A segunda vida de Fernando Pessoa: Aleister Crowley chega a Lisboa

E se Fernando Pessoa regressasse sob o heterónimo Vicente Guedes, o que foi preterido como autor do Livro do Desassossego para Bernardo Soares? Um romance inédito que o DN está a publicar em 12 capítulos, de autoria do grande-repórter João Céu e Silva, autor de quatro livros de ficção.

75 anos após a morte de Fernando Pessoa aparece um homem em tudo igual ao poeta na esplanada do Martinho da Arcada. Chama-se agora Vicente Guedes, um dos heterónimos do poeta, quer voltar a viver na sua antiga morada, onde agora está a Casa Fernando Pessoa, e assume-se como o seu herdeiro literário. Como surgiu Vicente Guedes?

Aleister Crowley chega a Lisboa e Pessoa está à sua espera

A primeira frase que me ditou foi esta: "A besta tinha 55 anos quando desembarcou em Lisboa."

Antes de continuar, olhou para os meus apontamentos e fez uma primeira correção.

- besta será sempre com B maiúsculo, se faz favor.

Certo, respondi, enquanto apagava o b e colocava o B pretendido na palavra Besta. Em seguida, disse mais umas palavras: Descera as escadas do navio Alcântara no dia 2 de Setembro de 1930, um dia depois da data prevista para a chegada. A razão era fácil de explicar, devia-se ao mau tempo que se abatera sobre a rota do navio, que foi obrigado a permanecer em Vigo mais um dia do que o necessário por precaução. Mesmo com aquela figura monstruosa, Fernando Pessoa teve dificuldade em o reconhecer tal era a neblina que cobria o cais onde desembarcavam os passageiros.

- Vou precisar que me confirme a descrição da chegada da Besta no livro de um senhor que já morreu, mas que fez um registo de confiança sobre este momento e que será fundamental nos próximos dias para o que estamos a escrever.

Disse-lhe que sim e perguntei como é que o poderia consultar. Ele apontou para a estante e indicou vagamente o lugar onde estaria o volume.

- Está na letra J, de João Gaspar Simões... Encontrou?

Havia mais do que um volume deste autor e tive alguma dificuldade em descobrir o título, porque as capas estavam velhas e as letras quase desaparecidas. De posse do livro exato, entreguei-o ao Sena [em pensamento tratava-o sempre assim], que o folheou pacientemente até achar o trecho que desejava.

- É esta a parte que eu quero: "Em terra, Fernando Pessoa, transido e tímido, vê avançar para ele um homem alto, espadaúdo, envolto numa capa negra, cujos olhos, ao mesmo tempo maliciosos e satânicos, o fitam repreensivamente, enquanto exclama: "Então que ideia foi essa de me mandar um nevoeiro lá para cima?""

Achei que tudo aquilo que me estava a ser ditado, bem como a consulta ao livro da estante, era um disparate, mas não poderia desistir logo ao primeiro dia. Principalmente, quando anunciou que interrompíamos o trabalho com a justificação de que "por hoje é suficiente". Louco, mas não cansativo!

- Sabe que quando a Besta morreu os seus discípulos entoaram o Hino a Pã que ele escrevera e que o Pessoa tinha traduzido e feito publicar naquela revisteca do Régio, a Presença. Que por acaso era o número 33 do ano de 1933!

Voltemos a umas horas antes... Quando o autocarro parou, pressenti que chegava ao fim do mundo e que aquele seria o lugar onde poucos quereriam viver se não estivessem desesperados ou à morte. Como era o caso do homem que me contratara e a quem disse sim por não poder dar outra resposta. Estendera o braço e apertara-me a mão na primeira vez em que nos víramos e dissera chamar-se Sena. Antecipei-lhe um doutor por sugestão da secretária que me abrira a porta do escritório, ao mesmo tempo que lhe dizia o meu nome. A seguir, convidou-me a sentar e não perdeu tempo para entrar no assunto que me levara até ele. Foi dizendo que não era tarefa difícil para quem tivesse as minhas habilitações e que seria paga de acordo com a sua fortuna. "Muita", foi a palavra que utilizou para definir, primeiro, a minha capacidade, e, segundo, a sua riqueza. Era educado, pensei, e rico, depreendi, o suficiente para justificar o ano de licença sabática na universidade que me estava a ser exigido caso aceitasse o cargo.

- Não percamos mais tempo porque isso é a única coisa que me falta.

Eram assim as suas frases. Curtas e diretas. Normalmente, após pronunciar poucas palavras, deveria pôr à frente de quem queria contratar uma folha de papel onde estava explicado o que desejava. Comigo foi assim, uma página simples, onde escrevera o seguinte:

Destino: Freixo.

Ocupação: invenção literária.

Duração: 365 dias.

Pagamento: a acordar.

Escrito à mão e com tão poucas palavras... Não eram informações suficientes para entender o que quereria exatamente de mim. Perguntei-lhe o que significava "invenção literária"... Olhou para mim, com algum espanto porque pensara ter sido suficientemente claro.

- É professor de literatura? Já escreveu meia dúzia de livros?

Respondi afirmativamente às duas perguntas.

- Quero que torne interessante um livro que lhe vou ditar, que pretendo deixar pronto antes de partir para a eternidade que me espera.

Quando o doutor Sena acabou a frase, agradeci a mim mesmo ter sido comedido e não ter perguntado, a seguir a "Quero que torne interessante um livro que lhe vou ditar", se o que queria de mim era o trabalho de um escritor-fantasma ou com assinatura. Fiquei surpreso com a sua abordagem e, por instantes, sem saber o que lhe responder. Não por muitos, porque o valor que me pagava, que acrescentou na folha que pusera antes à minha frente, tornou a proposta muito sedutora.

- Então, podemos assinar o contrato?

Voltemos ainda um pouco mais atrás... O Freixo ficava à distância de oito horas de autocarro da minha casa. Era no fim do mundo, assim como o sítio onde acaba o país e fica o ponto habitado mais a norte. A viagem correu bem, sem percalços a não ser a minha vizinha malcheirosa ou, para quem gostasse do aroma, bem cheirosa a fritos e que a meio do percurso já me tinha entranhado o seu odor na minha roupa, mesmo havendo uns centímetros a separar-nos.

Ainda estive para lhe perguntar se morava no Freixo, mas desisti de o fazer porque preferia dormir em vez de tagarelar durante as oito horas que se previam enfadonhas. Se ela fosse de lá, ainda pensei, poder-me-ia contar como era a povoação, descrever as suas ruas e revelar a intriga do momento - mas preferi dormir. De qualquer modo, entendi-o mal pisei o chão do Freixo, só um bom contador de histórias teria sido capaz de fazer a verdadeira antevisão do local que me aguardava e esta mulher não tinha aspeto de ser muito dada a descrições eloquentes como as que se exigiam. Talvez fosse um bom ser a amassar farinha para bolos, a fritar doces ou lá o que fizesse na profissão que a impregnava deste cheiro nauseabundo. Mas tudo isto não interessa, designadamente utilizar palavras como "nauseabundo" quando fomos pagos para nos sentarmos num autocarro com destino a uma terra e ocupação desconhecidas.

Tentemos antes descrever o lugar onde desembarquei após o fim da viagem, a primeira visão obtida a partir de um pequeno telheiro que fazia a vez de terminal rodoviário. Talvez a melhor palavra para definir a geografia local fosse deserto; no caso da arquitetura: um estilo gótico; sobre a paisagem: inóspita; no que respeita aos habitantes: ninguém; a hora do dia: indefinível; o prazer de chegar: nenhum...

A paragem ficava no princípio da única rua que existia no Freixo. Não eram visíveis transversais, cruzamentos, pracetas ou o que quer que fosse habitual em qualquer povoação. Ao caminhar-se cerca de um quilómetro por essa rua principal, o que acontecia era que deixava de existir Freixo e voltava a ser a Estrada Nacional 101. As casas não tinham número no portão e a maioria das portas estavam entreabertas. Aliás, não eram muitas as residências, nem diferentes na sua fisionomia, conforme observei nessa primeira caminhada entre o início e o fim da rua principal em busca do endereço do Sena. Foi fácil reparar que existiam apenas três tipos de casa: palacetes, casarões e casinhas. Contei quatro do primeiro género, sete do segundo e vinte e duas do terceiro. O Freixo não me poderia surpreender mais!

