A segunda vida de Fernando Pessoa: espólio do poeta muda de mãos

E se Fernando Pessoa regressasse ao presente sob o heterónimo Vicente Guedes, aquele que foi preterido como autor do Livro do Desassossego para Bernardo Soares? Um romance inédito de João Céu e Silva que o DN está a publicar em 12 capítulos.

75 anos após a morte de Fernando Pessoa aparece um homem em tudo igual ao poeta na esplanada do Martinho da Arcada. Chama-se agora Vicente Guedes, um dos heterónimos do poeta, quer voltar a viver na sua antiga morada, onde agora está a Casa Fernando Pessoa, e assume-se como o seu herdeiro literário. Alguém o está a ensinar a ser Pessoa, recuperando os ensinamentos do poeta W.B. Yeats, de Ian Fleming e Somerset Maugham, três autores enganados pelo mago Aleister Crowley. Vicente Guedes sai do Freixo, com a incumbência de comprar certas peças no leilão do espólio deixado por Fernando Pessoa.

Arca e manuscritos de Pessoa para formar heterónimo Vicente Guedes

O Observatório Astronómico parecia aguardar pela minha chegada, tal era o movimento que aí se verificava. Uma estranha concentração de meia-dúzia de carros ocupava a praça em frente ao edifício e vários homens estavam encostados aos veículos, como que a aguardar por uma ordem. Afinal, esperavam-me mesmo. Eles e o porteiro enervado que, mal me viu, correu na minha direção para informar que a arca já estava à minha disposição. Quanto aos homens ali reunidos, explicou-me, eram os ocupantes dos carros que iriam acompanhar-me até à leiloeira e que, após a recolha do móvel, seriam responsáveis pelo meu regresso ao Freixo em segurança. Achei que era gente a mais, que ainda por cima davam nas vistas, mas nada disse. Sabia que o porteiro obedecia a ordens de Sena e não valeria a pena questionar os procedimentos. Assim sendo, reuni os meus pertences num instante e pouco depois partia com os membros do grupo que me iria escoltar no regresso até à casa de Sena. Ainda tentei conversar com o trio que me conduziu até à leiloeira, mas nenhum deles deu qualquer resposta às minhas tentativas de diálogo. Imitei-lhes o silêncio e fui espreitando a paisagem citadina enquanto ela ainda existia.

A entrega do móvel foi rápida e em poucos minutos estávamos de volta à cidade, que atravessámos de um lado ao outro até entrarmos na autoestrada em direção ao interior do país. Considerei o trajeto estranho porque não era o mais direto e, mais uma vez, perguntei-lhes o que se passava. De novo se mantiveram em silêncio e assim seguimos durante um par de horas, até que reparei que já estávamos a ser acompanhados pelos outros carros que antes me aguardavam à porta do Observatório Astronómico. Então, aquele que parecia ser o chefe entregou-me um envelope, igual aos que Sena enviava as suas instruções. Era de poucas frases, somente informava que devido ao perigo que a arca corria, eu seria acompanhado por este grupo de pessoas de sua confiança até ao Freixo. A terminar o bilhete, informava-me de que deveria seguir todas as ordens que me fossem dadas porque eram suas. Despedia-se com cumprimentos e nem mais uma palavra.

O que descobri nas horas seguintes era digno de um argumento de um filme, de tão irreal e impensável. Sena decidira que eu regressaria com a arca fazendo parte de uma caravana de ciganos. Só então entendi porque é que também me pedia na carta para não fazer a barba! A intenção, penso, era dificultar a localização do móvel por parte de eventuais ladrões interessados nele. Mas, pensei, também não era poderia ser só o receio perante um vulgar assaltante que me escolhesse como alvo da sua atividade, temeria sim que houvesse outros interessados na arca e que se tentassem apoderar dela. Ou até, creio que esta era a justificação mais razoável, que o inimigo pertencesse a alguma das sociedades secretas ligadas à Besta e que desejasse arrebatar a arca por alguma razão que desconheço. Então, desconfiado de situações que na sua cabeça seriam muito fáceis de vir a acontecer, Sena decidiu encobrir o transporte sob a capa de uma caravana de ciganos em mudança de acampamento. Já não estranhava o que me acontecia e, assim sendo, limitei-me a cumprir as instruções que estavam dentro do envelope.

