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De Ses Illete a Nacpan Beach. Cinco praias, cinco sonhos

PremiumComo é que se escolhe as cinco melhores praias onde alguém já esteve? As mais marcantes acabam por estar logo na ponta da língua e só à quarta ou à quinta começa alguma dúvida a surgir. O local onde se encontra, o mar, a areia, a vegetação, o acesso, a companhia com que se estava, o momento da vida, tudo influi na decisão de fazer um top 5 das praias mais bonitas do mundo. Não foi fácil, mas depois de centenas e centenas de viagens em lazer e em trabalho (para a revista Volta ao Mundo), aqui estão elas, as praias da minha vida, fora de Portugal. Em comum todas têm duas características: temperatura da água acima dos 26 graus e enquadramentos naturais que podiam ter sido sonhados. E mais uma coisa: todas elas me deixaram sem palavras quando lá cheguei.

Quatro Estrelas Michelin

Foram cinco dias a caminhar entre os 1500 e os 3800 metros de altitude, para cima e para baixo pelos Andes peruanos. À custa de um mosquito e da infeção que causou, os pés já estavam a passar para o azul, depois da vermelhidão e das comichões iniciais. Só doíam ao fim de cada dia do trekking, quando o corpo percebia que era tempo de descansar. A última noite antes de chegar a Aguas Calientes - que hoje se chama Machu Picchu Pueblo - foi passada num baldio de uma pequena aldeia que não sei mesmo se teria nome. Num rés-do-chão com as portas fechadas, Freddy, o guia, montou uma discoteca. A bola de espelhos rodava, a música saía do computador e, na parede, posters de duas impossibilidades por aquelas paragens: Tina Turner e uma praia paradisíaca.

A Sra. Dona Maria Helena

Já sabia quem ela era, mas nunca a tinha visto ao vivo. Estendi a mão quase sem levantar os olhos do chão. A pele marcada e fria dos seus dedos pareceu-me estranha. A cara enrugada, os óculos, o cabelo branco apanhado no topo da cabeça, o sorriso tranquilo deixaram-me mais tranquilo. "Muito prazer", disse-me. Estávamos no 14.º Arrondissement de Paris, na sua casa, onde vivia desde o fim da década de 1930 com o marido, que entretanto já tinha morrido. Pintor, como ela.

Os meus 387 euros

Leio no Dinheiro Vivo (28-11-2019) que "os portugueses deverão gastar neste ano uma média de 387 euros em compras de Natal por agregado familiar". Diz a mesma notícia, baseada num estudo da Deloitte, que serão mais nove euros do que em 2018 e que a média europeia é de 461 euros. Tenho muito medo de médias, assustam-me. Se alguém receber cinco mil euros por mês e outra pessoa levar para casa 600, a média de ambos os ordenados é de 2800 euros. Parece simplista, não é? Mas é a verdade dos números.

Mon chéri

"Nestas serras o esquecimento está cheio de memória." A cem quilómetros de Cáceres, na Extremadura espanhola, a placa junto ao miradouro é daquelas que fazem pensar. A vista para as tais serras impressiona. Esta é terra de cereja, é o Vale do Jerte, a área de maior produção de cerejas de Espanha, com mais de um milhão e meio de árvores. E é a terra de um dos maiores massacres da história de Espanha. Mirador de la Memória é o nome daquele ponto de vista pejado de estátuas. Foi idealizado por Francisco Cedenilla Carrasco e é uma homenagem às vítimas da Guerra Civil Espanhola e da ditadura franquista. As imponentes estátuas têm marcas de balas do tamanho de cerejas. Em 2011, três anos depois da inauguração do espaço, pai e filho vieram aqui praticar tiro ao alvo, insatisfeitos com a democracia. Vandalizaram o miradouro a tiros de caçadeira. O Agrupamento de Cooperativas do Vale de Jerte tem mais de 3500 sócios, representa 80% da economia local e chega a uma média anual de 15 milhões de quilos de cereja. Feitas as contas, são cerca de 50 milhões de euros arrecadados por ano, fruto (que melhor palavra?) das vendas para o mercado espanhol e internacional. A Ferrero vem aqui buscar cerejas para as enfiar dentro de um bombom de chocolate inundado por licor. É um dos campeões de vendas da marca em cada Natal. E a cada Natal recorda-se por estas terras o 25 de dezembro de 1937, quando um grupo de 60 guardas civis fuzilou 34 homens no campo de tiro de um quartel de Cáceres, a cidade-museu da Extremadura. Eram professores, sindicalistas, militantes de partidos democráticos. E nem o alcaide da cidade escapou. Nos dias seguintes, a cifra chegou às 196 execuções. No tempo das cerejas, que não se esqueça o passado.