Investigação. Células do cordão umbilical usadas para tratar diabetes

Uma investigadora portuguesa acaba de publicar um artigo científico que defende o uso das células estaminais no tratamento da diabetes tipo 2, através de transplante. Andreia Gomes, especialista em em biologia molecular e cultura celular, é diretora técnica da BebéVida, no Porto, e acredita que a prática pode chegar ao SNS.

Acabou de publicar um artigo na revista científica Cell and Tissue Research, em que sustenta que as células estaminais (extraídas do cordão umbilical) podem ser utilizadas para tratar a diabetes tipo 2?
A diabetes tipo 2, apontada como uma das epidemias do século, é considerada um distúrbio metabólico crónico, representando um grande fardo para a sustentabilidade dos sistemas de saúde e um importante desafio para a saúde pública das sociedades modernas. Os tratamentos disponíveis ainda dependem, principalmente, de combinações de agentes antidiabéticos orais com estilo de vida e ajustes nutricionais. Apesar dos desenvolvimentos contínuos de novos e melhores medicamentos hipoglicémicos, a sua eficácia é limitada no aparecimento e progressão das complicações silenciosas associadas à diabetes tipo 2.

Ao longo do tempo, tem sido verificado que o tecido do cordão umbilical é uma fonte fiável, útil, completamente segura para a mãe e para o bebé e de fácil acesso de células estaminais mesenquimais. Este facto aliado às propriedades imunomodulatórias, não imunogénicas, secretórias, proliferativas e multipotentes das células estaminais mesenquimais formulam um conjunto específico de características que fazem com que estas células do tecido do cordão umbilical sejam consideradas candidatas ideais para aplicação em medicina regenerativa e terapia celular em várias patologias, nomeadamente na diabetes tipo 2.

Mas de que forma?
As células mesenquimais do tecido do cordão umbilical, depois de estarem na corrente sanguínea, apresentam uma aptidão de se dirigirem para o local inflamado exercendo os seus efeitos benéficos (homing). Não menos importante, o secretoma (tudo aquilo que as células produzem e libertam, como por exemplo os vários fatores solúveis, moléculas biologicamente ativas e vesículas extracelulares) apresenta também efeitos angiogénicos, anti-inflamatórios, imunosupressores e imunomoduladores. Desta forma, o secretoma pode também ser considerado como um excelente agente terapêutico, podendo também ser utilizado como terapia acelular (sem recurso ao uso integral das células) ou coadjuvante a outras terapias.

Em vários estudos verificou-se que o transplante de células mesenquimais derivadas do cordão umbilical e o tratamento com o secretoma destas células combatem os efeitos prejudiciais da hiperglicemia e progressão da diabetes tipo 2 através da atenuação da inflamação crónica e disfunção das células β pancreáticas.

E como é que a investigação científica chegou a essa conclusão?
Pode-se salientar a melhoria na recuperação funcional do tecido muscular cardíaco isquémico, o atraso da progressão da retinopatia diabética, a exibição de efeitos nefroprotetores, a melhoria da função imunológica global e a diminuição da inflamação crónica e da disfunção das células β pancreáticas. Além disto, as células estaminais mesenquimais do cordão umbilical revelaram-se promissoras na aceleração da cicatrização de feridas diabéticas pelo incremento do processo angiogénico, favorecendo a reparação de tecido e revascularização.

Investigações extensas, sobre as aplicações terapêuticas das células mesenquimais do cordão umbilical, representam assim um salto incomensurável na área da saúde nomeadamente no combate à progressão da diabetes tipo 2, que aflige a vida quotidiana de milhões de doentes. Atualmente, estes estudos científicos já nos provam o valor terapêutico destas células na diabetes tipo 2 e em outras patologias. A partir do momento que as comunidades científica e médica dominarem totalmente as técnicas para modular as células mesenquimais do cordão umbilical, faremos pleno uso de todo o conjunto de propriedades e do potencial regenerativo, revelando um espetro imprevisível de novidades terapêuticas.

