Descoberta de investigador português em Nova Iorque pode ser novo trunfo no combate à tuberculose

Biólogo portuense Tiago Beites descobriu que a deleção de uma proteína da bactéria da tuberculose a impede de se alimentar dos ácidos gordos fundamentais para a sua proliferação e provoca a sua morte. Estudo é hoje publicado na revista ​​​​​​​Nature Communications.

Uma proteína "descoberta" por um investigador português a trabalhar na Faculdade de Medicina da Universidade de Cornell, em Nova Iorque, pode vir a abrir novos caminhos importantes no combate à tuberculose, que, apesar de ter uma cura identificada, continua a ser uma das doenças infecciosas mais mortais para a humanidade.

Antes de surgir o vírus SARS-CoV-2, que espalhou a pandemia de covid-19, a Mycobacterium tuberculosis - bactéria também conhecida por bacilo de Koch (em honra do bacteriologista alemão que a descobriu, Robert Koch) - era o agente patogénico que provocava mais mortes no mundo, e em 2020 estima-se que tenha estado associado a cerca de 1,5 milhões de óbitos.

De acordo com o último relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a doença, as mortes por tuberculose aumentaram no último ano, "pela primeira vez em mais de uma década", na sequência da resposta global contra a covid-19, que "fez retroceder anos de progresso". E mesmo nas urgências dos hospitais portugueses se tem assistido a um regresso de casos de tuberculose grave nos tempos mais recentes, como ainda na semana passada foi denunciado pela infecciologista Maria João Brito, responsável pela Unidade de Infecciologia do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa.

Identificar novos tratamentos mais eficazes contra a doença continua a ser uma prioridade assinalada pela OMS e a descoberta recente de Tiago Rodrigues Beites, que esta segunda-feira é publicada na prestigiada revista científica Nature Communications, pode ser um importante passo em frente.

A bactéria da tuberculose ataca sobretudo os pulmões e depende dos ácidos gordos e do colesterol do hospedeiro como fonte de energia para a sua sobrevivência e proliferação. E a ciência já tinha identificado a enzima da bactéria que consegue metabolizar esses ácidos gordos do corpo humano: a acil-coenzima A desidrogenase (acil-CoA desidrogenase).

"Mas esta enzima faz parte de uma cadeia mais complexa, que regula a sua função", explica Tiago Beites. E o que o investigador português e a sua equipa na Weill Cornell Medicine descobriram foi que existe uma proteína que integra essa espécie de teia enzimática sem a qual a acil-CoA não é capaz de ter a sua normal atividade. Ou seja, "deixa de ser capaz de se alimentar dos ácidos gordos" e a bactéria acaba por morrer, segundo verificaram através de testes in vitro e em modelo animal (ratinhos), cujos resultados são então agora publicados naquela revista científica, num estudo já revisto por pares.

Neste estudo, "a bactéria deixou de conseguir replicar-se em modelos de infeção pulmonar de ratinhos e, ao fim de 56 dias, foi erradicada do organismo".

Ao DN, o cientista portuense, de 37 anos, doutorado em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e desde 2015 a trabalhar em Nova Iorque, começa por explicar que, enquanto especialista em genética bacteriana, o seu trabalho consiste "em encontrar pontos fracos na bactéria". E aí, apesar de a bactéria da tuberculose ter sido descoberta no século XIX, há ainda "uma caixa negra" por explorar, já que, sublinha Tiago Beites, continua a ser "desconhecida a função de mais de metade das proteínas" da Mycobacterium tuberculosis.

O cientista ficou particularmente interessado numa delas, "que parecia estar associada ao processo de produção de energia da bactéria". Trata-se de uma proteína que o investigador português nomeou como ETFD e que, "em ação conjunta com uma flavoproteina (ETFBA), tem um papel fundamental na atividade da enzima acil-CoA desidrogenase, a tal que permite à bactéria alimentar-se dos ácidos gordos do hospedeiro para a sua sobrevivência", explica.

E esta descoberta abre uma nova via terapêutica de ataque à doença, refere o investigador, que neste estudo mostrou que, manipulando geneticamente a bactéria para lhe retirar o gene dessa proteína ETFD, "a mesma deixou de conseguir replicar-se em modelos de infeção pulmonar de ratinhos e ao fim de 56 dias estes conseguiram erradicá-la do organismo". Mais: não só o bacilo de Koch deixou de conseguir alimentar-se dos ácidos gordos, como estes acabaram por se tornar tóxicos para a própria bactéria, numa reviravolta até aqui desconhecida.

Perante a dificuldade de se atuar diretamente sobre as enzimas acil-CoA desidrogenase - "a bactéria tem 35 espécies diferentes destas enzimas, o que designamos de redundância genética, e não se consegue eliminá-las todas quimicamente ao mesmo tempo" -, esta descoberta fundamental assinala uma outra via de combate à tuberculose.

Com a identificação da função desta proteína ETFD, sem a qual a bactéria não conseguiu sobreviver neste estudo, "podem ser estudadas soluções farmacológicas que ataquem essa via", refere Tiago Beites, que procura já parcerias com outras equipas de investigadores ligados à área química, de produção de fármacos.

E como a ETFD não tem proteínas homólogas humanas, "é um alvo interessante, porque oferece menos riscos de efeitos secundários", sublinha o cientista, explicando a importância de "o desenvolvimento de antibióticos ser o mais direcionado possível para o patogénico, de forma a oferecer menos risco para o hospedeiro".

Perante uma doença que tem atualmente um tratamento bastante complexo, implicando a toma de quatro antibióticos diferentes ao longo de seis meses, e ameaçado pelo crescente fenómeno das bactérias multirresistentes, a descoberta do portuense Tiago Rodrigues Beites pode oferecer um novo e importante trunfo à comunidade científica.

rui.frias@dn.pt

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