Winston Churchill na Escócia para que, sem Hitler saber, negociar um pacto de paz anglo-germânico em 1941. Fleming tinha tentado fazer com que a Besta servisse de isco a Hess ainda numa outra armadilha. Úrsula introduzia muitos pormenores nas suas explicações e, para apimentar o relato, contava frequentemente detalhes inesperados.

- Sabe que foi a Besta quem sugeriu a Winston Churchill que fizesse aquele gesto do "V" da vitória com os dedos que tanta popularidade lhe deu!

Sena não entendeu e foi preciso que Úrsula imitasse o gesto para dizer "Ah esse!" Não é que Sena fosse ignorante mas, decididamente, o seu mundo era outro e privado de certas mundanidades que faziam parte das de outras pessoas. Se ela contasse que um dos Led Zeppelin fora colecionador de tudo o que dissesse respeito à Besta, Sena dificilmente saberia que não se estava a falar de um dirigível mas de um músico de uma banda musical.

- Sabe que os livros de Fleming pouco vendiam nos Estados Unidos até que o presidente John Kennedy os incluiu numa lista das suas leituras preferidas?

Desta vez, Úrsula não apanhou Sena na ignorância:

- Sim sabia. O livro que o Kennedy referia era o Da Rússia Com Amor.

Sena fez questão de explicar que em tempos fizera uma investigação sobre leituras presidenciais.

Estive tentado a dar a minha colaboração nestas curiosidades e dizer que quando fizeram o filme desse livro, Ian Fleming também fora figurante por segundos ao aparecer como passageiro do comboio Oriente-Expresso, mas achei que ia manter-me silencioso nestes apartes e escutar discretamente o diálogo. Preferi continuar a contar as vezes em que Úrsula começava as frases por um "sabe que".

O comboio internacional manteve-se em alta velocidade durante toda a noite e só ao aproximar-se de Paris é que abrandou docemente, até se imobilizar na estação. Consegui dormir algumas horas a partir do momento em que Úrsula e Sena foram conversar para a carruagem-restaurante. Como estava mais desperto do que a dupla, à chegada fui eu que descobri o senhor Andress, um típico francês que nos esperava com os bilhetes numa das mãos, a sem luva, e que nos encaminhou até à plataforma da Gare du Nord onde se encontrava o TGV que nos levaria até ao destino final, Londres. Andress deu instruções específicas a Úrsula sobre o que fazer ao chegarmos à estação londrina e, antes de se despedir, entregou a Sena um envelope que tinha sempre mantido na mão coberta pela luva.

Mantivemos a mesma disposição dos lugares durante a travessia subterrânea do Canal da Mancha, só que desta vez fiz questão de não estar atento à conversa entre Úrsula e Sena. Antes li o panfleto sobre a viagem posto nas costas do banco que estava à minha frente e, confirmando se era verdade o que dizia sobre a paisagem que passava por mim a 300 km/hora, fui acompanhando o itinerário que nos fazia desaparecer da face da Terra em Calais por um túnel monótono sob o mar...

Houve, no entanto, uma frase que me despertou a atenção na conversa que decorria ao meu lado, em que apareceram o nome de Ian Fleming e a palavra ocultismo. Quando Fleming quis aprender a língua alemã, escolheu fazer uma tradução sobre um trabalho de Carl Jung que discorria sobre alquimia, porque este gostava de astrologia e era um profundo conhecedor de tarot... Depois, voltou a falar-se de Rudolf Hess e de a Besta: enquanto esteve preso na Inglaterra, o alemão achava que o drogavam através da comida porque era cozinhada com muitas especiarias. Tal como alguns amigos de a Besta suspeitavam dos temperos que este colocava na comida servida em banquetes na sua casa, que terminavam por várias vezes em confissões inesperadas e orgias... E ainda comentaram as amizades de Fleming: a Besta era muito íntimo da mulher de um amigo do escritor que se suicidou devido a uma chantagem que aquele lhe fizera... E que um companheiro de Fleming escreveu sob pseudónimo uma biografia do mago John Dee: de quem a Besta se dizia ser a reencarnação...

Enquanto escutava estas frases à solta numa conversa em voz baixa, aguardava pelo reaparecimento da natureza exterior na localidade de Ashford e o convite sonoro para sair do comboio dentro de poucos minutos. Aí, estaríamos já mais perto de Londres! Mas esse momento tardava e, quando olhava para o relógio, parecia-me que os ponteiros não se moviam à velocidade habitual. Perguntava-me o porquê de sentir um torpor que me envolvia num sono leve, que se ia tornando bastante mais profundo a cada quilómetro percorrido. Ainda me lembro de estar bem consciente durante a leitura do panfleto e do momento em que descobri que com os passageiros do comboio também podiam viajar cães. Mas já me sentia muito menos consciente quando me apercebi que também era permitido viajar com cavalos nas carruagens de carga! Não sei dizer se chegámos à estação londrina, porque não recordo pormenor algum desse momento, nem de qualquer outra situação real na estada na capital britânica. No entanto, se me perguntarem o que fiz nesses dias londrinos tenho uma história para contar e num relato sem hesitações. Será verdadeiro?

