Retrato de época de um real pintor

A arte também vai de férias. Esta semana, a aguarela "Praia de Cascais", do rei D. Carlos I.

Será Dona Amélia a figura feminina a que D. Carlos deu contornos nesta aguarela intitulada Praia de Cascais? Realizada em 1906, faz parte do conjunto de cerca de três mil obras de arte que compõem a coleção da Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves, em Lisboa. Ana Anjos Mântua, coordenadora da casa-museu, diz ter "algumas dúvidas" que "a figura feminina, coquette, serpenteada, que ocupa todo o centro da composição, espelhando um olhar masculino erotizado, seja a rainha D. Amélia".

Comprada pelo médico oftalmologista em 1933, a aguarela estava rasgada junto à assinatura, apresentava manchas de bolor e vinha colada sobre cartão cinzento. Por isso foi restaurada em dezembro desse mesmo ano.

Sobre a aguarela, que nem sempre está exposta na casa-museu por ser uma obra muito frágil mas que no outono poderá ser vista numa exposição que a casa-museu está a preparar, Ana Anjos Mântua considera que o rei D. Carlos I mostra a sua perícia oficinal como aguarelista fazendo "um uso subtil dos brancos acinzentados de azul que formam o vestido ondulante, bem como a mancha de mar e de céu". A responsável destaca ainda "os ocres rosados da areia e das velas das embarcações" que se repetem na faixa que envolve a silhueta feminina. "A sombrinha e o adorno do chapéu, de cor vermelha, assumem quase uma marca de modernidade impressionista", aponta ainda a responsável daquela que foi a primeira casa de artista da capital, Prémio Valmor em 1905, mandada construir por José Malhoa ao arquiteto Norte Júnior, para sua casa de habitação e ateliê de trabalho.

Adquirida em 1932 por Anastácio Gonçalves (1889--1965), foi aí que viveu e organizou a sua coleção até ao ano da sua morte. Era no primeiro piso, no espaço do ateliê, "que colocava as aquisições mais recentes para mostrar aos amigos", conta Ana Anjos Mântua. Após a morte do médico, e por sua vontade, o edifício foi legado ao Estado Português para aí se criar um museu, o que aconteceu em 1980.

Porcelana chinesa, mobiliário português e estrangeiro e pintura portuguesa dos séculos XIX e XX são os três grandes núcleos do acervo. Não admira, por isso, que o colecionador - "que por vezes até servia de consultor aos antiquários", refere a coordenadora da casa-museu - se tenha interessado por uma aguarela de D. Carlos I, um artista que, em 1892, aquando da exposição do Grémio Artístico, Fialho de Almeida apontava como "entre os pouquíssimos que, neste país de costa, verdadeiramente sentem a marinha". Logo na infância, os primeiros desenhos e aguarelas do monarca, que então assinava apenas como C.F. (Carlos Fernando), indicavam já o seu gosto pelo mar. E sendo a então vila de Cascais local privilegiado do veraneio da corte, foi aí que o rei pintou algumas das suas mais conhecidas e emblemáticas obras, como a que se destaca nesta página.

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