As evidências e resultados de que fala no seu artigo - tendo por base modelos experimentais, observações pré-clínicas e ensaios clínicos - são exatamente quais?
Considerei as investigações que avaliaram os efeitos das células estaminais mesenquimais do cordão umbilical na progressão da diabetes tipo 2 e das complicações associadas, como por exemplo a nefropatia, retinopatia e neuropatia diabética. Após uma específica e detalhada pesquisa dos vários estudos e ensaios mundialmente realizados até ao momento, foram considerados todos aqueles que apresentaram resultados importantes, fiáveis e representativos usando modelos experimentais (por exemplo: avaliação dos efeitos das células mesenquimais em vários tipos celulares pancreáticos, endoteliais, hepáticos, entre outros), observações pré-clínicas e ensaios clínicos (avaliação dos efeitos das células mesenquimais em doentes com diabetes tipo 2 que incorporam este tipo de ensaio e portanto, são transplantados com estas células). Normalmente, os estudos em modelos experimentais são precedentes aos ensaios pré-clínicos e clínicos. A ferida diabética também foi um dos pontos principais abordados neste artigo uma vez que o seu aparecimento no diabético é prevalente. Para este caso tanto a aplicação das células mesenquimais no tecido lesado, como o efeito dos fatores libertados por estas células, foram capazes de promover a regeneração da pele. Após o transplante, os doentes apresentaram cicatrização acelerada, que foi demonstrado por uma rápida diminuição do tamanho da ferida. Um outro ensaio clínico também demonstrou o efeito imunomodulador destas células no pé diabético. Neste ensaio clínico, houve uma melhoria significativa, não apenas na recuperação do pé diabético, mas também na glicémia e na sensibilidade à insulina, sublinhando assim o efeito anti-inflamatório das células mesenquimais do cordão umbilical.

E os ensaios clínicos aplicaram-se tanto a crianças como a adultos?
Sim. Uma das grandes particularidades destas células é que, após criopreservação e regaste, podemos multiplicar o seu número de forma a obtermos o número suficiente para uso terapêutico em adultos. Nos vários ensaios clínicos, foi possível destacar o efeito terapêutico destas células nas complicações associadas à diabetes tipo 2, mas também a nível pancreático e na resistência à insulina. Um exemplo deste efeito é representado por um ensaio clínico que, 24 meses após a infusão de células mesenquimais do cordão umbilical, demonstrou uma diminuição significativa na média diária de insulina administrada e metade dos doentes que participaram no ensaio clínico ficaram independentes da administração de insulina.

Parece-lhe que atualmente a preservação das células do cordão umbilical está já massificada? Que dados existem sobre isso?
A crioconservação das células estaminais mesenquimais obtidas a partir do tecido do cordão é uma prática rotineira nos principais bancos privados de sangue do cordão dos países desenvolvidos. São já cerca de 150 bancos de sangue do cordão umbilical espalhados pelo mundo que se dedicam à crioconservação do tecido do cordão umbilical. Não existem estatísticas publicadas sobre o número de amostras de tecido do cordão armazenadas em bancos de sangue do cordão umbilical, mas é certo que a maioria dos bancos familiares já se dedicam ao armazenamento deste tipo de células.

Parece-lhe possível incuti-la no Serviço Nacional de Saúde, em Portugal?
Naturalmente, o ideal seria a inclusão desta terapia no SNS. Sabe-se que é uma terapia menos económica que as terapias atualmente usadas, mas que até hoje, apresenta o potencial de recuperação e não somente de controlo da doença. Por este motivo, cada vez mais a classe médica está mais atenta a este tipo de inovações. O uso das células mesenquimais de outras fontes, como por exemplo da medula óssea, surgiu há mais tempo e, portanto, está melhor caracterizado e estudado para o tratamento de várias patologias. No entanto, a quantidade de células mesenquimais obtidas na medula óssea é consideravelmente menor comparativamente à do cordão umbilical. Para além disso, para a colheita destas células a partir da medula óssea são sempre necessários procedimentos invasivos e com risco associado ao dador. Isto, associado ao facto dos benefícios de ambos tipos celulares serem idênticos, são algumas das grandes vantagens que cordão umbilical apresenta relativamente a outras fontes de células mesenquimais.

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