O segundo grupo de ciganos esperava-nos mais à frente, onde o desmontar do acampamento onde estavam a viver se aproximava do fim. Em menos de meia hora, já a caravana estava em movimento em direção às bandas do Freixo. Se me perguntassem como é que imaginava que fosse o grupo, diria aquilo que é apropriado aos mitos e visões mais habituais sobre esta etnia, mas bastou-me esses minutos de azáfama no desmontar do acampamento para ver que estes ciganos tinham particularidades bem diferentes das descrições habituais sobre o povo nómada. Que me foram explicadas por um elemento que também pouco tinha a ver com a caravana, ou seja, um investigador que andava a estudar a população cigana para escrever uma tese de doutoramento.

Ao princípio não notei diferenças físicas ou de vestuário entre o acompanhante e os membros daquela comunidade. Nem mesmo quando ele veio falar comigo fui capaz de ver qualquer diferença! Só lá para o terceiro dia de caminhada é que ele se apresentou e revelou o que fazia. Não me surpreendeu o facto de haver um professor entre ciganos pois, já o disse, cada vez estranhava menos o ambiente com que me confrontava desde que estava a mando do meu anfitrião. Aliás, ao saber que regressaria numa caravana de nómadas, pensara-me integrado num cordão de carroças puxadas por cavalos e burros, com alguns animais domésticos presos aos veículos por cordas, mas não fora nada disto que acontecera. Estes ciganos eram motorizados e já tinham deixado o tempo das carruagens há bastante, faziam-se transportar em carros e carrinhas, mesmo que atafulhados de mercadorias para comercializar e de outros pertences próprios da vida de quem anda sempre a mudar de habitação.

Adolfo, era como se chamava o investigador, tinha reparado em mim logo ao início e sentira-se tentado a saber quem seria o novo passageiro, até porque era pouco frequente o grupo levar alguém consigo que não fizesse parte da comunidade. Confessou-me que não o fizera logo porque pressentira que, ao satisfazer essa sua curiosidade, iria desgostar os ciganos que o tinham recebido um pouco contrariados. Fora bem difícil conquistar-lhes o à-vontade com que agora convivia com todos e que lhe permitia realizar os estudos necessários para o trabalho universitário que tinha em curso, a observação de comportamentos e de recolha de tradições. Adolfo era falador e ao fim de poucas horas já me tinha transmitido muito do seu saber sociológico sobre a escolta que se comprometera a entregar a arca - e a mim - a Sena. Fez as suas explicações de uma forma muito diferente do que quando falava sobre coisas extracurriculares, momento em que não adotava a personalidade de professor.

Já conversáramos sobre o seu projeto de estudos o suficiente para eu adivinhar que, se lhe contasse a minha aventura desde que estava contratado por Sena, ele ficaria seduzido pela ideia de investigar cientificamente uma comunidade como a do Freixo. Onde nada acontecia também às claras, como se verificava com esta dos ciganos que me conduziam há vários dias por locais inóspitos e desertos. É que a terra do meu anfitrião ficava a poucas horas da capital e não a tantos dias como os que já contava esta viagem. Havia algo de estranho no percurso, até porque o país não tinha dimensão física para este tempo de caminhada em carros. Ninguém parecia achar esta demora estranha, nem o próprio investigador, e também ninguém era capaz de me dar uma explicação sobre uma distância impossível de existir. Por vezes pensei que teríamos saído do país e atravessávamos parte do continente europeu, mas o meu conhecimento geográfico e paisagístico mostrava que isso era quase impossível. Havia sim um número inusitado de subidas e de descidas para a quantidade de montanhas que separavam a capital e a aldeia, tantas que a dado momento até essa questão deixou de me incomodar por ser incompreensível. Sabia que eles não falhariam o compromisso com Sena, portanto estaria no bom caminho, fosse ele qual fosse.

