Bactéria descoberta no mar da Madeira pode ser uma fonte para novos antibióticos

Nova estirpe bacteriana com código genético diferente das já conhecidas apresenta grande potencial para o estudo de novos antibióticos - uma necessidade cada vez mais urgente.

Numa espécie de corrida contra o tempo, face à ameaça crescente das bactérias multirresistentes que põem em causa a eficácia dos antibióticos, a comunidade científica procura novos compostos que possam reforçar o "arsenal" de fármacos disponível. A missão leva os cientistas a alargarem cada vez mais os horizontes de exploração até sítios tão inusitados, como, por exemplo, as profundezas do mar da Madeira, "um tesouro pouco explorado" onde uma equipa de investigadores portugueses encontrou agora uma bactéria com grande potencial para o estudo de novos antibióticos e outros medicamentos.

Mais de dois terços dos antibióticos de origem natural existentes provêm de um género de bactérias especialmente prolífero, as Streptomyces, do qual já se conhecem mais de 500 espécies. A capacidade que manifestam para se adaptar e sobreviverem em ambientes extremos torna-as especialmente interessantes para os investigadores, pois "estas bactérias, para se defenderem das ameaças de outros microrganismos, produzem compostos químicos com potencial terapêutico", explica ao DN a investigadora Marta Vaz Mendes, do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S).

Ora, estas bactérias são encontradas predominantemente no solo e na vegetação em decomposição. São elas, por exemplo, as responsáveis pelo "cheiro característico de terra molhada", refere a cientista, o qual resulta da produção de um metabolito volátil denominado por geosmina (perfume da terra, em grego). Mas, além do solo, também podem ser encontradas em ambiente aquático, para onde os investigadores olham cada vez mais, à procura de estirpes ainda desconhecidas que ofereçam novas soluções terapêuticas.

"O fundo do mar constitui uma verdadeira fronteira inexplorada e uma fonte potencial de drogas inovadoras", reconhece Marta Vaz Mendes. E foi em amostras recolhidas nas águas profundas do mar da Madeira que a sua equipa, em parceria com investigadores do CIIMAR e do Observatório Oceânico da Madeira/Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, conseguiu identificar duas novas estirpes de bactérias Streptomyces, no âmbito do projeto ActinoDeepSea, financiado pela FCT e que explora as águas profundas de Portugal continental e das ilhas dos Açores e da Madeira, recorrendo a robôs de exploração subaquática.

Mais de dois terços dos antibióticos de origem natural existentes provêm destas bactérias especialmente prolíferas, as Streptomyces. A capacidade para sobreviverem em ambientes extremos torna-as atrativas para os investigadores.

Das duas estirpes identificadas pelos investigadores, uma delas parece ser semelhante a uma espécie já conhecida, "não adicionando, à primeira vista, muito de novo". Mas a outra, identificada como MA3_2.13, é "suficientemente diferente para poder ser proposta como nova espécie de Streptomyces", apresentando "um código genético diferente do que existe nas coleções de bactérias que conhecemos, com potencial metabólico muito interessante para a produção de novos compostos", diz a bioquímica, acrescentando que cada bactéria deste género produz, em média, 40 compostos diferentes, "o que oferece uma grande variabilidade" do potencial terapêutico - além de antibióticos, também podem dar origem a anticancerígenos, antifúngicos e outro tipo de medicamentos.

Quanto a esta MA3_2.13, "os primeiros dados apontam para a produção de compostos com estruturas químicas únicas e com potencial relevância para a descoberta de novos antibióticos", adianta a investigadora do grupo Bioengineering & Synthetic Microbiology do Instituto i3S.

Bactérias multi-resistentes provocam 700 mil mortes por ano

Segundo dados das Organização Mundial da Saúde, morrem todos os anos pelo menos 700 mil pessoas devido a doenças resistentes a medicamentos e, se nada for feito até lá, estima-se que em 2050 essas infeções causem mais mortes do que o cancro.

Os antibióticos, amplamente utilizados após a descoberta da penicilina na primeira metade do século XX, foram um dos mais importantes marcos de progresso na medicina, permitindo a sobrevivência a infeções que até então eram fatais. Mas "o uso generalizado e muitas vezes abusivo destes compostos levou a que muitas bactérias, que têm uma capacidade de adaptação muito grande, criassem resistência aos antibióticos de uso mais corrente". Há já mesmo antibióticos "que só podem ser utilizados em contexto hospitalar, porque são o último recurso para determinadas patologias e se eles falham não há mais nada a fazer", sublinha a investigadora. O que reforça a urgência no aumento do leque de opções.

Agora, descoberta a nova bactéria, as etapas seguintes para a equipa de Marta Vaz Mendes passam por conseguir ativar, em cultivo de laboratório, o arsenal de metabolitos (reações químicas) que ela produz no seu ambiente natural, o que por vezes não acontece. Para isso, os investigadores usam diversas estratégias, "desde fazer crescer a bactéria em várias condições diferentes [por exemplo, colocando mais ou menos sal no meio]" ao recurso a abordagens de biologia sintética, como "copiar o código genético desta bactéria e introduzi-lo noutra Streptomyces com histórico comprovado de crescimento em cultivo", explica a bioquímica. Depois disso, é avaliado então o potencial e a toxicidade desses metabolitos.

Se tudo correr bem (e isso passa também, inevitavelmente, pelo financiamento), "pode haver compostos novos daqui a três anos, ou até menos", diz Marta Vaz Mendes.

rui.frias@dn.pt

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