O meu anfitrião habitava um dos palacetes dispostos sobre a rua principal e ficava, como todas as outras habitações, a uns quantos metros acima do nível do piso asfaltado. Cada casa parecia maior do que realmente era porque vistas de baixo para cima a sua dimensão aumentava em muito. Era assim como um trompe d"oeil natural, que não precisava ser pintado para valorizar o edifício na paisagem. Cada casa ficava numa pequena colina, separadas umas das outras por umas breves encostas, e tinham sempre na parte da frente uma escada que permitia o acesso da rua até à porta de entrada. Todas as escadas eram diferentes e notava-se que os proprietários se esforçavam por diferenciar o seu acesso do do seu vizinho. No entanto, num dos dias a seguir à minha chegada, Sena mostrar-me-ia uma coincidência entre todas elas, a de que todas tinham o mesmo número de degraus. Nem menos nem mais do que exatos 39 degraus entre o piso da rua e a soleira da porta.

Não existia uma razão que obrigasse à igualdade desse número, foi-me dito que acontecera por acaso, mas não acreditei em tal coincidência. Era mais uma das estranhezas do Freixo, das muitas a que me iria habituar nos dias que se seguiriam, e exemplo de como uma terra poderia tornar-se diferente de todas as outras num mesmo país. O mais curioso é que esta forma de não ser igual parecia resultar de um plano arquitetónico profundamente pensado - e melhor executado -, que deveria cumprir um desejo para além da própria vontade dos seus moradores, situação que eu jamais compreenderia se não me fosse revelado. Não iria ao ponto de admitir que o Freixo fosse obra de uma entidade superior, mesmo que houvesse alguma religiosidade sempre presente no que era visível. Como a trindade de tipos de construções que se observavam ao longo da via principal; a clara separação dos moradores por classes diferentes, numa espécie de regime social próprio da muita crendice dos tempos medievais; e a diferenciação de tudo o que se assemelhasse sob ínfimos pormenores, como se uma mão invisível disfarçasse as perfeições. Numa palavra, o lugar parecia uma tela que exigia todos os dias o retoque do artista.

O ambiente na casa do Sena era, definitivamente, gótico. Penso que se o pode descrever assim porque possuía muitas dessas características. Por certo não seria um falso gótico porque, apesar do bom estado, o modo de construção indicava que a estrutura seria anterior ao século XV. Talvez se o pudesse definir como um gótico tardio, mas não escaparia a essa catalogação arquitetónica, e teria sido originalmente um edifício religioso. Sena confirmou-me que poderia ter sido construído por ordem de um antigo rei para a Ordem Cisterciense e ser até a primeira edificação completamente gótica do país. Explicou que também poderia ter pertencido a uma qualquer ordem mendicante - como as dos agostinhos, franciscanos, carmelitas ou dominicanos - e, se assim fosse, seria datada dos séculos XIII e XIV. Ou também a ordens medievais militares dos cavaleiros Hospitalários ou Templários, porque era destituída do gótico flamejante que dominava noutras nações europeias no século XV.

Ouvi as explicações com curiosidade enquanto Sena me passeava pelo seu palacete e mostrava as obras de beneficiação mais recentes. Como era o caso de um coreto redondo que estava no jardim e a que chamava, muito pretensiosamente, o meu "gazebo".

- Sabe que o mandei fazer segundo uma réplica do gazebo que George Washington tinha na sua residência em Mount Vernon!

Claro que nada sabia sobre o pavilhão do presidente norte-americano, nem me interessava muito o conhecimento enciclopédico que continuou a proporcionar.

- Desconhece-se a origem do termo gazebo, mas é certamente muito antigo. Já existia na antiga literatura chinesa e persa, o que contraria uma tese recente de que a denominação surgira pela primeira vez num poema de Ibn Quzman, um hispano-árabe que vivia em Córdova no século XII. E, já agora, informo-o de que Thomas Jefferson também era um grande apreciador destes pavilhões construídos ao ar livre.

A pretexto deste segundo governante norte-americano, ainda desenvolveu mais alguns raciocínios sobre os gazebos.

- Jefferson pretendia construir três pavilhões diferentes na sua residência de Monticello, mas só viveu o suficiente para ver um terminado.

O gazebo, esclareço, seria a exceção à restante arquitetura gótica de que a casa do meu anfitrião era tão representativa.

A Besta! Voltemos à Besta.

Foi esta a exclamação de Sena quando entrou na sala no exato momento em que a empregada estava a colocar um prato com fruta às rodelas sobre a mesa. Via-se que estava tão fresca como as guelras amanhadas de um peixe acabado de ser pescado, tal era o estado de não oxidação das peças e do abundante sumo ainda a gotejar sobre a polpa descascada. Eu não tinha tido direito àquela fruta e olhava-o de modo suficientemente invejoso para que o meu anfitrião tivesse dito à mulher para, a partir da próxima manhã, servir-me o mesmo. Ainda duvidei se preferiria esta fruta à marmelada com que me deliciava - e já agora à manteiga caseira -, disponível numa travessa de vidro posta no centro da mesa. Será que a traição do meu olhar iria proibir-me estas guloseimas a troco de uma boa alimentação, foi a dúvida que se me pôs, rapidamente ultrapassada por outra afirmação de Sena.

- Já agora, que o vejo tão invejoso das minhas coisas, pergunte-lhe se também quer mulher.

Não entendi o que quereria dizer com aquelas três palavras, «também quer mulher», mas já me ia acostumando às surpresas constantes no Freixo e antevia que a qualquer momento a empregada fosse ter comigo para tratar do assunto. Antes de me recompor dessa frase, ouvi outra ainda melhor.

- Verifique se é mesmo de mulher que ele gosta? Não o contrarie, porque preciso dele satisfeito para trabalhar melhor.

Confesso que não percebi o diálogo que por ali ia - melhor dizendo monólogo, porque a mulher só acenava com a cabeça - entre patrão e empregada. Evitei intervir e optei por esperar pelo desfecho. Acabámos a primeira refeição do dia em silêncio e, meia hora depois, encontrámo-nos no seu escritório para reiniciar o trabalho para que fora contratado. Voltou a pegar no livro do João Gaspar Simões, leu um parágrafo e começou a ditar como se não tivéssemos interrompido por uma noite. Avisou-me, no entanto, que teria que colocar uma introdução que explicasse que Fernando Pessoa tinha conhecido a Besta porque lera o seu horóscopo e, ao ver que estava errado, escrevera a dizer-lhe o que tinha descoberto.

- "Recebe, de Londres uma carta de (...) onde o célebre mago dava inteira razão ao astrólogo português seu confrade. Estabelece-se correspondência entre os dois; Pessoa envia a (...) os seus English Poems, e um belo dia o mago anuncia ao seu émulo perdido nos confins ocidentais da Europa que virá a Portugal, propositadamente, para conhecer, em carne e osso, o prodígio astrológico que ele é".

Lidas e avisado sobre as palavras do tal Simões, Sena levantou-se e saiu porta fora.

Continuei sem entender o que seria concretamente o meu trabalho após as primeiras sessões e era difícil avançar no texto para que fora convidado escrever. Até porque Sena pegava num velho livro retirado da estante e ditava-me uns parágrafos de autoria de uma outra pessoa. Não fazia menção de esclarecer qual seria realmente o trabalho e, diga-se, que eu nem sabia quem era a Besta de quem tanto falava. Quando o nome de a Besta surgia no texto de João Gaspar Simões, ele omitia-o na maior parte das vezes e mandava-me abrir parêntesis, colocar reticências e fechar parêntesis.