A estação estava ao rubro. Centenas de pessoas movimentavam-se sobre as plataformas onde os comboios descarregavam outras centenas de passageiros, como era o caso do nosso TGV. Sena descera primeiro que todos os outros e, a partir desse momento, nunca mais deixou de liderar o quinteto pelas ruas da cidade. Encaminhara-nos para a porta de saída como se fosse um seu trajeto habitual e fizera sinal ao primeiro táxi estacionado na paragem para que nos viesse buscar ao outro lado da rua. Daí, seguimos para o grande armazém Harrod"s, onde nos dividimos em dois grupos. Homens num e mulheres noutro, ambos em busca de um guarda-roupa condigno para a semana que se previa durar a estada em Londres e, também, para os acontecimentos sociais em que deveríamos participar.

Sena pediu às mulheres para comprar vestidos para três jantares formais, um lanche importante e dois serões sociais. Úrsula recomendou às duas empregadas que, para além destas ocasiões, deveriam adquirir "aquela roupa". Não percebi o que teria esse evento de especial para que o trio de mulheres se vestisse de um modo específico, mas também não foi situação que me preocupasse. Quanto a nós, homens, Sena mais uma vez não hesitou e, pegando-me na mão, levou-me para o piso superior, onde um alfaiate nos sugeriu três fatos negros e meia dúzia de camisas a condizer. O meu anfitrião pediu para que, após os acertos de costura necessários às nossas alturas e barrigas - no seu caso -, a roupa fosse entregue no hotel até ao fim da tarde, local onde pagaria de imediato a despesa.

Voltou a pegar-me na mão e levou-me em direção à saída mais próxima da rua que ia dar ao Museu de História Natural, a algumas centenas de metros de distância do Harrod"s.

- Vamos passear um pouco por lá enquanto não temos roupa para vestir. Com o cheiro dos animais empalhados ninguém notará o nosso!

O lanche decorreu quase em silêncio quando comparado com a sua tagarelice com Úrsula durante a viagem de comboio. Mal nos sentámos à mesa do restaurante do museu, Sena perguntou-me se eu tinha prestado atenção ao que ele e a nossa nova companheira falaram:

- É muito importante que tenha presente na sua cabeça muitos daqueles pormenores para podermos redigir mais este capítulo sobre a vida de a Besta e de como foi enganando os escritores de quem se aproximou. Ela deu-nos pistas muito boas.

Gostava de lhe dizer que sim mas não fui capaz. Optei pelo silêncio, porque continuava a sentir-me como se estivesse ainda dentro do túnel sob o Canal da Mancha. Ouvia um zumbido constante e tudo o que via era nublado por uma névoa que persistia em manter-se nos meus olhos. A única visão que recordava desde que entrara no museu era a do enorme dinossauro que estava no salão de entrada, um esqueleto que me pareceu até ter vida quando o olhei. Era culpa do ruído provocado por centenas de estudantes que visitavam a instituição; deixara-me ainda mais atarantado, tanto assim que ao passar numa ala onde estava pendurada no teto uma enorme baleia achei que estava no interior de um gigantesco aquário.

O que se passara naquele túnel, de onde ainda não conseguira sair por completo? Teria sido drogado por ordem do Sena para não poder testemunhar algo que estava para acontecer? Seria cansaço após uma viagem de muitas horas e em vários comboios? Ou estaria a aproximar-me perigosamente de a Besta e esta era a forma de me defenderem? Estava nestes pensamentos quando chegaram as três mulheres, no preciso momento em que nos levantávamos da mesa para nos encaminharmos para assistir à sessão de lançamento de uma biografia sobre o escritor de policiais que nos interessava estudar e cujo autor estava nessa tarde no auditório do museu. O livro sobre Ian Fleming tinha um título muito comprido e, mal o autor começou a falar do seu trabalho, distraí-me com os pássaros que ouvia chilrear através da janela.

Mesmo distraído ainda ouvi algumas das palavras de quem escrevera sobre Fleming. Mas o mais interessante foi o momento em que o autor, um senhor de nome Gardiner, respondeu às várias questões de um jornalista, que se dizia chamar Mad, sobre o escritor de policiais.

