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Cenoura e cacete na versão Biden

Theodore Roosevelt destacou-se pela fórmula da cenoura e do cacete que usou para impor a influência dos Estados Unidos nas Caraíbas na primeira década do século XX. Joe Biden, o mais velho presidente americano, parece estar a seguir a fórmula do mais jovem de todos os antecessores, pelo menos em relação às ambições nucleares do Irão. E o ataque de sexta-feira contra milícias às ordens de Teerão no leste da Síria bem pode ser entendido como uma cacetada dada depois de os ayatollahs terem rejeitado as primeiras cenouras oferecidas pelo novo presidente. Estas vão da reabertura de negociações multinacionais até uma revisão das sanções repostas durante a presidência de Donald Trump, passando pela facilitação das viagens de diplomatas iranianos às Nações Unidas.

O fim da civilização dos tupperwares

Foi a Segunda Guerra Mundial que deu um grande empurrão ao uso do plástico. Apesar de materiais como o nylon ou o acrílico terem sido inventados uns anos antes, foi a sua utilização nos paraquedas e nos cockpits dos aviões que promoveu a produção em massa. E não admira que na América pós-1945 a ambição das famílias fosse ter a casa cheia de tupperwares, com a proliferação dos recipientes mundo fora a acontecer em paralelo com a das embalagens.

A Espanha em dívida com os jornais, o povo e... o rei

O chapéu tricórnio da Guarda Civil e o bigode a lembrar Cantinflas do coronel António Tejero podem, a 40 anos de distância, dar a ideia de que a tentativa de golpe de 23 de fevereiro de 1981 foi trágico-cómica, que nunca a democracia esteve ameaçada naquela data que os espanhóis sintetizam como 23-F. Mas se olharmos bem para as fotografias que imortalizaram o momento, Tejero tem uma pistola na mão, está rodeado de guardas civis com metralhadoras, e o terror nas Cortes é tal que os deputados estão no chão, obedientes às ordens carregadas de palavrões. Há exceções, uns valentes que ignoram os gritos: Adolfo Suárez, o chefe do governo prestes a ser substituído, o ministro da Defesa, o general Gutiérrez Mellado, e o líder comunista, Santiago Carrillo, que continua a fumar, talvez certo de que seria fuzilado desse por onde desse, tamanho era o ódio que lhe destinavam os franquistas desde a Guerra Civil de 1936-1939.

Com Jacinda não se brinca, com a covid também não

Lembra-se de Jacinda Ardern, a primeira-ministra neozelandesa que ganhou a admiração ao ter um bebé já no cargo (depois de se ter zangado durante a campanha com as perguntas sobre os seus planos de maternidade) e pedir ao marido para ser ele a tirar o essencial da licença? E que também foi extraordinária a conciliar a sociedade depois de um extremista ter atacado duas mesquitas e matado mais de 50 muçulmanos? E depois se destacou pela forma decidida como combateu a covid-19? Ora, Jacinda continua uma mulher de armas: agora ordenou o confinamento total (tirando farmácias e supermercados) em Auckland durante três dias após terem surgido três novos casos, com os infetados a serem um casal e a filha. Não brinca em serviço esta governante. E faz muito bem.

Eanes, o Império e a Catalunha

"Sem Império dificilmente teríamos mantido a independência em certas épocas. Seríamos uma Catalunha "menos"", disse o general Eanes, reagindo à retirada dos brasões coloniais da Praça do Império. Mesmo proferida noutro contexto, a afirmação do antigo Presidente sobressai quando se está em fim de semana eleitoral na Catalunha, região de Espanha em que, em vez de escolher um governo, cada votação se tornou um braço-de-ferro entre os campos espanholista e independentista. O eleitorado costuma partir-se quase ao meio, mas o sistema tende a dar uma ligeira maioria no parlamento de Barcelona à soma dos partidos que defendem o corte com Madrid e desta vez não deverá ser diferente, mesmo que o socialista Illa, até há pouco ministro espanhol da Saúde, seja o favorito.

"Genji Monogatari" em defesa das japonesas

Há duas maneiras de olhar para o papel da mulher na sociedade japonesa: mostrar as duas ministras vestidas de branco entre 23 homens de fato escuro na fotografia da tomada de posse do governo de Yoshihide Suga, em setembro, ou destacar Genji Monogatari, o clássico da literatura nipónica, escrito há mil anos por Murasaki Shikibu, uma cortesã romancista e poeta. Na verdade, o estatuto feminino na terceira maior economia mundial continua em transformação acelerada e é sintomático que as sondagens mostrem que uma maioria clara da opinião pública concorda com a demissão por comentários sexistas do presidente do comité organizador dos Jogos Olímpicos de Tóquio (reagendados para 2021, por causa da pandemia). Há uns dias, Yoshiro Mori afirmou que "as reuniões dos conselhos de administração com muitas mulheres demoram muito tempo" porque elas "têm dificuldade" em parar de falar. A indignação não se fez esperar, a começar pela governadora da capital japonesa, Yuriko Koike.

O aliado Portugal e a América de Biden

Calvin Coolidge, presidente dos Estados Unidos na década de 1920, recebeu António Ferro na Casa Branca e pediu-lhe que enviasse ao povo português una mensagem de amizade e confiança através do Diário de Notícias. O inesperado resultado do encontro na "White House", como escreveu então o jornalista (mais tarde contratado por Salazar para a propaganda do Estado Novo), aconteceu em 1927, o ano a seguir ao golpe do 28 de Maio, e confirmou que a mudança de regime não afetava as relações entre os dois países, velhos aliados. Quatro dias depois do 25 de Abril, também o reconhecimento da Junta de Salvação Nacional pelos americanos mostrava que a aliança, na altura já formalizada na NATO, era para manter. E sabe-se hoje como a diplomacia americana se esforçou em 1974 e 1975 para que a revolução não criasse um Portugal comunista.

O médico que se emociona quando o Dakar passa no Chile com a bandeira portuguesa

ExclusivoÉ na sua casa em São Martinho, freguesia do Funchal, que explica ser "a que fica perto do estádio dos Barreiros" e que engloba ainda os principais hotéis do litoral madeirense, que o médico Pedro Melvill de Araújo toma comigo este brunch via Zoom. "Bom dia", diz-me o também diretor do Rali Vinho da Madeira, erguendo uma chávena. "Café ou chá?", pergunto eu, a 972 quilómetros em linha reta, bebendo um expresso na redação do DN em Lisboa. Com um bom pedaço de Atlântico entre elas, a distância entre a capital da região autónoma e a capital do país é mais ou menos igual àquela entre Lisboa e Barcelona. Fico a saber que Pedro optou pelo chá. E confessando eu só uma vez ter visitado a belíssima ilha da Madeira pergunto onde, se este brunch limitado pela pandemia tivesse sido possível mesmo no Funchal, estaríamos agora. "Numa pastelaria engraçada que fica na estrada mesmo em frente ao Hotel Reid"s. Chama-se Petit-Four, como os bolinhos franceses, e é de um tio meu, José Henrique Cunha, que já tem 80 anos mas ainda está bem ativo", responde. Fica combinado um lanche a sério um dia destes na pastelaria vizinha do mais famoso hotel da ilha, cujo nome vem de uma família escocesa que no século XIX comerciava vinho Madeira, o tal que até serviu para Thomas Jefferson e os outros signatários em 1776 da Declaração de Independência dos Estados Unidos brindarem. E por falar em figuras históricas, Winston Churchill costumava ficar no Reid"s quando vinha à Madeira para descansar e pintar.