Autores

O que é preciso é animar Malta

Ainda me recordo do medo que os malteses sentiam, em vésperas de adesão à União Europeia, de ver as casas do país serem compradas por alemães e transformadas em residências de férias. Estive em reportagem nesses dias antes de 1 de maio de 2004 em Malta e também em Gozo, a outra ilha habitada do minúsculo arquipélago mediterrânico, e percebi, por conversas com quem esteve envolvido no processo negocial, que só cláusulas de exceção nessa matéria delicada da habitação tinham permitido avançar com uma integração, que, apesar de tudo, entusiasmava há muito a maior parte da população.

O semestre em que Macron faz duplo teste

Há várias formas de olhar para o liberal Emmanuel Macron e esta presidência francesa da União Europeia que se iniciou a 1 de janeiro, mas a mais provável é que jogue a favor do seu protagonismo, tanto interno como externo. Com eleições marcadas para abril, os franceses vão ter de escolher entre um candidato que vai estar sob os holofotes europeus, com um claro perfil de estadista ao fim destes cinco anos de mandato apesar da sua relativa juventude, e candidatos que lutam ainda para se apresentar como o representante inequívoco do seu campo político, algo que até acontece com Marine Le Pen, a dirigente da extrema-direita que em 2017 o enfrentou na segunda volta; a nível internacional, Macron assume a presidência dos 27 quase exatamente no momento da chegada ao poder de um novo chanceler, o social-democrata Olaf Scholz, o que significa que mantendo-se o eixo franco-alemão o presidente francês faz agora figura de parte mais experiente, o que não era o caso quando a democrata-cristã Angela Merkel governava a Alemanha.

Brincar com a ciência? Só o Sr. Feynman...

«Está a brincar, Sr. Feynman!» é um daqueles livros ditos de ciência (mas muito mais do que isso) que marca qualquer jovem. Está cheio de lições de vida, dadas da forma mais despretensiosa possível. Li-o na primeira edição portuguesa, em 1988 ou 1989, em vésperas de entrar para a universidade, e fiquei agora agradado que continue a atrair as atenções das novas gerações, tanto que teve direito a quarta edição revista por Carlos Fiolhais, que sucedeu a Guilherme Valente à frente da coleção Ciência Aberta, da Gradiva.

Sobre o Cazaquistão, falemos de sushi e de piscinas em vez de geopolítica

Vou falar de sushi e de piscinas e das visitas que fiz ao Cazaquistão, mas podia estar a falar da geopolítica da antiga parcela do império czarista e da URSS que desde a independência em 1991 é o nono país com território mais vasto e também o maior sem acesso aos oceanos, cerca de 20 milhões de habitantes numa geografia sobretudo de planície estépica encravada entre a Rússia e a China, e um grande exportador de petróleo e gás; podia também estar a falar da diplomacia da maior das ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central que embora aliada da Rússia e em boa vizinhança com a China soube nestas três décadas manter relações amistosas com os EUA e a UE e ganhar admiração na ONU ao desistir do seu arsenal nuclear apesar de ter sido o terreno de testes da URSS desde a era de Estaline; podia igualmente estar a falar da liderança de Nursultan Nazarbayev, o homem a quem Mikhail Gorbachev ofereceu a vice-presidência soviética mas que acabou por construir um país, negociando com sucesso as fronteiras, conseguindo que a etnia cazaque voltasse a ser maioritária sem que isso alienasse a comunidade eslava e assumindo a herança dos canatos de séculos passados, sucessores da Horda de Ouro, mas sublinhando mais o legado túrquico do que o islâmico; podia ainda falar da pequena comunidade portuguesa que vive em Nursultan (a moderna capital, até 2019 chamada Astana, onde se destacam projetos de Norman Foster como o Khan Shatyr, uma tenda gigante) e em Almaty (fundada pelos russos, cosmopolita como nenhuma naquela parte do mundo), tão bem integrada que há meninos e meninas luso-cazaques.

Quando uma só pessoa cruzar uma fronteira é notícia mundial

A notícia de que alguém vindo da Coreia do Sul tinha cruzado a DMZ e entrado na Coreia do Norte parece ilógica, tamanho é o fosso de desenvolvimento económico entre as duas metades da península, além de que a escolha é entre uma vibrante democracia e uma ditadura que junta resquícios de estalinismo com ultranacionalismo e culto da dinastia Kim. Mas não é algo inédito, pois conhecem-se alguns casos, sobretudo de fugitivos do Norte que nunca se habituaram ao modo de vida no Sul. E até de alguns soldados desertores americanos, como Charles Robert Jenkins, que viveu quase meio século na Coreia do Norte, casou-se com uma japonesa raptada pelo regime e teve com ela duas filhas.

“Português como língua de Timor foi consensual”

Celebrou ontem os 72 anos o homem que recebeu o Prémio Nobel da Paz em 1996, junto com o bispo Ximenes Belo, dando assim uma visibilidade global à luta do povo de Timor-Leste, antiga colónia portuguesa ocupada pela Indonésia. Depois da independência, em 2002, foi ministro dos Negócios Estrangeiros, depois primeiro-ministro e finalmente presidente da república. Vítima de um ataque armado quando era chefe do Estado, que o deixou entre a vida e a morte, recuperou e fez questão de manter um discurso de unidade nacional, como se nota nesta conversa com o DN em que a língua portuguesa, as relações internacionais do jovem país e o futuro da economia foram os temas.