Uma tragédia com sabor a queijo e goiabada

Numa cozinha, o Teatro Praga faz "Romeu e Julieta" para um público jovem, inspirando-se na sobremesa com o mesmo nome e sempre a desmontar estereótipos. A partir de hoje no Teatro Maria Matos.

O que é que vocês "pufuriam"? "Pufuriam" uma história com muitos mortos e muito sangue ou "pufuriam" uma sobremesa "muita"docinha? A opção é entre Romeu e Julieta, a tragédia que William Shakespeare escreveu no século XVI, e a sobremesa ao estilo cheesecake, feita com queijo e goiabada, a que os brasileiros chamam também Romeu e Julieta. Na impossibilidade de se chegar a um consenso, o melhor é mesmo contar a história primeiro e preparar o bolo para comermos depois. É isso mesmo que acontece em Romeu & Julieta, uma excelente e lamentável sobremesa, o espetáculo que o Teatro Praga criou para pessoas com mais de nove anos e que se estreia hoje no Teatro Maria Matos, em Lisboa.

Para percebermos como nasce este espetáculo temos de recuar dez anos quando naquela mesma sala estava em cena um Hamlet encenado por João Mota e protagonizado por Diogo Infante, que era diretor do Maria Matos. Os Praga foram desafiados a fazer uma versão da tragédia de Shakespeare para o público mais novo. Esse espetáculo, Hamlet sou eu, "é o maior blockbuster da companhia, ainda o fazemos e vamos continuar a fazer", explica a atriz Cláudia Jardim. Dez anos depois, a mesma equipa criativa - além de Cláudia, o ator Diogo Bento e ainda Pedro Penim (que não interpreta) - volta ao Bardo. Este espetáculo é "como um irmão mais novo" e, portanto, tem algumas semelhanças com o outro, sobretudo na ideia de se "tentar contar várias versões da história", através da manipulação de objetos do quotidiano.

O ponto de partida para a adaptação foi, contudo, bastante diferente: "Assim que soubemos que no Brasil há uma sobremesa com o nome Romeu e Julieta não podíamos não usar isso", esclarece Diogo Bento. O palco é, então, transformado numa cozinha, onde há micro-ondas, misturadora e tudo o que é preciso para fazer o cheesecake, e lá estão dois cozinheiros, com aventais que anunciam a família dos Capuleto e dos Montéquio.

Diogo começa a contar a história onde pode acontecer que o Romeu seja uma embalagem de queijo-creme e a Julieta um pacote de açúcar. Mas Cláudia vai ficando muito escandalizada com esta história de amor onde há lutas com espadas, gente a morrer nas ruas, uma criança de 13 anos e um rapaz de 15 que decidem casar e um padre que abençoa esta união. "Aos olhos de hoje não é propriamente uma história apropriada para crianças, pois não?", pergunta. Vai daí, decide contar a sua própria versão, onde Romeu e Julieta são interpretados por duas raparigas do público (porque ninguém disse que só há amor entre um menino e uma menina), onde em vez de cartas se mandam emails, onde os apaixonados falam no whatsapp e onde até podem aparecer o Justin Bieber e a Selena Gomes, um pouco de Kill Bill (o filme de Tarantino) ou a canção Je T"aime Moi Non Plus (de Serge Gainsbourg e Jane Birkin). "Mas a história de Shakespeare está toda lá", garante. E no final há sempre bolo de queijo e goiabada para todos.

Romeu e Julieta
Hoje (16.30) e amanhã (11.00 e 16.30) e dias 28 e 29
Bilhetes entre 3 e 7 euros
Teatro Maria Matos, Lisboa

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