De qualquer modo, para que não pudesse ser culpado de algum desleixo, todos os dias e por várias vezes verificava se a arca ainda fazia parte da carga da caravana. O cigano que parecia ser o chefe estranhava esta minha obstinação diária, mas jamais me contrariou, talvez por achar que eu tivesse muito mais importância junto da hierarquia que dependia de Sena do que na verdade possuía. A arca lá estava, escondida debaixo de uns tapetes persas, só que com um pouco mais empoeirada do que quando me fora entregue pela leiloeira.

Entre os factos estudados pelo investigador estavam temas sobre os quais eu nunca pensaria ter interesse mas, confrontado com certos hábitos da minha escolta, até passei a achá-los curiosos. Tal como o de não ser fácil identificar a comunidade cigana no nosso país porque provinham de muitas origens geográficas, uma situação que criava um problema de diferenciação social que gerava bastantes conflitos. Depois disse-me que o número da população que vivia na Europa era pequeno, apenas 150 mil ciganos, e que tinham vindo para a Península Ibérica no século XIV e que era a comunidade que partilhava o território há mais tempo com os seus habitantes naturais. Ia-me contando estas particularidades enquanto sentados no banco de trás da carrinha que nos transportava, em tom de voz baixo e para não ser ouvido pelos ciganos que iam no da frente. Ainda lhe perguntei a razão de demorarmos tanto tempo a chegar ao destino, mas foi uma questão a que não me soube responder. Apenas confirmou o que eu já compreendera: o tempo passado entre os ciganos arrastava-se para além do imaginável.

Não foi sem surpresa que, ao fim de mais uns dias, reconheci a única rua da povoação onde Sena morava e que desentorpeci as pernas ao subir as escadas para anunciar a chegada ao meu anfitrião. Quem nos recebeu foi a jovem, já que Sena e a outra mulher estavam ausentes. Ela tinha um novo envelope com instruções, que eu li. O seu conteúdo não referia nada em especial, apenas que deveria acompanhar detalhadamente o depósito da arca numa divisão da casa que a empregada indicaria, e agradecer ao responsável da caravana o favor que fizera a Sena. Assim fiz, assistindo ao transporte do móvel; fechando a porta da salinha onde ficara; acompanhando os ciganos de volta à carrinha; despedindo-me deles com a mensagem que Sena mandara dar; e abraçado o investigador, que continuaria a viagem interminável exigida pelos seus estudos. Não posso dizer que o Freixo estava diferente. Nada existia de palpável para eu chegar a esta conclusão, mas não tinha dúvida de que assim era.

A chegada de Sena apanhou-me no quarto com a jovem ao meu dispor. Depois daquele primeiro fim de tarde, amá-la em sessões contínuas fora a minha ocupação. Quando refiro o verbo amar, não estou a utilizá-lo no verdadeiro sentido, apenas a tentar dar um sentido mais romântico à atividade que me ocupara durante os dias de folga entre o regresso ao Freixo e a chegada do meu anfitrião. Amor era uma definição impossível entre nós, quanto mais não seja porque a jovem oferecia-se em corpo mas jamais de forma emocional. Imitava bem, confirmo, o sentimento de estar apaixonada pelo modo como se entregava às práticas físicas. Sussurrava, esgatanhava, contorcia-se e cansava-se entre as paredes do quarto mas, para lá da porta, a jovem adquiria outra personalidade. Se tivesse de a descrever, era como se se transformasse numa sacerdotisa de comportamentos imaculados!

Nenhuma das suas formas de ser me espantava, afinal os meses que levava como empregado de Sena mostravam-me que à sua volta o mundo era bastante diferente do do exterior - o meu. Mesmo sendo tão díspares os dois mundos, cada vez me sentia menos desenraizado neste modo de vida, tanto que se o meu anfitrião me convidasse a iniciar uma nova etapa da minha vida no Freixo talvez me sentisse tentado a dizer que sim. Viver parecia muito mais fácil quando se estava na dependência dele, com os cheques a serem depositados na minha conta, um emprego de trabalho fácil, viagens, cama e mesa. O que mais poderia querer um professor?

