"A Ophelinha pode preferir quem quiser". Primeira carta de amor de Pessoa faz 100 anos

O poeta português escreveu a sua primeira carta de amor há um século. No destinatário, um nome: Ofélia Queiroz - ou, nas suas palavras, "Ophelina".

"Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas". Quem o escreve é Álvaro Campos, o heterónimo do português Fernando Pessoa. E "se há amor", dizia, então "tem de ser". A primeira escrita pelo poeta foi a 1 de março de 1920, dirigida a "Ophelina", uma menina de 19 anos, Ofélia Queiroz, e celebra este domingo 100 anos de existência.

Apesar do diminutivo que a evoca inicialmente, é magoado, ofendido até, que Pessoa se dirige ao seu amor na primeira destas cartas. "Para me mostrar o seu desprezo, ou, pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da série de 'razões' tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu", lê-se. Falava de um outro "rapaz" na vida da sua Ofélia, pelo qual demonstra um forte ciúme, mas que diz aceitar, pelo amor que lhe guarda. "Como lhe posso eu levar isso a mal? A Ophelina pode preferir quem quiser", remata.

Os restantes versos do documento são um tratado de lições em que o poeta lembra, afinal, o que é amar.

Leia a carta na íntegra:

Ophelinha

Para me mostrar o seu desprezo, ou, pelo menos, a sua indiferença real, não era preciso o disfarce transparente de um discurso tão comprido, nem da série de «razões» tão pouco sinceras como convincentes, que me escreveu. Bastava dizer-mo. Assim, entendo da mesma maneira, mas dói-me mais.

Se prefere a mim o rapaz que namora, e de quem naturalmente gosta muito, como lhe posso eu levar isso a mal? A Ophelinha pode preferir quem quiser: não tem obrigação - creio eu - de amar-me, nem, realmente necessidade (a não ser que queira divertir-se) de fingir que me ama.

Quem ama verdadeiramente não escreve cartas que parecem requerimentos de advogado. O amor não estuda tanto as coisas, nem trata os outros como réus que é preciso «entalar».

Porque não é franca para comigo? Que empenho tem em fazer sofrer quem não lhe fez mal - nem a si, nem a ninguém -, a quem tem por peso e dor bastante a própria vida isolada e triste, e não precisa de que lha venham acrescentar criando-lhe esperanças falsas, mostrando-lhe afeições fingidas, e isto sem que se perceba com que interesse, mesmo de divertimento, ou com que proveito, mesmo de troça.

Reconheço que tudo isto é cómico, e que a parte mais cómica disto tudo sou eu.

Eu-próprio acharia graça, se não a amasse tanto, e se tivesse tempo para pensar em outra coisa que não fosse no sofrimento que tem prazer cm causar-me sem que eu, a não ser por amá-la, o tenha merecido, e creio bem que amá-la não é razão bastante para o merecer. Enfim...

Aí fica o «documento escrito» que me pede. Reconhece a minha assinatura o tabelião Eugénio Silva.

1.3.1920

Fernando Pessoa

Pouco se sabe sobre a vida amorosa de Fernando Pessoa. Os seus textos são transparentes, os seus heterónimos bem definidos, com traços de fácil caracterização, mas aquilo que é Pessoa permanece uma incógnita, mesmo além da sua vida. A incerteza foi alimentando diversas teorias ao longo dos anos, com alguns biógrafos a caracterizá-lo como um homossexual reprimido Uma tese justificada, em parte, pelo heterónimo Álvaro Campos, que Pessoa imaginou como um homem homossexual, satírico e insatisfeito, lembra o El Mundo que neste domingo assinala o centenário da primeira carta de amor do escritor. Contudo, nada conseguiu provar a ligação que este facto teria com a vida do autor.

A única certeza dada por aqueles que se dedicaram a escrever sobre a vida de Pessoa é a namorada Ofélia Queiroz, sua colega de trabalho num escritório comercial em Lisboa. Ele 32 anos e ela com 19, separava-os 14 anos. O poeta apaixonou-se e, daí, seguiram-se várias cartas de amor. Cartas que a própria decidiu tornar públicas na década de 1970, quase 40 anos após a morte do poeta, em 1935.

Depois destas, seguiram-se outras, onde é possível decifrar a cumplicidade de ambos e como a mesma se deteriorou. "Meu bebé travesso", escrevia numa carta de 5 de abril de 1920. Lembra-a que sentia "a boca estranha por não beijar há tanto tempo". E evocava, no mesmo manuscrito: "Meu bebé, para sentar no colo! Meu bebé, para te mordiscar!". As cartas são uma viagem pelo que esta relação entre o poeta e a jovem adulta, se transformou com o decorrer do tempo, distanciando-os quase definitivamente em novembro deste ano.

Fernando Pessoa nunca casou, embora tenha tido pelo menos mais dois amores na sua vida antes de morrer, segundo os biógrafos. Tudo o mais continua ainda por descobrir.

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