Vai ser um quebra-cabeças este trabalho, pensei ao fim de poucos minutos de estar sozinho. Não é que me preocupasse com o facto de Sena parecer ser um relator bastante bissexto, nem pela situação de nada entender sobre o que pretendia de mim, afinal antes de vir para o Freixo verificara que o saldo da minha conta bancária aumentara muito para além do que me era habitual contabilizar em dinheiro disponível. Recebera um avanço de seis meses e, a partir daí, a cada dois seria depositado um salário até ficar pago o ano de contrato estabelecido entre nós. Portanto, se sob o ângulo financeiro a relação estava perfeitamente clara, eu deveria deixar-me destas preocupações e ficar minimamente descansado e acreditar que com o passar dos dias tudo seria esclarecido.

Se me questionava se o desejo de Sena era o de que eu lesse o livro que o estava a inspirar, em seguida duvidava que fosse essa a sua intenção, pois após cada ditado, voltava a enfiá-lo no seu lugar na estante. Ou seja, não me restava fazer outra leitura da sua vontade que não a de que desejava que me mantivesse desconhecedor das fontes. Cabia-me esperar pelas suas instruções e rever com a maior atenção os poucos parágrafos já escritos para que, ao menos nisto, não pudesse ser acusado de mau profissional caso Sena se deparasse com um erro ortográfico.

Fiz, então, o mesmo que ele. Saí porta fora.

O Freixo era bastante diferente quando visitado durante o dia. Podia-se dizer que parecia menos soturno do que a visão retida por mim na noite da chegada e, conforme ia caminhando pela rua, o facto de a localidade ser apenas composta por uma única estrada só realçava a sua particularidade. Não havia problema de o turista que eu era perder-se no enleado de ruas que ao longo do tempo vão aparecendo e reconstruindo a geografia das povoações. Aqui, confirmei, não existiam travessas, ruelas ou becos, apenas a rua principal onde ninguém se perdia.

Para além desta havia uma segunda particularidade, em que já reparara antes, a de só existirem palacetes, mansões e casinhas, que na maior parte eram comércios. Feitas as contas à população, era fácil concluir-se que seria em pequeno número, nunca ultrapassando a centena de pessoas.

Era uma terra estranha, não haja dúvida. Que eu não pude conhecer melhor nesse resto de dia porque o sol pôs-se de um momento para o outro e as luzes dos postes de iluminação pública só se acenderam bem depois de regressar a casa do meu anfitrião.

A segunda noite dormida no Freixo fora bem melhor do que a primeira. Provavelmente, acostumara-me à cama e encaixara melhor o corpo por entre as molas soltas do colchão. Uma delas espetava-me no fim da coluna e tivera que chegar-me um meio metro para o lado de modo a não acabar ferido. Ninguém me perguntara se o quarto era a gosto, o que poderia querer dizer várias coisas: que não eram recebidos muitos hóspedes; que não se preocupavam com a sua opinião; que achavam ser bom o mobiliário; que os quartos dos donos da casa seriam iguais aos oferecidos aos visitantes, ou ainda a qualquer outra interpretação.

O meu receio de ficar sem marmelada por ter direito a fruta fresca não se verificou como pude observar no pequeno-almoço seguinte. Só que desta vez, Sena teve direito a outra especialidade cozinhada pela empregada, uns ovos mexidos e umas fatias muito finas de pão torrado, ambas com um ótimo aspeto e que também me seduziram. Repetiu-se a situação do pequeno-almoço anterior, a de sentir água na boca perante o que via, e novamente foi dada ordem à empregada para me passar a servir o mesmo. Repetiu-se, também, a forma de trabalhar e alguns minutos após a primeira refeição do dia, Sena ditou-me mais alguns parágrafos:

- Estamos no ano 1930 e João Gaspar Simões escreveu o seguinte: «Em 18 de Setembro recebi uma carta de (...), escrita do Hotel Miramar, no Estoril. Dizia-me que Miss Jaeger tivera, na noite de 16, um violento ataque histérico, que havia sobressaltado o Hotel Paris inteiro; que em virtude disso tinha vindo para o Hotel Miramar, mas que na manhã de 17 Miss Jaeger tinha desaparecido».

Interrompeu uns minutos até continuar: «O encontro não foi assim tão idílico como seria de prever, já que Pessoa deve ter-se apercebido rapidamente dos desequilíbrios psíquicos e espirituais graves que (...) tinha. De qualquer forma prestou-se a colaborar na encenação do suicídio de (...) na Boca do Inferno, o que permitia a este escapar incógnito não só das suas amantes como do conhecimento do público. De facto, ele tinha sido um agente duplo dos ingleses e dos alemães, e era uma figura cujo paradeiro e atividades, por vezes as mais perigosas, não interessava saber-se. (...) vinha acompanhado de uma maga alemã, Miss Jaeger, também ela uma figura controversa da cena mágica».

Antes de sair porta fora, Sena disse-me para apurar a razão por que a Besta deixara uma cigarreira que o identificava junto ao buraco oceânico de Cascais, conhecido como Boca do Inferno, e a partir de que informações é que um jornalista elaborara a notícia do seu desaparecimento/suicídio, a que provocara uma investigação de polícias estrangeiras. Decidi que iria consultar o volume que Sena voltara a pôr na estante para saber exatamente quem seria o homem apelidado de a Besta e qual era a ligação com o poeta porque, mais do que ocioso, estava a ficar curioso sobre o alegado mago que viajara até Lisboa para conhecer Fernando Pessoa e que desaparecera da face da terra após uma farsa interpretada na famosa Boca do Inferno. Não receei que Sena se importasse com o facto de fazer as minhas consultas, pois seria parte do trabalho de casa de forma a concretizar a tarefa para que fora contratado.

Já fixara o local onde se encontrava o livro e estendi o braço automaticamente para lhe pegar. Mas a mão, por via de um olhar mais atento, não obedeceu de todo ao automatismo e parou a milímetros da lombada desbotada porque vi outro volume, também dedicado ao poeta. Intitulava-se Fernando Pessoa na Intimidade e era de autoria de uma mulher. Abri-o e folhei-o até sentir o apelo de um conjunto de palavras que diziam que a Besta era um ocultista famoso e que Pessoa, lendo numa publicação inglesa o seu horóscopo com alguns erros, escreveu-lhe a corrigir, já que era um profundo conhecedor e praticante de astrologia. Até aqui já eu sabia!

O texto continuava sob um tom misterioso. Efetivamente, a Besta ficara admirado com os conhecimentos de Pessoa e, sempre pronto a viajar, resolveu vir até Portugal para conhecer o poeta. Pulei algumas palavras e fui dar com uma pequena biografia: foi um mago da linha cinzenta ou negra, em que o egoísmo predomina sobre o altruísmo e os fins justificam os meios. É sabido como utilizou drogas, sexo e a violência nos seus rituais e na vida. Forçosamente que certas pessoas são atraídas por um lado ou outro destes aspetos. Porém, Pessoa nesta idade, já extremamente lúcido e conhecedor dos perigos do ocultismo, não quis naturalmente ligar-se com o mago e seguiu sozinho uma via cada vez mais mística num sentido de adesão aos princípios puros dos Rosa-Cruzes e dos Templários. Era, como ele dizia, um cristão gnóstico e iniciado na Ordem Templária de Portugal.

Agora, entendia um pouco melhor o que Sena me lera avulso e em citações do outro autor. Ainda pensei pegar nesse outro livro, mas achei que já tinha mexido demasiado nas estantes do anfitrião para não dar nas vistas.

A rua principal, e única, continuava igual ao dia anterior. Ainda não tinha dado uma dúzia de passos quando me veio ao pensamento que desconhecia o Hino a Pã que Fernando Pessoa traduzira. Esses versos poderiam ser a chave para abrir mais uma porta para o conhecimento de a Besta e reconhecer um pouco mais da personalidade - ou sensibilidade - do seu autor. Que palavras teria utilizado? Que género de poema teria composto? Que versos teria rimado? Perguntas que me fazia, mas tão pouco estava preocupado em conjeturar sobre as respostas possíveis, porque de nada valeria ocupar o pensamento com o que me era totalmente desconhecido. Nada que não tivesse feito já bastantes vezes, é certo, mas que desta parecia-me uma ocupação insípida para os neurónios.