Mas o facto é que a chegada de Sena obrigou-me a um despertar violento, que exigiu rapidez e boa compostura em segundos. Fora o próprio que pusera à disposição o corpo da jovem, mas eu sabia que ele não desejava ser confrontado com essa oferta carnal com que me seduzira e amaciara para estar à sua disposição por inteiro.

- Vamos ver a arca!

Esta foi a ordem que proferiu mal me apresentei à sua frente. Decerto que Sena desejava ser recompensado pelo esforço que fizera para adquirir aquela peça do legado do poeta observando-a o mais rapidamente possível. Assim aconteceu mal abriu a porta da divisão onde os ciganos a tinham descarregado. Bem no centro da salinha, lá estava a arca, aguardando pelo toque das mãos de Sena que se seguiu mal entrou na divisão. Ajoelhou-se em frente ao móvel e sentiu a dureza da madeira que tinha sido trabalhada há muitas décadas por um carpinteiro habilidoso. Deslizou as mãos sobre os cantos, arrepiou-se com o frio da fechadura e das dobradiças e apalpou toda a madeira da arca até se decidir abri-la. Enquanto se divertia a tocar na sua aquisição, eu imaginava qual teria sido o prazer de quem um dia a abrira e se surpreendera com a descoberta de um tesouro de papéis com versos e prosa, que iriam fazer famoso o nome de Pessoa. Infelizmente, Sena não teria a sorte de, mediante a fórmula mágica de um abracadabra, fazer com que a arca se enchesse de páginas. Nem toda a influência e riqueza de um homem permitiria recriar um momento como teria sido o da vez anterior, mesmo que fosse esse o seu último desejo na vida. Disso estava eu certo quando chegou o momento solene de destapar aquele meio metro cúbico de vazio.

Fiquei confuso com o que se seguiu... Sabia da capacidade de Sena para baralhar a realidade, mas jamais acreditei que fosse brilhante o suficiente para possuir a ilusão que mais desejava. Eu ouvira e lera a decisão sobre o destino do lote que continha o dossier com a relação entre o poeta e a Besta; sabia que tinha sido adquirido pela Biblioteca Nacional ao fazer prevalecer o seu direito de propriedade sobre esta parte do legado; e entendera o desgosto que essa disputa perdida lhe causara... Por isso, agora dificilmente acreditaria que ao ajoelhar-se em frente à arca, acontecesse o milagre que os meus olhos viram: Sena estava de posse do dossier que lhe fora proibido comprar no leilão.

Com a determinação dos primeiros dias de trabalho, Sena só me disse:

- A Besta! Voltemos à Besta.

Recordava-me destas palavras como se tivessem sido pronunciadas há minutos e não há vários meses. O meu anfitrião recuperara o entusiasmo dos seus primeiros ditados e seguia à minha frente, com o dossier entre as mãos, e em passo rápido. Foram dias de muita escrita. Sena chamava-me sempre pela tarde e, ao fim de alguns dias, entendi que reservava a manhã para ler os documentos do dossier. Como já tinha preparado o trabalho, ditava com mais rapidez do que era habitual e focava o seu interesse na correspondência trocada entre Pessoa e a Besta. Foi assim que fiquei a saber que antes de este contactar o poeta teria mantido conversas com um outro escritor, Raul Leal, também seu conhecido. Pelo que entendi, a Besta depressa percebeu que Pessoa seria muito mais crente nos temas do ocultismo e, portanto, mais fácil de iludir. O facto de Pessoa ter descoberto o erro no horóscopo de a Besta ter-lhe-ia mostrado que se uniam no poeta a crendice e o desejo de protagonismo numa circunstância que lhe seria favorável. E, mesmo que o poeta tenha evitado as primeiras tentativas de a Besta para marcar um encontro pessoal, até com a sugestão de se deslocar a Londres, depressa compreendeu que lhe seria impossível evitar conhecerem-se.