- O seu livro aponta uma série de noções cabalísticas e místicas escondidas nos últimos livros de James Bond. Fleming, perito em criptografia, foi contemporâneo de a Besta e também esteve envolvido em práticas ocultas. Acha que os livros as escondem?

- Ian Fleming esteve certamente interessado em investigações sobre o ocultismo, até porque muitos dos seus amigos o praticavam. Desde os 19 anos que Fleming se interessava pelo mundo esotérico e trocou correspondência com a Besta. Foi com os seus conhecimentos de ocultismo que pretendeu criar um grupo na Divisão Naval dedicado à Inteligência Negra, o G6.

- Diz que a personagem Bond foi inspirada em John Dee, um astrólogo e astrónomo da corte de Isabel I, que viveu no século XVI, praticante de filosofias herméticas e um das mais importantes ocultistas da época, que se correspondia com a rainha sob o nome 007. É a prova de que os livros de Fleming escondem elementos simbólicos?

- Claro. Dee é considerado o fundador dos Rosa-cruzes e há muitas influências desta seita nos policiais de Fleming. O mestre rosa-cruz era chamado de M, como se chama a chefe de James Bond. Quanto a pergunta se foi possível que Bond fosse inspirado em John Dee, só posso dizer que já temos duas coincidências: o 007 e o M.

Como a sessão ainda continuou por mais de meia-hora, deixei de prestar atenção à algaraviada de suposições que um e outro faziam sobre o ocultismo e o ocultado nos romances policiais do agente secreto. Em tudo, pensei, se pode encontrar significados que nos escapam à primeira vista porque apenas achamos que estamos a ler ficção. E foi assim que passei a dar mais importância à busca do meu anfitrião.

Após terminar a visita ao museu, Sena voltou a pegar no meu braço e a levar-me sempre a seu lado. O quinteto estava reunido, os eventos da tarde dados por encerrados e restava-nos uma noite de descanso pela frente.

- Amanhã, há que levantar muito cedo minhas senhoras. O dia vai ser longo!

Sena comandava o grupo com mão de ferro e achei melhor pedir-lhe autorização para dar um passeio. Sena respondeu negativamente ao meu pedido.

- Vê-se que está muito cansado. Essas olheiras debaixo dos olhos assustam qualquer um.

Não me olhei ao espelho para confirmar a afirmação, decerto seria verdade.

- A vossa roupa deve estar nos quartos. Amanhã, usem o traje marcado com o número 1.

Ainda pensei sair do quarto discretamente e ir passear, mas não me foi possível dar mais do que os passos necessários até à cama. O túnel continuava a perseguir-me e cada vez mais parecia-me que ainda não saíra de dentro dele. Durante a noite, sonhei que as águas do Canal da Mancha embatiam furiosamente contra as paredes do túnel e que, ao encontrarem uma brecha no cimento, iam danificando a estrutura e preparavam-se para o inundar. Ainda me tentei convencer que de noite todos os receios ultrapassam a realidade, quanto mais não fosse porque o túnel estava construído sob o fundo do mar e as ondas não podiam embater contra as suas paredes. Por mais que me tentasse acalmar, os sonhos mantiveram-se durante a noite toda. A dado momento da madrugada, estendi a mão sobre a cama e reparei que a jovem não tinha vindo dormir comigo. Ainda esperei uns minutos, pois poderia ter ido à casa de banho, mas como não apareceu, adormeci a perguntar porque é que ela teria vindo se não era para me fazer companhia.

A jovem desaparecera nessa noite e assim continuou por mais duas. O mesmo aconteceu a Úrsula e à empregada, ambas também fora da minha vista durante o mesmo período. Não me apercebi de imediato do facto, porque essa seria a menor das minhas preocupações nas próximas 48 horas.

Ao acordar, recordei o aviso de Sena para vestirmos o traje número 1 e assim fiz. Quando me olhei ao espelho confirmei o que já previa enquanto ia envergando as várias peças que compunham a vestimenta. Estava pronto para me fazer notado mesmo que as ruas fossem as de Londres, onde não era assim tão improvável cruzar com homens vestidos de fraque e cartola. O meu anfitrião veio entretanto confirmar se eu tinha sabido vestir-me e, após alguns acertos seus, saímos do hotel.

