A mãe que não podia saber que o Muro de Berlim caíra

Assinalando os 30 anos da queda do Muro de Berlim, podemos ver ou rever nos cinemas Adeus, Lenine! - ou como a evocação histórica se pode combinar com a leveza da comédia.

Em tempos não demasiado remotos, quando não havia centenas de canais de televisão (nem infinitos circuitos da internet...), as reposições de filmes eram genuínos acontecimentos cinéfilos: a celebração dos clássicos confundia-se com a permanente atualização das memórias. Agora, apesar de tudo, de vez em quando, ainda vamos tendo o privilégio de (re)encontrar filmes que, de um maneira ou de outra, atingiram o estatuto de objetos de culto.

Adeus, Lenine!, uma produção de 2003 realizada pelo alemão Wolfgang Becker, é um desses filmes, revisitando com acutilância realista e contagiante humor os tempos finais da divisão da Alemanha em duas "entidades". A oportunidade da sua reposição é exemplar, uma vez que, como é óbvio, se trata de assinalar a passagem do 30.º aniversário da queda do Muro de Berlim.

Uma breve sinopse poderá ser esclarecedora do saudável espírito crítico que anima o filme de Becker. Esta é a odisseia de Alex, um jovem da Alemanha de Leste interpretado por Daniel Brühl (ator espanhol cuja vida familiar e artística está, toda ela, ligada à Alemanha): a sua grande preocupação é defender a mãe (Katrin Sass) das atribulações do mundo à sua volta... Dito de outro modo: grande defensora do regime comunista, ela entrou em coma perante a agitação que as ruas já anunciavam, só despertando... depois da queda do Muro! Temendo pelo seu frágil coração, Alex tenta preservar a noção de que ainda há duas Alemanhas...

Escusado será dizer que o título, Adeus, Lenine!, constitui uma deliciosa condensação irónica do fim de um ciclo histórico cujo símbolo odioso foi, precisamente, o Muro. Sem abdicar de um realismo austero na caracterização da vida no Leste, o filme desenvolve-se através de uma irresistível comicidade, já que Alex se comporta, afinal, como um bizarro encenador teatral: a casa onde vive com a mãe passa a existir como uma ficção todos os dias renovada.

Além do mais, convém não esquecer que este é um filme cujo estatuto de culto se tornou também inseparável da banda sonora composta pelo francês Yann Tiersen, ele que dois anos antes tinha assinado a música de O Fabuloso Destino de Amélie.

Adeus, Lenine! foi o grande vencedor dos Prémios do Cinema Europeu referentes à produção de 2003, ganhando nas categorias de melhor filme, melhor ator (Brühl) e melhor argumento (Bernd Lichtenberg); sem esquecer que arrebatou também três prémios do público: realizador, ator e atriz. Em boa verdade, trata-se de um filme que soube condensar as convulsões de um momento muito particular na vida da Alemanha e da Europa, mostrando que a frieza da apreciação histórica pode envolver-se com a leveza da comédia.

* * * Bom

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