A agonia do "Inimigo Público nº 1"

Figura obrigatória da tradição dos filmes de gangsters, Al Capone regressa agora num filme bem diferente: com Tom Hardy no papel central, "Capone" é um retrato quase intimista do último ano de vida do "Inimigo Público nº 1".

Perante a estreia de Capone, produção americana assinada por Josh Trank, não podemos deixar de evocar toda uma árvore genealógica dos filmes de gangsters. Em particular na tradição do filme "noir", Al Capone (1899-1947) surge, obviamente, como figura incontornável - foi ele, afinal, que recebeu o cognome de "Inimigo Público nº 1".

Há mesmo uma longa filmografia do gangster de Chicago (nascido em Nova Iorque) que começa em 1959, com Rod Steiger a protagonizar Al Capone, uma realização de Richard Wilson, incluindo também, por exemplo, a performance barroca de Robert De Niro em Os Intocáveis (1987), de Brian De Palma. Isto sem esquecer a sua derivação simbólica como "Scarface" nos dois títulos homónimos: o primeiro de 1932, com Paul Muni, o segundo de 1983, com Al Pacino (dirigidos, respetivamente, por Howard Hawks e De Palma).

Com data de produção de 2020, o novo Capone é um dos muitos filmes que teve a sua vida comercial afetada pela pandemia. No mês de maio, foi mesmo lançado diretamente para aluguer em plataformas de streaming de EUA e Canadá, sendo Portugal um dos poucos países em que surge nas salas escuras.

É bem verdade que dificilmente encontramos aqui as marcas de qualquer tradição, em particular dos emblemáticos filmes de gangsters de "série B" como Massacre de Chicago (1967), de Roger Corman, com Jason Robards no papel de Capone. Mas importa reconhecer que a realização de Trank, também responsável pelo argumento, procura outra dimensão dramática.

O filme centra-se no ano final da vida de Capone, quando, perante o agravamento do seu estado de saúde, as autoridades o libertam da sentença a que fora condenado, em 1931, permitindo-lhe uma existência de reclusão, hiper-vigiada pelo FBI, numa mansão na Florida. Descobrimos, assim, uma personagem decadente, genuinamente trágica: por um lado, Capone sofre de demência, a par de uma acelerada degradação das funções vitais do corpo; por outro lado, alguns elementos do seu clã e o próprio FBI acreditam que ele escondeu, algures, uma fortuna de 10 milhões de dólares...

O impacto de tudo isto depende, em grande parte, da interpretação de Capone pelo inglês Tom Hardy. Ele é, de facto, um daqueles atores que, para o melhor ou para o pior, se "especializou" em personagens que implicam grandes desafios físicos - lembremos o seu maléfico Bane em O Cavaleiro das Trevas Renasce (2012), de Christopher Nolan, sem esquecer, claro, o herói de Mad Max: Estrada da Fúria (2015), de George Miller. Desta vez, Hardy compõe um Capone de corpo martirizado e mente alucinada que vai gerando uma dúvida insólita naqueles que o rodeiam: será que ele já passou para o lado da loucura ou, pelo contrário, montou uma elaborada estratégia de fingimento de modo a ganhar tempo para recuperar o seu dinheiro?

O filme possui um requinte cenográfico pouco comum em projetos americanos independentes desta dimensão. O orçamento de 20 milhões de dólares é mesmo um valor baixo quando comparado com os investimentos correntes dos grandes estúdios de Hollywood (vale a pena lembrar que, entre os produtores, encontramos o nome de Lawrence Bender, aliado frequente de Quentin Tarantino, nomeadamente em Pulp Fiction). E não há dúvida que a composição de Hardy consegue, pelo menos, expor o lado demoníaco de Capone, paradoxalmente enraizado num conceito caloroso e tribal da própria família.

É pena que as memórias de Capone como gangster sejam tratadas em "flashbacks" mais ou menos redundantes, num registo "barroco" que contrasta com o inquietante intimismo das cenas caseiras, por certo menos exuberantes, mas mais elaboradas. Nesta perspetiva, merece algum destaque a presença discreta, mas intensa, de Mae, a mulher de Capone, interpretada por Linda Cardellini, uma atriz cujo talento continua a ser "limitado" a pequenos papéis secundários.

* * Com interesse

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