Ainda andei outra dúzia de passos até que, de súbito e de um modo pouco pensado, regressei a casa, fui até à estante e procurei no primeiro livro o poema que Fernando Pessoa traduzira. Era assim:

HINO A PÃ

(de Mestre Therion)

Vibra do cio subtil da luz, / Meu homem e afã

Vem turbulento da noite a flux

De Pã! Iô Pã! / Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além

Vem da Sicília e da Arcádia vem!

Vem como Baco, com fauno e fera

E ninfa e sátiro à tua beira,

Num asno lácteo, do mar sem fim, / A mim, a mim!

Vem com Apolo, nupcial na brisa / (Pegureira e pitonisa),

Vem com Artêmis, leve e estranha,

E a coxa branca, Deus lindo, banha

Ao luar do bosque, em marmóreo monte,

Manhã malhada da àmbrea fonte!

Mergulha o roxo da prece ardente

No ádito rubro, no laço quente,

A alma que aterra em olhos de azul

O ver errar teu capricho exul

No bosque enredo, nos nás que espalma

A árvore viva que é espírito e alma

E corpo e mente - do mar sem fim / (Iô Pã! Iô Pã!)

Não foi preciso ler muito mais para achar que o Hino a Pã era uma parvoíce total e que só um Fernando Pessoa dominado por alguma substância alucinogénica teria sido capaz de perder tempo a traduzir aquele poema assinado por Mestre Therion, um dos nomes que a Besta utilizava para além do próprio. Li o resto dos versos para me certificar de que estava correta a minha primeira impressão:

Diabo ou deus, vem a mim, a mim! / Meu homem e afã!

Vem com trombeta estridente e fina / Pela colina!

Vem com tambor a rufar à beira / Da primavera!

Com frautas e avenas vem sem conto! / Não estou eu pronto?

Eu, que espero e me estorço e luto

Com ar sem ramos onde não nutro

Meu corpo, lasso do abraço em vão,

Áspide aguda, forte leão - Vem, está fazia ???

Minha carne, fria / Do cio sozinho da demonia.

À espada corta o que ata e dói,

Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!

Dá-me o sinal do Olho Aberto,

E da coxa áspera o toque erecto,

Ó Pã! Iô Pã! / Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã.,

Sou homem e afã: / Faze o teu querer sem vontade vã,

Deus grande! Meu Pã! /Iô Pã! Iô Pã! Despertei na dobra

Do aperto da cobra.

A águia rasga com garra e fauce; / Os deuses vão-se;

As feras vêm. Iô Pã! A matado,

Vou no corno levado / Do Unicornado.

Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã! / Sou teu, teu homem e teu afã,

Cabra das tuas, ouro, deus, clara

Carne em teu osso, flor na tua vara.

Com patas de aço os rochedos roço

De solstício severo a equinócio.

E raivo, e rasgo, e roussando fremo,

Sempiterno, mundo sem termo,

Homem, homúnculo, ménade, afã, / Na força de Pã.

Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!

Por alguns momentos pensei no erro que estaria a cometer ao ter pedido uma licença sabática na universidade para vir até ao Freixo aturar um louco que escrevia sobre um outro louco. Pensei na questão, mas convenci-me rapidamente de que não havia volta a dar por agora. Afinal, assinara um contrato, já recebera metade do seu valor e até gastara parte dessa verba adiantada para regularizar algumas contas e adquirir um novo computador portátil. Que estivera a utilizar neste trabalho até esta manhã, mas que já não teria grande préstimo porque Sena deixara um bilhete a informar-me que deveria passar a escrever as anotações em folhas de papel amarelecido - que estavam numa pilha sobre a sua secretária -, e fazê-lo com um lápis. A justificação era curta: o barulho das teclas do computador perturbava a sua concentração.

Não acreditei que fosse essa a razão, antes achava que Sena preferia que as anotações que me ditava se parecessem com as que o poeta fazia nos seus rascunhos. Pensei mais ainda no assunto ao recordar o que Sena dissera num momento anterior em que dissertara sobre caligrafias e que, disfarçadamente, citara as qualidades da do poeta. Mostrara-me uma cópia do poema Mensagem, que comprara há uns bons anos a um António Fumaça, que por sua vez o adquirira a Armando Figueiredo, da Editorial Império, e que no índice continha um exemplo da letra de Pessoa. Apontara-me o esforço para escrever sempre de forma igual em três versões da palavra Grypho que se encontrava na quinta parte do livro, mesmo que cada uma fosse um pouco diferente da anterior. Na primeira vez, Grypho tinha a perna do "G" muito maior do que nas duas seguintes; também o "r" dessa palavra era mais perfeito do que nos outros, tal como o "h". Particularidades do espírito, que não se repetem mesmo que sejam escritas num mesmo minuto, disse, e continuara a ditar, colocando em destaque uma frase que me parecia ser de Pessoa mas que não identificou: Era um poeta impulsionado pela filosofia, não um filósofo dotado de faculdades poéticas.

Como se o tema da caligrafia do poeta não lhe saísse do pensamento, continuara a dissertar sobre algo que não parecia ser de sua autoria: "A escrita tão inclinada, tão ligada, tão rápida, tão combinada, com finais tão generosas, tão angulosa mas tão aberta e largada diz-me que há uma enorme bondade e nobreza, um sentimento de fraternidade universal no poeta. Contemplar esta escrita não é muito diferente de contemplar o movimento das constelações numa noite escura, do Dragão à Hidra, da Cabeleira de Berenice ao Centauro, das Pleíades ao Escorpião, do Unicórnio aos Gémeos..." E silenciou de vez os pensamentos após murmurar: "a sua é a solidão cósmica".

Ao regressar a casa, já entardecia velozmente. Não entendia como é que o tempo passava tão rapidamente no Freixo, onde as horas entre o amanhecer e o pôr-do-sol pareciam ser menos do que as normais. Ainda não tinha feito a sua contagem para me certificar desta suspeita, apesar de considerar que se o fizesse iria surpreender-me com a resposta.

Quando entrei em casa, em vez de ir para o quarto, encaminhei-me diretamente para a estante onde estava o livro de lombada desbotada. Dentro dele, encontrei uma folha impressa com uma espécie de biografia de a Besta, assinada por três iniciais, J.A.N., que me permitiu saber algo mais sobre a vida do autor do Hino a Pã. Inteirei-me que durante a Guerra de 1914/18 viveu nos Estados Unidos, onde prosseguiu os seus estudos ocultistas, e também noutros países. Publicou vários livros, incluindo poemas, além de um Diário do Viciado em Drogas e As Confissões. Explicava o seu diabolismo como revolta contra a religião da infância. Associava o sexo ao pecado: A minha vida sexual era muito intensa e o amor era um desafio ao cristianismo. Era degradação e condenação. Fundou a Ordem da Aurora Dourada, cujos participantes foram definidos pelo mágico deste modo: Eles não eram protagonistas na luta espiritual contra as restrições, contra os opressores da alma humana, os blasfemadores que negavam a supremacia da vontade do homem. Entendi que a própria mãe admitiu contrariada as suas inclinações para a magia: visto que nunca hesitava na realização até de violências e experiências indescritíveis, era a Besta do Apocalipse, cujo número é 666. Mestre Therion foi outro título que o mágico inglês ostentou. Denunciado pela imprensa, declarou no tribunal ao ser interrogado, a propósito dos vários nomes que usava, que Besta 666 é uma designação que significa apenas luz do Sol. Assim, os senhores podem chamar-me Pequena Luz Solar. Por fim, soube que o mágico que amedrontou Fernando Pessoa morreu em 1 de dezembro de 1947, em Brighton, e que enquanto o cremavam alguns discípulos cantaram o Hino a Pã.

