Tomb Raider: Alicia Vikander submetida ao simplismo 

Do drama para a aventura, a atriz que ganhou um Óscar pelo filme A Rapariga Dinamarquesa, carrega às costas este relançamento da saga de Lara Croft que agora estreia

Ação. Muita ação. E mais ação. Perseguições umas atrás das outras. Obstáculos, armadilhas e charadas sem pavio de mistério... Nunca é demais lembrar que Tomb Raider é um videojogo transposto para o grande ecrã, e é por essa lógica que se rege em toda a sua dimensão comercial. Começou por ter Angelina Jolie no papel da heroína, Lara Croft, em dois filmes, de 2001 e 2003, que acicataram o sucesso das séries de jogos, e está de regresso agora (estreia-se hoje) com a sueca Alicia Vikander a tomar o lugar da destemida protagonista.

Valerá a pena fazer uma breve comparação? Na verdade, não há uma distância substancial entre a qualidade de execução das duas atrizes (porque os filmes prescrevem isso mesmo, desempenho físico), mas se alguma coisa se pode notar é que a sensualidade da primeira já não mora aqui. Vikander é uma jovem cheia de genica e com um carisma apreciável, mas a sua performance não é da ordem da sedução, como a de Jolie. Pelo menos neste primeiro filme do reboot...

Em todo caso, é a ela que dirigimos a nossa simpatia no relançamento da franchise. Vikander é uma atriz com muitas provas dadas no registo dramático, sobretudo em filmes de época, como Testemunho de Juventude (2014) ou A Luz entre Oceanos (2016), tendo ganho um Óscar por A Rapariga Dinamarquesa (2015), com uma belíssima interpretação ao lado de Eddie Redmayne, numa história de amor particularmente exigente. A noção clara do seu crescimento está assim em cada um dos trabalhos que vai somando, com uma consistência admirável.

Como é que ligamos então essa arte depurada a uma performance submetida ao simplismo? Dir-se-ia que esta nova incursão no género da ação, desviando-se da linha geral do drama, representa a pesquisa da atriz, a procura de uma mais--valia chamada versatilidade, tão preciosa para a manutenção de uma carreira em Hollywood...

Cinema de afirmação feminina?

Note-se, por outro lado, que estamos a assistir a uma nova vaga de heroínas - entre agentes secretas, como Charlize Theron em Atomic Blonde, e guerreiras com superpoderes, como Gal Gadot em Mulher--Maravilha - que refrescam o panorama. É um tempo propício a mudanças, à afirmação das mulheres, na sequência da polémica do assédio sexual na indústria cinematográfica, que encontra uma forma de simbolismo neste tipo de produções. Mas será isso sinónimo de novas ideias? Não propriamente. Na essência, trata-se de aplicar a matéria dada, com a diferença do protagonismo feminino. A generalizada crise da imaginação persiste.

Com assinatura do norueguês Roar Uthaug, que teve oportunidade de treinar os efeitos especiais no seu anterior filme catástrofe, Bolgen: Alerta Tsunami (2015), Tomb Raider é um produto que vem apenas cumprir os requisitos básicos dos blockbusters, na expressão mais pobre do cinema de aventura. Esta é a história de uma jovem Lara Croft, que ganha a vida com trabalhos de estafeta, apesar de ter um papel de herança à espera de ser assinado, e que vai à procura do seu pai desaparecido aos confins da terra. Tudo começa com um jogo (demasiado fácil) de quebra-cabeças que lhe dá a pista para o lugar secreto onde este escondia as suas obsessões de explorador. Entre as memórias de infância, que nos vão chegando em flashbacks, e outros indícios, a imersão no universo familiar da heroína prossegue, desembocando no mito de uma "Rainha da Morte" japonesa, Himiko, cujo túmulo deve ser protegido de uma organização que quer dominar o mundo...

É aqui que se instala a temática do sobrenatural versus realidade, sem grande desenvolvimento narrativo, mas tentando garantir algum enigma. E é também aqui que Lara Croft se apronta para a primeira viagem de risco, movida pela esperança de reencontrar o pai, e preparada para desafios inesperados. Ora não será senão isso que preenche as quase duas horas de entretenimento de Tomb Raider, entre uma violenta tempestade marítima, corridas ao estilo de Tarzan, acrobacias várias e uma firme pose de arco e flecha. Certo é que, embora Lara Croft represente o equivalente feminino de Indiana Jones, não há uma visão estabelecida por detrás das suas peripécias, como acontece com a icónica saga do veterano Steven Spielberg. Aqui é uma máquina produtiva que nos leva atrás da protago- nista sempre em fuga e demasiadas vezes à beira do abismo. Mudam-se os cenários (cidade ou floresta), repetem-se os movimentos de câmara e a adrenalina de Croft.

No meio de tudo isto, dá para vislumbrar uma certa sinceridade de Uthaug, que quis agarrar a linguagem da aventura, usando os seus principais elementos, esperando que a energia e espessura dramática de Alicia Vikander fosse só por si suficiente para dar robustez ao filme. Mas se é verdade que a atriz carrega Tomb Raider às costas, garantindo uma residual carga humana, também se torna por demais evidente que não há um verdadeiro interesse no drama familiar de Croft. O filme está demasiado preso à génese do videojogo, à especificidade dessa gramática que tem vindo a contaminar algum do cinema de ação. E nesse sentido, todos os pequenos esforços que se fazem para dar a mínima densidade emocional à narrativa caem em saco roto.

Vale a pena colocar a questão: qual a diferença entre estar diante de um grande ecrã e em casa com um comando na mão? Atenção, não se trata de menosprezar as origens de Tom Raider - que é a mesma de Assassin"s Creed ou Warcraft -, mas de perceber os limites da expressão cinematográfica. Ou melhor, tentar descobrir as possibilidades de uma adaptação, preservando qualquer coisa de genuíno. Vejam-se atores como Kristin Scott Thomas e Dominic West, que integram o elenco como personagens que facilmente se perdem no jogo dos movimentos... Enfim, resta esperar pela sequela que se anuncia.

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