Basilisco, a quimera que atemoriza a Europa há vinte séculos

Perdura no imaginário coletivo há perto de dois mil anos. O basilisco é criatura demoníaca, cuspidora de fogo, de olhar matador. Também alvo de muitos embustes ao longo da história e mote inspirador para as letras.

Chamado pela designação científica de Squatina squatina o peixe cartilagíneo, predador que, comummente, é apelidado de peixe-anjo. Um exemplar capturado por volta do século XVI assume protagonismo no Museu de História Natural de Veneza. Faça-se uma pesquisa online à boleia da galeria virtual Google Arts & Culture, parceria da gigante tecnológica com museus de todo o mundo, para "recolhermos" naquele imenso catálogo digital, a imagem singular do Squatina squatina pertença do acervo do museu italiano. Há que submeter a pesquisa ao termo basilisco, para vermos devolvido o perfil da criatura que há perto de 20 séculos ensombra o imaginário ocidental.

A quimera em mostra no museu veneziano tem autoria atribuída a Leone Tartaglini, taxidermista toscano. Artefacto singular, combina corpo informe de víbora e cabeça de galo ostentando mandíbula e bico belicosos. Tartaglini engendrou a sua criatura de pesadelo a partir de segmentos de um ou vários peixes-anjo. O embuste dava forma ao ente descrito em inúmeros bestiários europeus, compêndios explicativos de criaturas naturais e fantásticas. Obras que bebiam de fontes anteriores, como o Fisiólogo, manuscrito grego resultado da compilação de lendas com origem nas tradições indiana, egípcia e judaica, com os contributos gregos de textos clássicos de Aristóteles e Heródoto, entre outros.

O basilisco corporizado por Tartaglini viajava há muito nas lendas europeias. Também conhecido como "pequeno rei", numa alusão à crista em forma de coroa que adquiriria mais tarde, o ente tornara-se símbolo da figura alegórica da morte, do medo, do diabo. De tal ordem temido pelas gentes que no século XV designavam a sífilis como veneno de basilisco.

Há que recuar ao século I d.C. para encontrar o antepassado do basilisco medieval e renascentista. Plínio, o Velho, naturalista, escritor e historiador romano, incluiu na sua obra monumental, em 37 volumes, Naturalis Historia, a descrição de uma pequena serpente fantástica, originária da África Setentrional, capaz de cuspir fogo. Na mesma época, Pedânio Dioscórides, autor greco-romano, reconhecido para a posteridade como fundador da farmacognosia (com base em princípios ativos naturais, animais ou vegetais), dá nota da existência do basilisco, ainda como serpente cuspidora de fogo.

Quis o imaginário medievo juntar à anatomia do basilisco a cabeça de galo, penas, pernas e ampliar-lhe o alcance mortífero. A criatura passava a matar com o olhar e protagonizava em escritos da época, como o atribuído a Theophilus Presbyter, compêndio do século XI, com origem em Viena e que detalha as artes medievais, como as iluminuras, fundição de sinos, frescos e dissecação de órgãos. Schedula diversarum artium incluiu a receita para converter cobre em ouro. Para tal, havia que considerar, entre os ingredientes, sangue de basilisco em pó.

Já no século XVI, Leonardo da Vinci descreve o basilisco como uma criatura cruel. Renascimento que mantinha viva a lenda da quimera. Ulisse Aldrovandil, naturalista bolonhês, fundador do jardim botânico daquela cidade italiana, apresentava no século de quinhentos a gravura de um basilisco dissecado. Ilustração com base nos cadáveres de um peixe-anjo e raia.

No século XVIII, Benito Jerónimo, filósofo galego, negava a existência de criatura capaz de matar com o olhar. Entidade que, entretanto, se acomodara como fábula inspiradora do mundo das letras. No século de setecentos, Jonathan Swift, escritor anglo-irlandês que nos legou obras como As Viagens de Gulliver, levava para a sua poesia a presença do basilisco. Também o poeta inglês Percy Shelley, "capturava" para o seu edifício literário a criatura mescla de serpente e galo. Na mesma época, aquela que seria a segunda mulher de Percy, Mary Shelley, procurava o reconhecimento do mundo das letras com a sua obra inaugural, Frankenstein.

Basilisco que visitou a obra de Bram Stoker, romancista, poeta e contista irlandês, que deu às letras, corria 1897, o romance gótico Drácula. No capítulo IV, o protagonista Jonathan Harker visita a cripta do vampiro que desperta do seu sono imortal com olhar de basilisco.

O mundo contemporâneo mantém acesas as referências em torno da criatura que é o animal heráldico da cidade de Basileia, na Suíça. O norte-americano George R.R. Martin, autor da saga Crónicas de Gelo e Fogo, que o pequeno ecrã popularizou como A Guerra Dos Tronos, fez do basilisco criatura venenosa encontrada nas selvas de Yi Ti, nas ilhas Basiliscas.

A quimera do século I d.C. apegou-se à cultura pop e chegou ao cinema à boleia da obra saída da inventiva da britânica J.K.Rowlings. No segundo volume de Harry Potter, o protagonista enfrenta a fúria de um basilisco.

Longe dos grandes ecrãs, nas sombras dos bosques da Cantábria, no norte de Espanha, subsiste a lenda de uma criatura das trevas, nascida do ovo posto por galo velho, pouco antes da sua morte, exatamente às 12 badaladas em noite de lua cheia. O basilisco não é, ali, um peixe-anjo.

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