Eram estas frases que preenchiam a primeira folha dobrada que encontrei dentro do velho livro. Se quisesse divertir-me - ou assustar-me um pouco mais -, existiam outras duas que pareciam ter o mesmo tipo de afirmações biográficas. Já não as li porque ouvi passos de alguém a aproximar-se e só tive tempo de repor a normalidade. A empregada entrou no escritório de Sena sem achar que algo que me deveria ser proibido estava a passar-se e, sem qualquer nexo aparente, disse-me:

- O patrão mandou-me saber se sempre quer uma mulher às suas ordens. Ou se prefere um homem?

Sem pensar no que lhe estava a responder, porque apanhado de surpresa, disse-lhe que só gostava de mulheres.

Ela continuou o inquérito, agora de forma um pouco grosseira:

- Uma mais nova ou uma mais velha?

Não respondi, o que não evitou que continuasse ainda mais grosseira:

- Do tipo mamas grandes ou mais boas coxas?

Foi-me ainda mais impossível responder, principalmente porque insistiu numa das perguntas anteriores:

- Não quer mesmo homem?

Disse-lhe que não.

- Então, vou mandar vir uma que tenha bom físico.

Deixou-me no escritório de novo só, após espevitar a lareira, de onde um intenso cheiro a madeira a arder acabou por me acalmar os nervos. Enquanto os toros ardiam, eu remoía a linguagem ordinária com que esta mulher se me dirigia. Ainda a conhecia mal, pois mais parecia um fantasma nas suas aparições, além de que quando estava com Sena raramente abria a boca, o que dificultava entender como realmente seria. Pensava também nesta obstinação de me quererem arranjar mulher, situação que deveria ter um significado além do que por agora eu conseguia imaginar. Não é que isso me preocupasse, mas era um pouco incompreensível que chegássemos a esta intimidade em tão poucos dias. Principalmente, era anormal que fizessem tal pergunta, pois se houvesse necessidade da minha parte em namoriscar alguma aldeã, a decisão de a procurar deveria ser minha e não por imposição de terceiros. Fiquei nestes pensamentos por mais algum tempo e de olhar perdido nas cores do fogo na lareira, esquecendo a verdadeira razão de estar no escritório do meu anfitrião

- Venha cá fora ter comigo!

Sena apelava à minha presença e a sua voz parecia vir do jardim. Percorri o caminho até à porta que dava acesso ao jardim e identifiquei-o como a pessoa que estaria no gazebo, de pé e encostado ao varandim de madeira que rodeava o pavilhão. Ao ver a sua silhueta escura recortada pela lua em fundo, amedrontado que estava com o que acabara de ler sobre a Besta e enervado com as grosserias da empregada, pareceu-me que se fosse ter com o meu anfitrião iria meter-me ainda mais na boca do lobo. Pensei que a tentativa de passar discreto na consulta à biblioteca não teria sido conseguida e que, provavelmente, da mesma posição em que ainda se encontrava, mantivera-se a observar as minhas consultas aos livros da sua estante. Não é que me preocupasse com a situação, mas ainda era difícil saber os limites que me estavam autorizados à movimentação da minha pessoa e receava ser repreendido caso os ultrapassasse. No entanto, se Sena queria a minha contribuição, pensei, o que estivera a fazer não teria assim tantas contraindicações.

Não tocou no assunto e o que disse acalmou-me em relação a quaisquer medos. Achava que estava na hora de eu conhecer melhor o Freixo e informou-me que teria todo o prazer em indicar um percurso e iria entregar-me algumas cartas de recomendação para que os moradores me recebessem. Decerto que o espanto que ficou no meu rosto se fez notar porque logo me esclareceu que não teria tempo para andar a passear-me pela terra.

- Fique descansado que vai gostar de circular um pouco e que ficará admirado com a quantidade de pessoas interessantes que vai encontrar.

Respondi-lhe que estava certo dessas duas situações pois, do pouco que observara, concluíra que haveria muito a conhecer, mesmo que só houvesse uma rua para percorrer e que se vissem poucas pessoas. Acrescentei que esse facto não impossibilitava que a população pudesse ser curiosa.

- Curiosa, foi o que disse?

Sena não gostou que tratasse os seus vizinhos como animais de um jardim zoológico mas aceitou a explicação que lhe dei imediatamente, ao citar a origem etimológica para desdramatizar o sentido que dera à palavra.

- Do latim, curiosus, sobre quem tem grande desejo de ver ou de aprender.

A Lua foi o segundo pretexto que utilizei para fugir à utilização inoportuna da palavra "curiosa". Olhei-a demoradamente enquanto o silêncio se impunha e logo que me surgiu algo para dizer sobre o satélite da Terra, expus esse pensamento. Antes tivesse ficado calado porque o que fiz foi uma alusão ao ciclo lunar e à sabedoria popular sobre a menstruação nas mulheres e o cio nos animais. Em seguida, entrei num jogo de palavras que envolviam a Lua para evitar corar com as asneiras que continuava a dizer. Assim sendo, elenquei algumas frases populares, como estar na lua ou andar no mundo da lua; estar ou ser de lua; nascer com o rabo virado para a lua; pedir ou prometer a lua. Enumerei fases com a lua azul e cinzenta, a segunda lua cheia do mês e a que não é iluminada pelo Sol e, também, a intercalar que só se verifica a cada três anos.

E estava a olhar fixamente para a Lua quando Sena me pergunta:

- Já que aprecia tanto a etimologia, sabe como se chama àquela peça em arco nas selas dos cavalos?

Pensei um pouco mas a resposta escapava-me, até porque nunca fui grande apreciador de cavalos, nem da lua, a não ser em caso de grande necessidade como a que tinha acontecido há pouco.

- Lua! É assim que se chama essa peça das selas.

Para não me colocar em mais circunstâncias infelizes como a que estava a acontecer, decidi imitar Sena e apoiar-me no varandim em observação sabe-se lá do quê. Acrescentei a esta atitude um novo e profundo silêncio de meditação, que só interrompi para lhe perguntar quando é que me daria as cartas de apresentação para conhecer a vizinhança.

- Amanhã ainda trabalharemos no Pessoa. Depois, passeie-se uns dias e, quando eu estiver de regresso, logo voltaremos ao trabalho.

Foi assim que fiquei a saber que iria viajar. Quis perguntar-lhe aonde ia, mas considerei que se o quisesse dizer tê-lo-ia feito ao anunciar a sua partida.

Após um pequeno-almoço em que já nada invejei daquilo que era posto no lado da mesa onde Sena se sentava, o meu anfitrião comentou que tinha ficado a pensar no que eu tinha dito no gazebo, sobre a lua e o cio dos animais. Ainda elaborou uma teoria sobre o assunto enquanto barrava a torrada com manteiga mas rapidamente mudou de tema. E, logo que eu terminei a refeição, fez voar uma antiga fotografia para o meu lado da mesa. Olhei para a imagem e reconheci imediatamente Fernando Pessoa a jogar xadrez com um outro homem. Achei que Sena queria que eu identificasse o poeta e fiquei feliz por o conseguir tão rapidamente.

- Também pensa que é o Pessoa?

Afinal, parecia que eu estava enganado! Olhei com mais atenção para a fotografia, mas não encontrei pormenor algum que indicasse estar errado. Olhei ainda com mais atenção, enquanto esperava por uma lupa que Sena mandara a empregada ir buscar ao escritório. Voltei a analisar a imagem e em nada se alterou a minha opinião, era mesmo o poeta que estava a jogar xadrez com um velhote meio careca sentado à sua frente.

- Sabe o que dizem dessa fotografia?

A minha resposta voltou a ser imediata, só que desta vez negativa. Ainda bem, porque desconhecia totalmente o que esta ilustração representava para os admiradores de a Besta. Mas, apesar de me ter enganado na identificação das personagens da fotografia, senti que estava perante um momento importante deste meu trabalho pois fora, finalmente, apresentado à Besta: era o velhote meio careca que jogava com o poeta Pessoa.

Sena preferiu continuar sentado à mesa do pequeno-almoço em vez de me ditar frases no escritório. E mais, nem teve pressa de sair porta fora como era seu costume. Não duvidei que a fotografia o entusiasmava e que estava a divertir-se com a minha ignorância sobre o significado da partida de xadrez na imagem.

- Dizem que essa fotografia foi tirada em Sintra.

