A inspiração por trás de 'Gambito de Dama', a série de que toda a gente fala

Há semanas consecutivas no top 10 da Netflix, Gambito de Dama chegou de mansinho e venceu no passa-palavra. Mas quem é Beth Harmon? Uma personagem verídica ou criação literária? A resposta está no autor do romance que lhe deu origem.

É admirável que uma série à volta do xadrez, um jogo com tão pouca popularidade, tenha encontrado um público tão vasto. Mais do que isso, o sucesso e aura de Gambito de Dama veio, justamente, criar uma tendência. Houve um aumento significativo de novos jogadores no Chess.com, as pesquisas "como jogar xadrez" no motor de busca do Google atingiram o pico e o romance homónimo em que se baseia a série encontra-se neste momento no top de vendas do The New York Times. É caso para dizer que o segredo está na massa, ou, neste caso, no livro: se é intuitivo pensar-se que a personagem de Elizabeth Harmon seria verídica, mais curioso é perceber que, apesar do invólucro ficcional, há mesmo elementos factuais na sua personalidade... de inspiração masculina.

Walter Tevis (1928-1984), autor de The Queen's Gambit, é a fonte segura para se decifrar a história de Beth Harmon (no ecrã, uma abençoada Anya Taylor-Joy), desde o orfanato, onde foi descoberta como um pequeno génio do xadrez, passando pelo início da vida adulta no Kentucky, até aos grandes torneios, movida pelo desejo feroz de se tornar grão-mestre. "Muitos jogadores são solitários a tentar escapar de problemas pessoais. Gosto de escrever sobre pessoas que são, de certa maneira, excluídas da sociedade... Personagens extremamente inteligentes e fora do lugar", disse o escritor numa entrevista à Chess Life. E a verdade é que próprio tinha qualquer coisa desses solitários.

Tevis aprendeu a jogar xadrez aos 7 anos e aos 9 foi-lhe diagnosticada febre reumática, ficando internado durante um ano, altura em que os pais se mudaram para Kentucky e o deixaram sozinho no hospital. Nesses dias passou a tomar doses de um barbitúrico (fenobarbital) que lhe causava dependência, tal como, em Gambito de Dama, Beth Harmon fica viciada nos calmantes que lhe são dados no orfanato. É aí, de resto, que ela aprende a jogar xadrez, aos 8 anos, com o zelador da instituição.

Mas não será apenas a infância de Beth que reflete a de Tevis. Quando ele saiu do internamento foi para a casa dos pais no Kentucky e na escola teve sérias dificuldades em se relacionar com os colegas - mais uma vez exatamente como Beth, tirando o facto de, em lugar do xadrez, ter procurado refúgio no bilhar. Uma futura obsessão, aliás, bem espelhada nos dois romances que escreveu à volta desse jogo e que foram maravilhosamente adaptados ao cinema, sempre com Paul Newman como protagonista; primeiro em A Vida É Um Jogo (1961), de Robert Rossen, e um quarto de século mais tarde em A Cor do Dinheiro (1986), assinado por Martin Scorsese, que valeu a Newman o único Óscar da sua carreira. O filme em que o veterano é mestre de bilhar de um jovem Tom Cruise.

E há mais pontos de ligação com a personagem de Beth. Quando vendeu os direitos para a adaptação de A Vida É Um Jogo (no original, The Hustler), Walter Tevis era uma grande promessa - chegou a ser comparado a Hemingway - e encaminhava-se para um segundo êxito, The Man Who Fell to Earth (1963), que Nicolas Roeg levaria ao grande ecrã com uma interpretação de David Bowie em O Homem Que Veio do Espaço (1976). Depois disso, o álcool começou a tomar conta das suas noites solitárias. E é aqui que reencontramos o eco de Tevis em Beth, a jovem que se revela um prodígio inequívoco nos primeiros torneios e atravessa posteriormente uma fase manchada pelo alcoolismo.

No caso de Tevis isso significou quase duas décadas sem escrever. Mais precisamente, a beber e a jogar, já não bilhar mas xadrez. Nesses anos estudou o universo tático do jogo de tabuleiro pelas páginas do livro Modern Chess Openings; o mesmo que é oferecido a Beth no orfanato, e que ela devora como se fosse um policial de Agatha Christie. Tevis dedicou-se então a competições locais, em 1974 foi enviado pela revista The Atlantic Monthly para cobrir um torneio e acabou por mergulhar na cena de Las Vegas, sustentando-se durante algum tempo com jogos de bilhar a dinheiro e recuperando a inspiração para voltar à escrita... Em 1972, o americano Bobby Fischer - de quem Tevis reteve o "instinto assassino" da competitividade - tinha derrotado o russo Boris Spassky, em plena Guerra Fria, e o xadrez estava no ponto mais elevado da sua popularidade.

Publicado em 1983, Gambito de Dama foi beber a toda essa atmosfera vivida pelo autor, quando a dita febre da década passada já tinha praticamente desaparecido. Criar Beth Harmon representou uma forma de catarse e, como se lê na capa da revista Chess Life que destacou o romance, fez dele o homem que levou o xadrez ao grande público. Morreria de cancro, cinquentenário, apenas um ano após a publicação do livro.

"As raparigas não jogam xadrez"

Na série escrita por Scott Frank e Allan Scott, a cultura e o rigor das cenas de jogo serão igualmente apanágio da sua fonte literária. Já o ambiente dos torneios de xadrez, sobretudo o último, procurou como sugestão o referido evento histórico de 1972, quando Bobby Fischer defrontou Boris Spassky. Um momento que muitos podem recordar, por exemplo, pelo filme de Edward Zwick, O Prodígio (2014), com Tobey Maguire e Liev Schreiber.

Por sua vez, em Gambito de Dama não é despropositado fazer uma leitura de Beth Harmon como a versão feminina de Fischer. Quem o afirma é o especialista em xadrez do The New York Times Dylan Loeb McClain, que estabelece as semelhanças, desde o estilo agressivo de jogo de ambos à vitória do campeonato dos Estados Unidos em 1967, para além de detalhes como o gosto pelo vestuário sofisticado e o facto de terem aprendido russo como forma de preparação para o encontro com o adversário soviético. Um paralelismo que se revela particularmente delicioso tendo em conta que Fischer desprezava as jogadoras de xadrez, considerando-as menos inteligentes do que os homens. Ideia nem por isso muito chocante na época, como se percebe por uma das afirmações que se ouve na série: "As raparigas não jogam xadrez."

Ao dar vida no papel à protagonista de Gambito de Dama, Walter Tevis quis mostrar que não era assim: "Gosto de Beth pela sua ousadia e inteligência. No passado, muitas mulheres tiveram de esconder o cérebro." Digamos que, para lá da impressão biográfica do autor e da piscadela de olho a Bobby Fischer, é neste elogio do feminino que está parte da atração da série, a qual não deixa de mostrar o outro lado da questão quando Beth se queixa de os media só a destacarem por ser uma mulher entre os homens...

Antes deste lançamento na Netflix, houve um projeto com Ellen Page (que anunciou há poucos dias chamar-se Elliot) no papel da heroína Beth, que se destinava a ser a primeira experiência de Heath Ledger na realização. Na altura, o ator também lutava contra as drogas e era um talento a jogar xadrez. A produção começou pouco antes da sua morte, em 2008. Por entre as peças do tabuleiro, Gambito de Dama é, definitivamente, habitado por fantasmas.

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