Autores

Se o Constitucional de Berlim desligar a ficha

Lei é lei", dizia há dias António Costa, a acompanhar o envio para o Tribunal Constitucional de três diplomas aprovados contra o governo por toda a Assembleia, menos o PS, e promulgados pelo Presidente da República. Justificava Marcelo, ele próprio constitucionalista, que os tempos de absoluta exceção poderiam permitir fechar os olhos por um momento a uma norma inscrita na Lei Fundamental em nome da estabilidade governativa e da gestão orçamental, numa época em que seria inimaginável vivermos uma pandemia como esta.

Saúde, mas pouca

"Apelámos aos médicos e 6800 disponibilizaram-se para ajudar o Serviço Nacional de Saúde, uma percentagem significativa de reformados e alguns disponíveis para apoiar sem receber", relata Miguel Guimarães, em entrevista ao DN. Explica depois o bastonário que, em mais um momento revelador do que tem sido a atitude da ministra da Saúde, em plena pandemia de covid. De uma ministra que consegue, apesar de todos os solavancos, atrasos e casos, fazer "um balanço muito positivo da campanha de vacinação" em Portugal.

Saber gerir a crise

Três meses depois - e com milhares de pessoas a ficar para trás -, percebeu-se que é preciso simplificar e começar a vacinar pelos mais velhos, em vez de o fazer aos soluços, conforme se vai lembrando que existem pessoas expostas ao risco por toda a parte. Os responsáveis foram obrigados a ver que a vontade de proteger quem mais se expõe é subjetiva e injusta. Subjetiva, porque não se vê ninguém clamar, por exemplo, pela inoculação urgente dos funcionários do supermercado, que sempre garantiram que os portugueses - quantos deles infetados? - podiam continuar a comprar comida. Injusta porque desadequada da realidade da doença: quanto mais novas faixas se acrescentavam (governantes, doenças associadas, classes profissionais como os professores, etc.), mais para trás ficavam os velhinhos, que mereciam e precisavam de proteção urgente. Se o método dos SMS não estava a resultar, havia que detetar o erro e emendá-lo com rapidez.

O PR não se desvia - e Costa devia saber

Marcelo nunca escondeu que a sua missão era uma só: defender os portugueses. E se pode não estar totalmente sintonizado em permanência com o que os apoquenta, uma coisa é certa: não será manobrável por outros interesses. Certo é, também, que gosta pouco que façam dele uma espécie de rainha de Inglaterra, a anuir e acenar. A intervenção e a capacidade de mobilização do Presidente já ajudaram e muito o governo de António Costa a sair por cima de braços-de-ferro e a assegurar caminhos que nem sempre são caros aos partidos que lhe garantem a estabilidade governativa. Mas se o primeiro-ministro em algum momento imaginou que Marcelo se desviaria do que considera prioritário - nem que fosse por razões ideológicas -, enganou-se muito.