Não tendo acontecido a viagem à capital inglesa, um telegrama informou-o de que a Besta chegaria ao cais de Alcântara a 2 de Setembro, o que se verificou; acompanhado da sua jovem amante de 19 anos; que muito impressionou o poeta e o fez escrever quatro quadras profundamente eróticas, em que referia: "Seu corpo meio maduro", no quarto verso, e, nos que se seguiam, "Seus seios altos / (Se ella estivesse deitada) / Dois montinhos que amanhecem / Sem ter que haver madrugada", para terminar de um modo um pouco desbocado: "Appetece como um barco / Tem qualquer coisa de gnomo / Desejo, quando é que eu embarco? / Ó fome, quando é que eu como?"; o fez servir de criado à Besta, indo buscar correspondência para o casal e fazendo de relações públicas para com os interesses de a Besta; lhe permitiu saber da natureza muito sexual dos relacionamentos com mulheres de qualquer idade do seu visitante; o obrigou a ser detetive para observar os passos de a Besta pela sua terra... Até que um dia, este desapareceu na Boca do Inferno, deixando um bilhete dado a muitas leituras e especulações ao fingirem um suicídio, para reaparecer dias depois em Berlim.

Não estava preparado para digerir tantas informações como as que Sena me ditava, mesmo que algumas parecessem esclarecer partes dos apontamentos dos primeiros tempos. A novidade estava nos pormenores da correspondência entre Pessoa e a Besta a propósito da preparação do alegado suicídio do mago e na confirmação - por via de cartas e telegramas trocados entre ambos - de que houvera uma simulação no ato desesperado do estrangeiro. Outra novidade era o provável livro que o poeta queria escrever baseado no suicídio e na investigação posterior conduzida pela polícia, sobre o que ainda redigiu algum texto a coberto da pretensa autoria de um detetive britânico que nunca terá existido e com o único objetivo de ganhar umas centenas de libras com a sua publicação.

Sena não opinava, apenas ditava, mas a minha curiosidade residia nas razões que levaram o poeta a pactuar com esta encenação na Boca do Inferno que, ainda por cima, fora coisa bastante noticiada nos jornais portugueses, franceses e ingleses de então. Demasiado curioso, decidi questionar Sena sobre essas razões. Ele, apesar de surpreendido com a minha interrupção, respondeu que Pessoa era muito dado a mistérios e até gostava de escrever guiões para filmes de aventuras policiais. Depois desta resposta, interrompeu as notas e voltou às suas leituras. Antes de me dispensar, entregou-me umas quantas folhas e mandou ler um texto intitulado "Nota para um thriller disparatado ou para um filme", onde Pessoa escrevera: "X., o milionário que tem vivido numa espécie de retiro algures no interior da América vem à Europa com a sua fabulosa coleção de diamantes (? ou de valores semelhantes). Sabe-se que vai viajar no Cantábria e diversas quadrilhas de vigaristas estão no seu encalce (...). O navio parte e uma rapariga pertencente a uma das quadrilhas de vigaristas enceta uma calorosa amizade com o milionário. Esta confidencia-lhe que pensa conseguir transportar os diamantes para a Europa sem perigo (...). No final, X nunca esteve a bordo e os diamantes nunca estiveram a bordo (...)"

- Essa parvoíce foi escrita por ele. Era muito dado a acreditar no que lhe quisessem impingir, coitado!

Concordei com Sena quando acabei de ler o pretenso guião que o poeta escrevera com objetivo de servir de argumento para um filme.