Sena disse o destino ao motorista do táxi, mas não compreendi o seu inglês nem o da resposta. O veículo andou pelas ruas do centro da cidade como se percorresse um círculo até que entrou numa avenida larga, atravessou várias ruas perpendiculares e paralelas, desembocando num beco sem saída. Sena pagou ao taxista e levou-me em direção a um muro de tijolos sujos que vedavam qualquer saída. Na parede estava uma portinhola que abriu com uma chave, tornando visível uma espécie de torneira, cujo manípulo rodou. Então, algumas dúzias de tijolos afastaram-se e deixaram em aberto o espaço suficiente para passarmos um de cada vez. Demos mais uns passos, ultrapassámos uma curva e deparámo-nos com um extenso jardim onde, lá bem a fundo, estava um gazebo muito parecido com o que existia na propriedade do meu anfitrião. Continuámos a caminhada até ao pavilhão e daí até uma fábrica decrépita no exterior que passada a porta de entrada, se apresentava em excelentes condições.

No centro da fábrica estavam duas casinhas iguais, uma pintada de preto e outra de branco. Sena fez-me entrar na de cor clara e fechou a porta. Ele, creio, enfiou-se na de cor escura. Fiquei uns instantes sem saber onde me encontrava devido à escuridão, até que os meus olhos se acostumaram à pouca luz. Reparei então num enorme espelho onde via o meu reflexo e ri-me da minha figura. Muito direito e parecido com um gigante, devido à cartola que me proporcionava mais uns vinte centímetros para além do meu verdadeiro tamanho. Tal como acontecia em filmes policiais, não duvidei que estava a ser observado do outro lado do espelho.

O ar parecia ir ficando cada vez mais rarefeito conforme o tempo passava. Já estava cansado de manter-me de pé, sempre na mesma posição, mas não queria deixar o estado de elegância que me fora solicitado. Lembrei-me da tortura da estátua com que seviciavam os presos políticos e sorri porque esse não era o meu caso. A sensação de falta de oxigénio começava a incomodar e a fazer-me arfar, tinha vontade de bater no espelho e pedir por socorro. Mais uma vez sentia-me como se ainda não tivesse saído do túnel que ligava a França à Inglaterra por debaixo do Canal da Mancha. Sensação que não me abandonara até ao momento e, cada vez que o meu olhar se virava à esquerda ou à direita, era como se continuasse a ver as paredes do túnel. Fazia um esforço contínuo para manter os olhos direcionados para a frente. Sentia-me como se tivessem posto umas baias para me obrigarem a ver apenas o que estava adiante, mas não deixava de ouvir um assobio do que deveria ser o ruído provocado pela deslocação do comboio dentro do túnel. Foi no momento em que mudei de posição que vi que o espelho deixara de me refletir e se transformara num vidro que permitia ver o que se passava do lado de lá. Onde uma fumaça esbatia os contornos da decoração e deixava reconhecer um pentagrama desenhado no interior de um círculo pintado sobre o chão da divisão negra.

Quando acordei, senti que estava dentro de uns lençóis conhecidos, os da minha cama do hotel. O meu corpo estava distendido e morno; os sentidos também, mas suficientemente atentos para escutarem partes da conversa que Sena mantinha ao longe ao telefone. Ele estava no seu quarto e eu no meu, mas a porta de comunicação entre ambas as divisões encontrava-se aberta. Ouvi o seguinte: ... superou... cerca de uma hora... causou muito boa impressão... sempre na casa branca... efeito das drogas... não poderíamos encontrar melhor duplo... Voltei a adormecer apesar de querer muito ouvir a conversa. Acreditava que falavam sobre mim e que a expressão "efeito das drogas" descrevia o que estavam a administrar-me para que pudesse ser o tal "duplo". O que seria esta representação? Qual o meu papel?

O Freixo apareceu como desaparecera uns dias antes. Le Chiffre desapareceu como aparecera uns dias antes. E as anotações finais sobre Ian Fleming ficaram registadas em pouco mais de uma hora, de modo a que Sena pudesse ir lanchar como era seu desejo. O que me ditou desta vez de pouco ou nada adiantou para esclarecer o que se tinha passado comigo na viagem a Londres, nem para entender se o que me tinha acontecido fora real ou fruto da febre que, alegadamente, me atingira.

- Tome atenção ao que lhe vou ditar em seguida porque é a razão da nossa próxima investigação: Em Abril de 1953, depois de ler Casino Royale, o escritor Somerset Maugham escreveu uma carta a Ian Fleming para lhe dizer o quanto tinha gostado do seu livro. Dizia o seguinte: "em particular, apreciei a batalha no casino entre o seu herói e Le Chiffre. Conseguiu criar uma tensão do mais alto nível para o leitor". É muito provável que Maugham não soubesse que algumas das características de Le Chiffre eram inspiradas na Besta que, curiosamente, Somerset já utilizara como modelo para a personagem Oliver Haddo, do seu livro O Mágico. Também ele conhecera a Besta em tempos.

Somerset Maugham junta-se a Nabokov para formar Fernando Pessoa

Mais Notícias