Van Gogh e a verdade sobre a orelha cortada

A carta do médico que assistiu o pintor após a mutilação está, pela primeira vez, em exposição. Como foram os últimos anos?

O debate era intenso e antigo: teria Vincent van Gogh cortado realmente a orelha na noite de 23 de dezembro de 1888, em Arles, a pequena localidade no sul de França para onde se mudou para melhorar a saúde? As dúvidas foram-se dissipando até restar apenas uma. Teria o pintor holandês cortado esta parte do corpo inteira ou apenas uma parte?

Um desenho numa carta escrita pelo médico que o assistiu, Félix Rey, esclarece que toda a orelha foi cortada com uma lâmina. A missiva está exposta pela primeira vez no Museu Van Gogh, em Amesterdão, até 25 de setembro.

O museu guarda o maior acervo de obras do pintor, mas nunca tinha abordado o tema da sua saúde mental de forma direta. Pretende, com a sua nova exposição, levantar o véu sobre as três perguntas mais frequentes entre os seus visitantes: o que aconteceu à orelha? De que padecia Van Gogh? Por que razão cometeu suicídio? E, ainda, levantar uma hipótese: a doença perturbava a sua pintura, em lugar de o inspirar?

On the Verge of Insanity (à beira da insanidade, numa tradução livre) foca-se nos últimos dois anos de vida - e produção artística - do pintor, procurando explicações sobre a doença mental de que sofria. Faz-se com 25 pinturas da sua autoria e objetos pessoais. Além da carta escrita pelo seu médico, expõe-se pela primeira vez a pistola que terá usado para pôr termo à vida, a 20 de julho de 1890. Foi encontrada no início dos anos 1960 por um agricultor (e hoje pertence a uma coleção privada).

Cortar a orelha foi o mais radical dos flagelos que impôs a si mesmo, mas não o único. "Sabia bem que uma pessoa podia partir os braços e as pernas e que depois podia ficar melhor, mas não sabia que se podia partir o cérebro e depois também ficar melhor", escreveu o artista ao irmão, Theo, em 1889, algum tempo depois de ter chegado a Arles.

Cansado e queixando-se de dores abdominais, como conta à irmã Willemien, toma a decisão de partir para o sul de França em 1888. Tem 35 anos e é nessa altura que pinta um dos seus autorretratos. Instala-se na Casa Amarela, um lugar que pretende converter em abrigo de artistas. O sonho quase se cumpre com a chegada, no final do ano, de Paul Gauguin. À espera do colega francês pinta vários quadros para a casa. Os Girassóis são para o quarto de Gauguin. O amigo fica impressionado e classifica--os de "completamente Vincent", um elogio para alguém que, em vida, não obteve reconhecimento como artista.

Inicialmente trabalham bem juntos, mas a relação acaba por se deteriorar. Discutem acaloradamente sobre arte. São muito diferentes: Van Gogh gosta da natureza, Gauguin é noctívago.

Nas vésperas do Natal de 1888, um transtornado Van Gogh corta a orelha e ameaça Gauguin com uma lâmina. O pintor francês queixa-se, por carta, a Theo e descreverá o sucedido anos anos depois na sua biografia, Avant et Après. Poderá ter mantido o assunto em segredo durante anos para proteger o amigo, dizem os historiadores.

A notícia de que Van Gogh tinha cortado a orelha chegou ao jornal com vários pormenores: depois de se automutilar, enviou a orelha a uma prostituta, causando rebuliço no bordel. As autoridades encontraram o pintor em casa no dia seguinte.

Van Gogh acabaria por ser internado no hospital de Arles, onde pinta a enfermaria (o quadro pertence à coleção Oskar Reinhart Collection e está nesta exposição). É nesta altura que o médico Félix Rey entra em cena. Acreditava que o pintor sofria de uma forma de epilepsia, causada por café e álcool a mais e comida de menos. Nunca houve, no entanto, um diagnóstico oficial. O médico receita-lhe Bromida, um medicamento popular na época, e um vinho medicinal usado para baixar a febre.

Theo vai a Arles depois de saber que o irmão tinha mutilado a orelha, mas fica apenas um dia. Mantém contacto com o médico. "Quando lhe perguntei o motivo que o tinha levado a cortar a orelha disse-me que era estritamente pessoal", escreveu-lhe Félix Rey.

A carta que agora se pode ver na exposição foi escrita já em 1930, para o escritor Irving Stone, que pretendia escrever uma biografia do pintor. "A orelha foi cortada com uma lâmina como mostram os pontos tracejados", escreve o médico na missiva, encontrada num arquivo norte-americano por um historiador amador, interessado na vida de Van Gogh. Deita assim por terra a versão de que teria sido Gauguin a cortar-lhe a orelha com uma espada.

Depois de deixar o hospital de Arles, e de volta a casa, pinta os dois autorretratos sem orelha que se conhecem, e a natureza morta com cebolas, ao lado de vários objetos pessoais: cachimbo e tabaco, um envelope para o irmão, uma garrafa de absinto, um livro de remédios.

Os vizinhos de Van Gogh organizam uma petição para que abandone a Casa Amarela, outro dos documentos inéditos que se pode ver na exposição. Ele sente-se devastado. "Não sou um perigo para ninguém", dirá ao reverendo protestante Salles, outra das pessoas que mantém o irmão informado acerca do estado de saúde do pintor.

É ele quem revela a Theo que Van Gogh lhe perguntou se deve internar-se voluntariamente, o que acabará por acontecer. A 8 de maio de 1889 entra no asilo Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy. Mais uma vez, é-lhe diagnosticada epilepsia. Agora, acompanhada de insanidade aguda e alucinações. Pinta a entrada do hospício, e é autorizado a transformar uma sala em estúdio. Usa a vista da janela para o jardim nas suas obras. E também alguns dos seus colegas. "Passando tanto tempo com eles já não os achamos loucos." Receitam-lhe banhos quentes e frios duas vezes por semana como tratamento. Sofre mais uma crise quando está a pintar numa pedreira. Deixa o hospício um ano depois e muda-se para Auvers, para estar perto do irmão. Quatro meses depois, e sem nenhuma esperança, comete suicídio.

Na impossibilidade de conhecer mais sobre o seu estado de saúde, levantam-se teses: seria um distúrbio maníaco-depressivo, esquizofrenia ou envenenamento por alcoolismo? Sabê-lo altera o conhecimento que temos da sua obra? Há uma relação entre criatividade e loucura? Perguntas para um simpósio que se realiza nos dias 14 e 15 de setembro no museu.

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