Olhei para ela e disse que sim ou que poderia até ter sido num dos cafés do Chiado. Porque não?

- A princípio também acreditei que era o nosso poeta e a Besta sentados num café de Sintra! Que, como disse, até poderia ser no Chiado. Só que era impossível que tal se verificasse, porque estes dois homens nunca se encontraram em Sintra ao mesmo tempo.

Em seguida explicou-me que a sua crença na integridade da fotografia como prova do encontro entre os dois só se manteve até ao dia em que leu uns textos de um tal Raskolnikov e entendeu que tudo não passava de um embuste. E citou de cor alguns parágrafos com a explicação: a foto só poderia ter sido tirada em dois sítios: em Portugal ou em Inglaterra. Mas em Portugal, na década de 30, as mulheres não serviam às mesas em cafés ou clubes como aquele que se podia ver na imagem. Nesse caso, só poderia ter sido em Inglaterra. Infelizmente, desde que Fernando Pessoa regressou com a mãe de Durban que não voltou a sair do país.

- Como foi possível então reuni-los, pergunta-me?

Eu não o ia questionar porque, demasiado surpreso com o que me estava a ser explicado, aceitava qualquer reviravolta. Sena continuou a citar Raskolnikov de cor: Segundo o diretor da revista Chess Monthly, o local onde o jogo de xadrez se realizava na altura em que a fotografia foi tirada, era na Gambit Chess Rooms, em Londres. E estaria com o seu habitual parceiro de jogo, um membro da Ordem Templi Orientis, de nome R. A. Starr, que tinha a fisionomia idêntica à de Fernando Pessoa.

Para que não restassem dúvidas no meu espírito, Sena devolveu-me a fotografia e a lupa e, em seguida, fez voar uma segunda imagem para o tampo da mesa até ao meu lugar. Nesta segunda fotografia estava o verdadeiro Fernando Pessoa, e aí sim, verifiquei que era fácil criar-se uma ilusão devido à extrema parecença com o poeta. Em seguida, sem mais conversa e após lhe ter sido servido um café, Sena saiu porta fora como era seu hábito.

A mim, no dia seguinte, não me restava outro passatempo para ocupar o vazio do primeiro dos dias de ausência de Sena senão aceitar a sua sugestão e ir conhecer os moradores do Freixo. De posse de uma das cartas de apresentação, desci os 39 degraus em direção à única rua da povoação. Sena deixara-me sete envelopes, um para cada uma das mansões, e não colocou um número em qualquer um deles. Ou seja, não existia um roteiro pré-definido para a visita, apesar de me ter dito que iria indicar um percurso. Primeiro pensei fazê-lo do modo fácil, ir à mansão que se encontrava mais próximo da dele. Em seguida, achei que seria melhor começar pela que ficava localizada ao fim da rua e ir percorrendo o caminho desde lá até ao princípio. Foi o que acabei por fazer.

A frontaria das mansões diferenciava-se de umas para as outras e, vistas do exterior, só se assemelhavam na dimensão cúbica do seu espaço. Não havia uma cor dominante, nem sequer uma variação de tonalidades, cada uma tinha a sua personalidade própria. Caminhei até ao fim da rua, sem pressa e a observar a povoação que estava sempre vazia de moradores. Ninguém se mostrava, aparecia ou cruzava comigo. Nada que me importasse neste meu primeiro dia de liberdade no Freixo, em que o meu pensamento estava mais voltado para o destino secreto da viagem de Sena do que para a visita à povoação. Não deixaria de seguir o seu conselho por duas razões; a primeira para evitar indispô-lo com o incumprimento de um passeio que sugerira e para o qual se dera ao trabalho de redigir cartas de apresentação; a segunda, porque o que estava por trás destas fachadas dispostas ao longo de uma única avenida, causava-me uma verdadeira curiosidade. Se eu fosse arquiteto e sonhasse com um mundo irreal, este poderia ser um modelo para o criar! Além de que, enquanto penetrava nestas mansões, poderia obter alguma pista que explicasse o Freixo e o meu próprio lugar neste canto do mundo.

Quando bati à porta da primeira mansão não esperava pelo que me foi dado a ver. Fiquei espantado por ser o próprio dono a abrir a porta, todo vestido de negro e com um ar muito circunspecto. Não pareceu surpreendido com a minha visita, como se estivesse avisado de que esta iria acontecer. Decerto que Sena o teria feito e, sem dúvida, que me deveria ter avisado também que o meu destinatário era o cangalheiro do Freixo.

A sala de entrada da mansão era imensa, como se de uma catedral se tratasse, obrigando-me a pensar que quem via o edifício de fora nunca imaginaria ser possível aquela dimensão tão gigantesca. Após a minha surpresa inicial, que deixou o cangalheiro indiferente, levou-me a passear pela mansão. Fui observando os pormenores da decoração desta espécie de catedral, que deveria ser assim para receber condignamente os mortos da povoação, mas o que mais me chamou à atenção foi que todo o seu espaço - chão, paredes e teto - era coberto de azulejos brancos e pretos em forma de losango. A única interrupção no pouco colorido revestimento era nos vitrais, que substituíam as janelas inexistentes, em cores berrantes quando comparadas com as outras duas.

Fixei o olhar nos vitrais e reparei que não reproduziam apenas cenas da Bíblia, como seria de esperar num edifício que se fazia passar por um local católico. Existiam representações de várias religiões e a primeira que estava vitralizada mostrava quatro cenas do budismo: um astrólogo que visitava o pai do recém-nascido Siddartha e profetizava a sua renúncia ao mundo material para se tornar um santo; o mesmo Siddartha a visitar pessoas em sofrimento; depois, em busca da vida espiritual e muito debilitado pela prática ascética. Em seguida, vinha a vitralização de Jesus com a reprodução dos seus antepassados, retirada dos dois únicos evangelhos que a referem: desde Adão no de Lucas, e desde Abraão no de Mateus. Ao centro, inscrevia-se a palavra "ungido" e por baixo estava a expressão grega "ησοῦς Χριστός Θεοῦ Ὑιός Σωτήρ" que o cangalheiro fez questão de traduzir: Jesus Cristo Filho de Deus Salvador. A finalizar, estava vitralizada a perfeição de Maomé como ser humano ignorando a divindade do seu ser, bem como os seus papéis de profeta, que têm como antecessores Jesus, Moisés, David, Jacob, Isaac, Ismael e Abraão; e de unificador das tribos que se tornaram um império desde a Pérsia até à Península Ibérica.

Foi preciso que o cangalheiro interrompesse o meu espanto com um ataque de tosse que ecoou pela catedral para me despertar do encanto perante a sua descrição e continuarmos a visita. Apressei-me a ir ter com ele que, com um sorriso franco, disse-me:

- Se o desejar, depois de lhe mostrar o jardim, pode continuar por si próprio a visita e admirar com mais atenção os vitrais ou o que desejar. Não tenha pressa porque esta casa nunca fecha as suas portas.

O que me esperava do outro lado da catedral, ao passarmos a última porta que dava para as traseiras, ainda era mais inesperado. Discreto, existia ali um jardim exterior onde estavam dúzias de campas e vários jazigos e mausoléus. Era o cemitério do Freixo, sem dúvida! Tinha uma relativa extensão e era murado. Como, depois de olhar para as lápides mais próximas, reparei com mais atenção nesse muro, o cangalheiro fez questão de explicar.

- A intenção é proteger-lhes o descanso eterno.

Acreditei que sim, mesmo que logo tenha pensado que ninguém estaria interessado em vir até à povoação profanar tumbas de mortos. O homem não prolongou o seu reparo e, antes de se despedir, fez questão de me levar pelo corredor principal entre campas até ao fim do cemitério. Aí, subimos uma escada feita em pedra que, ao fim de sete degraus, desembocava num pequeno patamar. Daqui, conforme me mostrou, podia ver-se o que ficava para além da única rua do Freixo. E foi-se embora, depois de me abraçar fortemente; de dizer que tinha sido um prazer receber um visitante, e de colocar-se às ordens para qualquer situação em que fosse necessário.