Quando acordei na manhã seguinte, tinha na mesa-de-cabeceira um outro molho de folhas sobre as aventuras literárias do poeta. Não sei porque é que Sena me estava a proporcionar este tipo de leituras, procedimento pouco habitual nos seus modos, mais adeptos do segredo do que da banalização de certos conhecimentos. Como não seria chamado antes da tarde para trabalhar, entretive-me a ler esses apontamentos. Tratava-se de quatro esboços de histórias policiais, um tema que afinal interessava bastante a Pessoa, como fiquei a perceber após a leitura de alguns parágrafos de uma personagem de policiais que o poeta criara - Quaresma, Decifrador:

- "Causou-me, há meses, dolorosa impressão encontrar, no meu jornal da manhã, no fim da necrologia, a notícia de haver falecido em Nova Iorque, "onde estava de passagem" o cidadão português Dr. Ambrósio Quaresma. Sonhador sempre, fechado no seu alcoolismo impenitente e no seu raciocínio já quase automatizado."

- "Charadas, problemas de xadrez, quebra-cabeças geométricos e matemáticos - alimentava-se destas coisas e vivia com elas como com uma mulher. O raciocínio aplicado era o seu harém abstrato. Aquele quarto no 3. Andar da Rua dos Fanqueiros, a que ele era tão fiel como à sua renúncia à vida, conheceu orgias de compreensão e solução que nenhum orgíaco da carne poderia acompanhar na sua experiência."

- " O sr. julga que as minhas investigações são investigações por assim dizer físicas, que sigo gente, e examino o local do crime, e tomo medidas do chão. Não é nada disso. Eu resolvo os problemas, em geral, sentado numa cadeira, em minha casa ou noutra parte qualquer onde me possa encostar confortavelmente, fumando os meus charutos Peraltas, e aplicando ao estudo do crime praticado aquele raciocínio de natureza abstrata que foi o triunfo dos escolásticos e é a glória bizantina dos homens que argumentam sobre puras futilidades."

- "Amargou-me na alma isto de um homem como Quaresma nem um dia ter de fama. Bem sabia eu que ele não a buscara nunca - sonhador sempre, fechado no seu alcoolismo impenitente e no seu raciocínio já quase automatizado. Mas a justiça segredava-me, não sem intimativa na sua voz secreta, que essa fama era devida, que não a ter ele buscado nada tinha com o ser justo tê-la."

Eu, que pouco percebo de policiais, compreendi que a palavra raciocínio se repetia demasiadas vezes para que o detetive Quaresma, cognominado de o Decifrador, pudesse ter tido aquele sucesso com que o poeta sonhara e que só uma narrativa decalcada da pretensa morte de a Besta o poderia inspirar sem ser de forma abstrata e impenitente!

Sena ainda me convocou mais duas tardes. A operação de vasculhar o dossier estava quase no fim tal era a rapidez com que trabalhava, apesar de sentir alguma estranheza em relação ao pouco sumo que resultava da leitura de tantas páginas, bem como do tão grande esforço para arrebatar este lote no leilão. Desconfiava que as centenas de páginas conteriam muitas mais informações do que aquelas que me foram ditadas, mas nada podia fazer em relação a isso, pois não era da minha competência a investigação. Ao fim da segunda tarde, avisou que as anotações que me ditava iam terminar e, esquecendo o tema de trabalho, disparou-me uma pergunta que iria alterar a rotina dos nossos próximos dias.

- Acha-se capaz de conduzir o Chrysler?

Demorei alguns segundos a compreender o alcance da sua questão, a que respondi que sim, de tão esquecido que estava do velho carro guardado na garagem. Aquele que há uns meses prometera oferecer-me no final do contrato. Então, compreendi que Sena estava a poucas horas de me libertar do contrato que nos ligava.

- Ainda faltam umas semanas para terminar a nossa ligação, mas por agora não vou precisar mais de si. Creio mesmo que não nos veremos mais.

Após alguns minutos de silêncio, o meu anfitrião fez questão de informar que eu receberia os honorários estabelecidos até ao fim. Tive uma sensação de vazio a crescer em mim e que era incapaz de eliminar na forma como se expressava: angústia. Decidi, então, procurar um hotel onde ficar, já que não tinha ninguém a quem bater à porta para me dar dormida.

Amanhã: Descida às caves do Diário de Notícias

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