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Ainda Biden não se sentou e Xi já lhe está a fazer xeque

Ainda é cedo para perceber o alcance do novo acordo comercial patrocinado pela China e que abrange uma quinzena de países da Ásia-Pacífico, incluindo Japão, Coreia do Sul e Austrália, mas basta envolver 2,2 mil milhões de consumidores, um terço do comércio global e um quarto do PIB mundial para ser tido em conta, incluindo nos Estados Unidos, onde se está a dois meses de Joe Biden assumir a presidência, com o contrariar da ascensão chinesa como principal desafio, uma das poucas linhas de continuidade com o derrotado Donald Trump.

"Após quatro anos de pesadelo que volte a democracia à americana"

Professor na Universidade Brown, este açoriano que chegou aos Estados Unidos em 1972 para fazer mestrado e doutoramento é uma grande figura da comunidade luso-americana, autor de inúmeros livros como L(USA)lândia e (Sapa)teia Americana ou A Obsessão da Portugalidade. Onésimo Teotónio Almeida tomou posição enquanto cidadão americano contra Donald Trump, agora analisa para o DN as eleições que deram a vitória a Joe Biden.

Até onde irá a paciência de Biden com a China?

Em resposta a um pedido de Richard Nixon para comentar a Revolução Francesa, o primeiro-ministro Zhou Enlai terá respondido "ainda é cedo para avaliar". Sabe-se hoje que o delicioso episódio ocorrido durante a histórica visita a Pequim em 1972 é de certa forma falso, pois o intérprete do presidente americano veio há pouco tempo esclarecer que tudo não passou de um mal-entendido, já que o primeiro-ministro chinês achou que Nixon se referia ao Maio de 68 e não aos acontecimentos de 1789. Mas, como dizem os italianos com certa graça, se non è vero, è ben trovato, pois exemplifica a proverbial paciência chinesa, e afinal uma civilização com mais de 3000 anos não se pode basear numa ideia de pressa.

Trump vs Kamala em 2024

Num célebre debate televisivo em 1984, em vésperas de ser reeleito, Ronald Reagan, de 73 anos, responde com uma tirada genial a uma pergunta do moderador sobre a idade certa para se ser presidente. Diz o candidato republicano, antigo ator, garantir que não fará da juventude do adversário um tema da campanha. Até Walter Mondale, 17 anos mais novo, não consegue prender o riso. Nas urnas o democrata acaba esmagado pelo mais velho presidente dos Estados Unidos, título disputado por Donald Trump, se consideramos a chegada à Casa Branca, pois tinha 70, mas agora batido sem nuances por Joe Biden, que terá 78 anos no dia da tomada de posse.

Se calhar o melhor é dar já um Nobel e um Óscar a Trump

Os meus planos eram claros para aquelas presidenciais de 2000: acabava a cobertura de duas semanas de campanha através da América em Nashville, assistia ali à provável festa da vitória de Al Gore na terça-feira, 7 de novembro, enviava a reportagem da capital do Tennessee para o DN a 8 e regressava de avião a Portugal logo no dia 9. Fiquei nos Estados Unidos mais duas semanas, a ver gente a contar e recontar votos em West Palm Beach, a falar também com gente que protestava naquela cidade da Florida contra os avanços e os recuos da justiça, até que recebi ordem para voltar a Portugal. E só a 12 de dezembro, portanto mais de um mês depois da votação, George W. Bush foi dado como vencedor. Fiz a notícia já na redação em Lisboa.

As areias do Sara mexem e no sentido favorável a Marrocos

Para Marrocos, a abertura na quarta-feira de um consulado dos Emirados Árabes Unidos em Layounne, a capital do Sara Ocidental (províncias do sul, preferem dizer os marroquinos) é duplamente uma importante vitória diplomática. Primeiro que tudo porque depois de uma dúzia de Estados africanos terem nos últimos tempos aberto consulados em Layounne e Dakhla, outra cidade da antiga colónia espanhola, este nova representação diplomática será a primeira de um grande país árabe, depois do Dibuti e das Comores. Em segundo lugar, porque a data escolhida coincide com a semana em que é celebrada a Marcha Verde de 1975, nome dado à entrada de milhares de marroquinos no território, incentivados por Hassan II, sabendo o rei da vontade espanhola de retirar tropas e funcionários dado o cenário de grande incerteza política em Madrid, com Francisco Franco então moribundo (o generalíssimo acabaria por morrer a 20 de novembro daquele 1975).

O Arizona vingou John McCain, mas chegará para derrotar Trump?

Se se confirmar a vitória de Joe Biden no Arizona (até a Fox a prevê), o primeiro estado a trocar de partido entre 2016 e 2020 nesta noite eleitoral, o grande responsável será alguém que morreu há dois anos: John McCain, senador durante três décadas e candidato republicano derrotado por Barack Obama nas presidenciais de 2008. Donald Trump maltratou em vida McCain, o eleitorado do Arizona não perdoou neste 3 de novembro.