Enquanto observava a paisagem traseira da povoação, remoí nestas suas últimas palavras, as de estar às ordens, como se pudesse ser um mau presságio tê-las dito. Será que previa que eu - ou o meu corpo - iria necessitar dos seus serviços durante a estada no Freixo? Deixei esse pensamento dissolver-se e desci os sete degraus, para ir passear por entre as campas do cemitério. A minha principal curiosidade era saber quem ali estaria enterrado e nada melhor do que percorrer o jardim para o saber. Dei uns passos até à lápide mais próxima e li o nome do falecido. Depois, andei mais um pouco até à zona dos jazigos e li o nome das famílias a que pertenciam. Ainda fui ver as campas laterais e li mais nomes de pessoas que ali tinham ficado para sempre. Era um cemitério igual a tantos outros.

A segunda mansão que visitei era bem menos macabra, mas também tinha algo de inesperado à minha espera. Bati à porta com os nós dos dedos e não precisei de esperar muito para que o seu proprietário me viesse receber.

-Ainda bem que chegou! Estava à sua espera para dar início à projeção.

Não tivemos tempo para grandes apresentações, pois fui logo encaminhado para uma sala lateral onde, numa tela, passavam os créditos iniciais de um filme. Sentámo-nos cada um no seu cadeirão e durante quase duas horas assistimos à história angustiante de um naufrágio.

- Provavelmente, preferia um bom filme de cowboys?

Foram as únicas palavras pronunciadas pelo anfitrião até que a palavra Fim surgiu no ecrã e as luzes foram acesas, não me permitindo saber sequer o nome dos atores que protagonizavam esta aventura marítima. O filme começava com um incêndio na casa das máquinas, a que se seguia o esforço da tripulação para salvar o máximo número de passageiros. Quando os barcos salva-vidas já estavam no mar, o realizador parecia ter-se esquecido dos outros botes e focava o filme apenas num deles, aquele onde ia o comandante. Que era um homem intratável, sempre a arranjar mal-entendidos e que até atirou um casal mais indisciplinado na obediência às suas ordens borda fora durante uma violenta tempestade. No fim, após vários dias perdidos e muitas tragédias, um navio que tinha ouvido o pedido de socorro salvou-os do naufrágio e da violência do comandante.

O filme era fraco e quando o dono da mansão me perguntou a opinião, peguei nas suas palavras, respondendo-lhe que preferia uma boa coboiada, com muitas paisagens do Faroeste e índios à mistura. Deveria ter-me calado porque foi à estante buscar uma bobine com o género de filmes que eu dissera apreciar.

- Vamos ver um daqueles que nunca me cansa!

Era realmente um filme dos melhores do género. Muitas lutas entre o exército norte-americano e tribos sioux, caçadas que dizimavam dezenas de búfalos e execuções sumárias de um lado e do outro, tudo isto provocado pelo tradicional motivo do rapto de uma mulher branca pelos índios. Quando a palavra Fim surgiu novamente no ecrã, evitei dar outras sugestões sobre filmes de que também gostava ou a noite iria entrar pela madrugada.

Quando cheguei à porta de casa de Sena suspirei de tão cansado que estava após as duas primeiras visitas realizadas. Ainda me faltavam cinco mansões, mas essas ficariam para os próximos dias, pois teria tempo para o fazer até que Sena regressasse. Perguntei a mim próprio se ainda poderia jantar, já que nenhum dos anfitriões me oferecera algo para comer. Será que a empregada ainda estaria acordada? A resposta estava sentada à minha espera num dos bancos do salão de entrada, de onde uma jovem se levantou imediatamente mal me viu e fez a pergunta desejada:

- Boa noite. Posso servir o jantar?

Disse-lhe que sim, enquanto me perguntava pela criada do Sena. Onde estaria? Teria ido com ele na viagem? Essa e as outras perguntas que fazia desvaneceram-se ao sentar-me à mesa para comer o que a rapariga trazia nas travessas. Disse-me que desconhecia os meus gostos alimentares, mas como ninguém diz não a uma boa galinha do campo fora isso que decidira fazer. Assara-a com umas batatas novas e acompanhara-a com um molho, do qual não consegui descobrir que tempero lhe daria um sabor tão especial. No fim, trouxe-me uma torta de laranjas apanhadas pela tarde - informou-me - e perguntou se desejava tomar um café. Disse-lhe que sim e foi o que ela fez.

Refeito da estafa da tarde, decidi ir bisbilhotar a estante do escritório de Sena para saber mais alguma coisa sobre a Besta e Fernando Pessoa. Mesmo estando Sena ausente, sentia que não deveria deixar de trabalhar no tema que me trouxera até ao Freixo. Dispensei a jovem, pois não precisava de mais nada.

- Certo senhor. Vou, então, abrir a cama e ver se a lareira está em condições.

Achei piada ao modo como me tratava. Não era todos os dias que me chamavam de senhor e se preocupavam com a temperatura ambiente do meu quarto. Servi-me da aguardente que habitualmente Sena me oferecia após o jantar e fui para o seu escritório. Ainda li o seguinte trecho, impresso numa enciclopédia:" Era uma amizade literária improvável mesmo no século XX a de Fernando Pessoa com a Besta. Sofredor e tímido poeta, mestre em heterónimos e na melancolia e sem ver reconhecido em vida o seu génio, bastante diferente daquele a que alguém apelidara de o 'mais maléfico homem de sempre'. Trocaram durante algum tempo uma correspondência controversa..."

Ainda permaneci no escritório de Sena um bom par de horas, entretido com a leitura de tantos mexericos que encontrava sobre a relação entre Pessoa e a Besta. Quando vi as horas, mais do que meia-noite, levantei-me e dirigi-me ao quarto, ansioso por entrar naqueles lençóis que eram mudados todos os dias e desejoso por sentir o calor da lareira. O silêncio que ocupava a casa indiciava que a nova empregada estaria a dormir há mais de uma hora, tempo que passara desde que deixara de ouvir o lavar de louça na cozinha. Por isso, quando entrei no meu quarto, surpreendi-me ao encontrá-la sentada num cadeirão, como que à minha espera. Eu não tinha acendido a luz porque a chama da lareira era suficiente para iluminar o quarto enquanto me despisse, só que o fechar da porta acordou-a.

- Desculpe senhor, adormeci enquanto lia no escritório.

Fiquei sem saber o que lhe dizer porque não entendia o que estaria ali a fazer. Não precisava de nada e tinha-lhe dito isso mesmo no fim do jantar.

- A senhora escolheu-me entre as outras porque acha que sou o tipo de mulher de que gosta.

E começou a despir-se ali mesmo à minha frente. Tinha o cabelo comprido preso atrás e assim deixou. Desabotoou a blusa de mangas compridas e vi que tinha uns braços fortes. Deixou cair a saia e observei que as pernas também eram de boa constituição. Puxou pelos ombros abaixo a combinação, peça que há muito não via uma mulher usar, ficando apenas de roupa interior. Aí aproximou-se de mim e fez-me o mesmo, até eu ficar também só de roupa interior. A seguir, afastou-se um pouco e, levando as mãos atrás das costas, desengatou o fecho do soutien e colocou a peça sobre a cómoda.

Foi nesse momento que entendi a razão de ser da pergunta que a empregada do Sena me fizera há uns dias, sobre que tipo de mulher é que eu preferia? A resposta estava à minha frente e, mesmo que eu não tivesse escolhido entre as opções que ela me dera na altura, o que decidira fora perfeito. Tirou a última peça que ainda a cobria, fez-me o mesmo e levou-me pela mão para dentro daqueles lençóis bem passados a ferro como forma de evitar a solidão durante a ausência do meu anfitrião.

