"Uma coisa é cair nos Globos de Ouro, outra é em Cannes"

Joana Ribeiro vive dias da explosão internacional. Depois do frenesim do Festival de Cannes com O Homem Que Matou Dom Quixote, de Terry Gilliam, chegou a vez de mostrar o seu talento no mercado espanhol a partir de hoje com a estreia do filme.

Joana Ribeiro chega ao estrelato internacional depois de ter sido descoberta no cinema português por Carlos Saboga em Uma Hora Incerta e de uma carreira de sucesso na ficção televisiva. Hoje, estreia-se nas salas espanholas em O Homem Que Matou Dom Quixote.

Como foi a sensação de estar na subida das escadas do tapete vermelho de Cannes, ao lado do Terry Gilliam, do Adam Driver e de todos aqueles atores?

Não me lembro do que senti na red carpet, lembro-me de pensar que não podia cair e todos os meus esforços serem nesse efeito. Uma coisa é cair nos Globos de Ouro, outra é em Cannes [risos]. Mas foi bom poder fazê-lo com o elenco do filme e com o Terry. Foi tudo tão intenso naqueles três dias que ainda não acredito que aconteceram - é estranho. E foi a realização de algo que levou mais de 20 anos para ser feito... foi muito especial fazer parte daquele momento. Acho que a palavra certa é essa: especial. Muito. Sentia-se no ar o amor de toda a gente que fez parte deste projeto. Foi mesmo um projeto de amor e família. Mas tem graça que vejo as fotos e não faço ideia do que estava a falar e porque estava a rir. Aliás acho que só acredito que aconteceu porque há fotos que o provam...

E como foi suportar a maratona de entrevistas promocionais que deu para a imprensa de todo o mundo mais os deveres protocolares de Cannes? Sei que teve de fazer sessões de fotografia em catadupa...

Vou ser franca: foi assustador!

O truque não é ser igual a si própria?

Sim! Por outro lado, não posso dizer tudo o que me vem à cabeça. Vivemos tempos conturbados e já não se pode dizer tudo. Nas entrevistas de Cannes, a estratégia foi porem-me ao lado do Terry, que fala muito. Tive muita sorte, ele sabe muito! Mesmo quando não falei, ouvi muito. Isso foi ótimo. E também estive com os atores. Quando os jornalistas têm o Adam Driver, o Jonathan Pryce, a Olga Kurylenko, a Rossy de Palma ou o Stellan Skarsgard, preferem sempre fazer as perguntas a eles e isso foi ótimo para mim...

Senti que muitos perguntavam quem era essa portuguesa...

Sinceramente, não sei se causei curiosidade. Pelo menos, não reparei. Sei que encontrei pessoas que não faziam a ideia de que era portuguesa. Creio que isso é fixe, quanto mais não seja porque a minha personagem é espanhola. A maior parte perguntou-me como foi trabalhar com o Terry.

Importa revelar como chegou a este papel...

Só agora é que estou a ter a noção do tamanho deste projeto. No início parecia que ia fazer um filme mais pequeno. Tudo começou como uma audição normal e depois foram três meses a filmar com pessoas supernormais... A grande diferença é que são grandes estrelas mundiais. Não faço ideia do que esta oportunidade pode vir a dar... Nem sei se pode vir a dar alguma coisa! Até pode ser pior! [risos] O que sei é que foi supergiro trabalhar com o Terry Gilliam - uma experiência inesquecível. Já ninguém me pode tirar isso.

Lembro-me de a ver depois na festa do final do festival onde estava o Sting e outras estrelas internacionais. Sentiu aquele efeito de Cinderela no baile?

O Sting estava lá? Não fazia ideia! Honestamente, acho que isso resume o meu estado... parece que foi tudo irreal. Mas lembro-me de confraternizar com portugueses! Estávamos em Cannes, mas sabe tão bem falar português e ver caras de casa, quero lá saber do Sting!

Por outro lado, para além da festa, Cannes foram dias em que a sua agenda poucos minutos livres teve. As pessoas têm aquela ideia de que um ator com um filme em Cannes se diverte imenso, mas não é bem assim...

Em Cannes não tive um minuto para respirar! A agenda esteve sempre cheia: entrevistas, maquilhagem, prova do vestido, etc. Por exemplo, na noite da estreia, tiveram de fazer-me a maquilhagem e o cabelo muito cedo, pois a maquilhadora e a cabeleireira tinham mais atrizes a seguir para tratar. Sendo portuguesa, foi o que se arranjou...

Uma portuguesa que faz de uma Dulcineia que não é bem Dulcineia e fala em inglês mas é espanhola...

Ela é uma rapariga espanhola que se torna atriz num filme americano de um jovem cineasta chamado Toby e aí interpreta Dulcineia. Ela corresponde ao retrato de inocência de que o Toby estava à procura. O que gosta nesta personagem é a possibilidade de a poder compor em duas alturas distintas da sua vida: primeiro quando é miúda e inocente, ignorando o mundo e as coisas más que a rodeiam. Depois, mais tarde, quando já foi manchada pela sociedade, pelos homens e pela vida. Foi muito interessante fazer essa mudança no papel.

Por coincidência ou não, está numa grande produção internacional que parcialmente foi rodada em Portugal. Houve aquela coisa de em Tomar se ter sentido mais em casa?

Em toda a rodagem nunca nos divertimos mais do que em Tomar. Filmámos sempre à noite e, mesmo na folga, saíamos à noite para manter os horários. Foram duas semanas muito intensas, com o elenco todo! Grande parte das cenas do filme passam-se ali. Para mim, foi um bocado estranho. Tinha estado antes dois meses todos os dias a falar inglês, espanhol e francês e, de repente, português. Foi assim um bocado para o claustrofóbico e esquizofrénico! A equipa de filmagens era realmente mista e eu aproveitei para treinar as línguas que se falavam.

Nesta altura coloca a hipótese de sair de Portugal para apostar em pleno numa carreira internacional?

Vivemos num mundo tão mais global que é mais conseguirmos coisas lá fora sem sairmos do conforto de casa. Mas só saio de Portugal por um projeto interessante, não apenas por ir. Não tenho essa coisa de dizer não saio, mas o ir à procura não é bem o que me apetece. Sinto que as coisas podem acontecer a partir de Portugal. Honestamente, o que queria obter mais de O Homem Que Matou Dom Quixote era trabalhar mais em Portugal e fazer mais cinema.

Não encara então a hipótese de se instalar noutro país durante um tempo?

Não... Por outro lado, gostava de ir estudar para fora durante um tempo, sobretudo para ficar mais próxima de uma outra língua. Paris, por exemplo, atrai-me, tal como Itália...

A batalha jurídica pelos direitos desta obra passou-lhe ao lado?

Passou-me um pouco ao lado, não tenho bem a noção do que aconteceu. Entrei no filme ainda com o Paulo Branco e acabei-o nesta confusão! E ainda bem que não percebo, não preciso de saber. Sou atriz e o que quero é trabalhar. Dou-me bem com o Paulo e também com o Terry. É assim que quero que continue.

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