Faltava ainda conhecer algumas mansões no Freixo, mas fiquei em dúvida se iria correr o risco de ter mais experiências como as do dia anterior. Não é que fossem enfadonhas, afinal ambas me surpreenderam e ocuparam o tempo livre da melhor forma enquanto Sena estava fora, mas a noite agitada pedia mais cama. Assim fiz, falhando o pequeno-almoço, o que obrigou a jovem a vir bater à porta, para saber se não iria tomar a refeição matinal. Disse-lhe que não e fiz-lhe sinal de que pretendia desfrutar mais do seu corpo, convidando-a a entrar para dentro dos lençóis. Ela obedeceu e nesse dia não pus o pé na única rua da povoação. Mas não deixei de perguntar à rapariga como seriam as cinco mansões que me faltavam conhecer e que, não duvido, deveriam ser todas visitadas antes de voltar a ter a companhia de Sena. Ela respondeu-me apenas com um "nunca lá entrei", o que me deixou ainda mais curioso sobre o Freixo. Com tão poucos moradores, seria possível que não se conhecessem todos? Era essa a verdade, de acordo com as palavras da jovem. Ainda tentei saber alguma coisa mais sobre a terra, mas nada de útil me foi contado por ela durante o interrogatório entrecortado que fui realizando. Ou não queria fazer revelações indiscretas, ou estava mesmo com sono, como parecia ser o caso.

Adormeci por várias vezes enquanto sonhava por outras tantas. Bastantes sonhos, uns mais calmos, outros mais agitados, mas sempre com as mansões da povoação a dominarem as várias histórias que me eram contadas por uma mente febril em invenções. O mais curioso é que pareciam antecipar as minhas próximas visitas, só que com a forma de aventuras escritas em livros para crianças porque eram todos eles muito infantis. Havia reis numas mansões, rainhas e princesas nos palacetes e das casas saíra o povo para se juntar na única rua da povoação, à espera que se anunciassem casamentos entre as figuras reais. O mais estranho é que eu acordava e adormecia e o sonho nunca tinha um tema diferente, apenas mudavam os protagonistas. Que também vinham vestidos com os mesmos belos fatos dos anteriores casamentos e eram homens e mulheres mais belos do que os do anterior casamento. O único pormenor que tinha a ver com a realidade eram os olhos das rainhas e das princesas, semelhantes aos da jovem que estava ao meu lado na cama. Que significado teriam estes sonhos era o que me perguntava cada vez que acordava, mesmo que não fosse uma questão que me fizesse perder o sono e o sonho seguinte.

Apesar de a jovem parecer demasiado ignorante sobre o que se passava no Freixo e até na própria casa onde trabalhava para ser crível a sua ingenuidade, já que afirmava desconhecer o destino de Sena e da empregada, parti do princípio de que estaria a falar verdade. Os poucos dias de convivência com o meu anfitrião mostravam-me que essa era uma situação possível de acontecer, já que Sena não me parecia pessoa para justificar os seus atos sem a isso ser obrigado. Voltei a fazer mais algumas perguntas à jovem, de forma disfarçada, porque mesmo sem ter qualquer razão para tal o desaparecimento do meu anfitrião parecia-me suspeito e acreditava estar relacionado com o trabalho que envolvia.

Foi sob este interrogatório mascarado em questões postas no meio das conversas que acabei por concluir que o destino da viagem teria sido a Irlanda. Não sei bem explicar porque é que achei ser esta cidade o lugar para onde Sena e a empregada teriam partido, talvez por algumas deixas ou deslizes da jovem no diálogo que mantínhamos, mas nunca consegui arrancar-lhe o segredo - se é que era um segredo! Como também não falava durante o sono, nem nunca pronunciou a palavra Irlanda em qualquer resposta, o facto de ser esta a cidade para onde Sena fora era mais uma crença minha do que uma certeza. Aliás, esta busca pelo destino do meu anfitrião junto da jovem foi a minha primeira experiência no que respeita ao seu conhecimento mais íntimo e sobre a sua pessoa no geral, que mostrou como era mais transparente e ao mesmo tempo opaca do que qualquer outra mulher que já conhecera na minha vida. Até porque mais tarde, após saber que a Irlanda era a resposta certa, questionei-me pelo modo como aí chegara. Não existira nenhuma pista deixada por Sena ou pela empregada; nas nossas conversas, a jovem nunca se aproximara de qualquer referência à cidade ou ao país; nem sequer dissera que iam viajar de avião ou coisa semelhante. No entanto, eu chegara à conclusão correta.

Nesse momento jamais pensei na possibilidade de existir na jovem a capacidade e o poder de induzir em mim qualquer ideia ou pensamento de forma tão inocente como acontecera desta vez, mesmo que mais tarde eu aceitasse que ela era muito mais diferente das pessoas que eu já conhecera do que a princípio desejara admitira. Talvez devesse ter pensado que para Sena me pôr sob a sua trela durante as suas ausências existiria um motivo para além da simplicidade com que me fora apresentada, o de uma criada para todo o serviço.

Foi a descoberta que fiz no entretanto que me surpreendeu. Tudo começou quando pedi à jovem para me trazer alguns jornais de modo a inteirar-me do que se passava no mundo. Desde que chegara ao Freixo, nunca mais lera um jornal e, deste modo, passava-me ao lado a polémica em curso devido à venda de alguns manuscritos do espólio de Fernando Pessoa. Ela não encontrara nenhum jornal nacional e por isso comprara o único que restava, que já nem era daquele dia, o britânico The Observer, onde um jornalista redigia um artigo sobre o que restava da herança literária do poeta e que a família estava a leiloar. O título era "Batalha em Lisboa para interromper leilão de tesouros literários". Quanto ao texto escrito a partir da capital portuguesa, este dizia: O Governo português decidiu, segundo confirmou uma fonte oficial, não permitir a venda em leilão de mais de dois mil documentos de Pessoa. Os documentos incluem 800 páginas com cartas e outros papéis que relatam a amizade do poeta com a Besta. O responsável da casa leiloeira referiu que ainda não havia data marcada para o evento, mas adiantou que deveria acontecer brevemente devido à comemoração dos 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa.

Em seguida, o jornalista J. Hooper relatava a importância do poeta: É uma figura célebre na história da literatura portuguesa, o poeta que melhor exemplifica a lírica nacional sob os signos da timidez, reserva e nostalgia. Antes de terminar o artigo explicava o porquê da polémica que o leilão causava, explorando o facto de que, apesar de os documentos pertencerem aos sobrinhos, a Casa Fernando Pessoa e a Biblioteca Nacional pretendiam evitar a dispersão por via do leilão dos manuscritos por vários compradores, nacionais e estrangeiros. Acrescentava que o seu valor era incalculável e essa era a parte que mais me chamava a atenção. Estava mesmo no fim do artigo do The Observer: Felix Pryor, consultor da Faber Books of Letters disse: O valor dos arquivos deve-se a Pessoa e não à Besta, ou, pode dizer-se, à combinação letal da correspondência entre ambos. Ainda escrevia mais umas linhas sobre os possíveis interessados nas cartas entre Pessoa e a Besta, dando como exemplo o guitarrista Jimmy Page, da banda Led Zeppelin, que durante anos colecionara manuscritos da Besta. Também reproduzia as declarações de um tradutor de Pessoa, Keith Bosley, que retratava o poeta assim: um homem intensamente privado e que se descrevia a si próprio como um degenerado superior, fascinado pelo oculto e que dera cobertura à falsa morte de a Besta ao afirmar ter visto o seu fantasma no dia a seguir ao suicídio na Boca do Inferno.

O último dia livre antes de Sena chegar foi bastante atribulado. Por um lado, a notícia do jornal criara-me uma grande dúvida: será que Sena fora mesmo à Irlanda ou andava envolvido na compra da correspondência entre Pessoa e a Besta? Era demasiada coincidência estar a acontecer esta polémica com uns manuscritos que seriam muito do seu interesse e ter feito uma deslocação misteriosa e inesperada para fora do Freixo. Por outro lado, ainda me faltavam cinco das mansões que Sena "sugerira" visitar e, se não o tivesse realizado antes do seu regresso, creio que o meu anfitrião iria fazer perguntas sobre o modo em como ocupara o meu tempo na sua ausência.

Amanhã: Como Aleister Crowley enganou o poeta irlandês W.B. Yeats

Mais Notícias